sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ECO

Olívia,

Primeiramente, como é que tu tá? Faz tempo que agente não se vê, a última vez foi no aniversário de Pedro. Bem, eu tô bem, mainha tá mandando um beijo, disse pra tu ficar bem, mas que acha que é melhor tu ficar aí por uns tempos.
Eu tô sentindo muito a tua falta, teve a festa de são joão lá na igreja todo mundo (menos o pastor) perguntou por tu. Eu disse que tu viajou.
Olívia, eu to mandando essa carta pra te pedir desculpas, pelo o que eu te disse, Eu não acho nada daquilo que eu disse mas eu disse tudo aquilo que os outros achavam de você , por que naquele momento eu fui como uma esponja e absorvi o pensamento dos outros, não sei como nem por que, mas foi assim.
Tu sabe que eu te amo muito Olívia, quando tu voltar eu quero que tu fale comigo, senão é muito provavél qe eu faço o mesmo que tu tentou fazer no banheiro.
Tu é meu braço esquerdo, e eu sou canhoto.
Algumas coisas que tu fizeste no começo do ano são dificeís de engulir, se coloca no lugar de mainha, só te peço isso. E quando tu voltar agente já vai ter se mudado pra Jaqueira.




Beijão, João (rimou)

João,

A situação aqui tá insustentavél, eu chego aí na quinta feira, qualquer coisa eu fico na casa de vózinha. Não eu não tô muito bem não, mas também não tô mal João, eu fiquei muito triste com o que tu me falou, muito mesmo, e não adianta falar que tu não queria me dizer aquelas coisas que eu sei que tu queria, enfim, não tô com raiva de você.
João tu é lindo por dentro e por fora, esquece tudo que tá por fora, quem tu ama tá dentro de tu, fecha os olhos, e vê as costas das tuas pálpebras, esquece dos outros, eles são pequenos, e eu temo que tu fique do tamanho deles. Mas eu vou tá aí pra te libertar hahahahahahha
Eu não me arrependo de nada que eu fiz, e eu quero deixar bem claro que eu não fiz nada de errado, eu amei muito Ayala, e não me arrependo de tê-la amado, faria de novo.
Ai o caminhão de lixo tá passando aqui, aqui eles passam de tarde pra não atrapalhar o sono dos velhos, na Europa é cheio de velho João. Por falar em velho como tá meu velho??? Tu e ele são as únicas pessoas que eu tenho certeza que me amam, manda um beijo enooorme pra ele. Tenho dúvidas quanto a veracidade so sentimento de mainha, não, talvez ela goste de mim, mas meio argh, sabe? culpa do HOMEM.
Ei sabe o que foi que a mulher aqui da minha familia veio me dizer? que brasileira por aqui tinha fama de PUTONA hahahahahahahahahahahhahahahahahahahhaha, bora escrota.
Só me lembrei de tu, não que tu seja uma putona, mas eu sei que tu ia rir.

Tá quase na hora do francês, eu tenho que ir, até quinta João.
Eu não vou ficar aí se O HOMEM DA CASA estiver, ok?

Um beijo do tamanho do Louvre ( meu Deus que labirinto é aquele?), e não rimou ok? Tabacudo, te amo.

Palito,

Eu também tô com muita saudade de você minha linda, minha flor, minha Olívia Palitinho.
Soubemos que você tava de caso com uma menina né? Minha casca é grossa mas meus pensamentos não minha filha, você sabe que eu lhe apoio, nas suas escolhas, mas digo logo que sua vó não gostou muito da sua "aventura". Mas não se sinta mal com a opinião dos outros, você sabe que sua vó é muito mais coerente que eu, ela é velha por fora é por dentro. Minha vida teria sido bem diferente se eu não tivesse me casado com Berenice, ela tá com barba Palitinho. Mas enfim você não é meu analista.
Nós lhe amamos muito, disso pode ter certeza, e sua mãe também, ela já me disse isso, ela ama lá do jeito dela filha. Não culpe ela, você sabe de quem é a culpa: das outras pessoas, nem é de João, ele tá contra a parede minha filha. Tô lhe falando essas coisas por que sei que você tem maturidade suficiente para entender. Por falar em maturidade eu resolvi aprender a tocar clarinte. É preciso ser maduro pra tocar clarinte. Se lembra que elhe disse na apresentação da orquestra sinfônica lá no santa Isabel? O clarinte se aprende por último, depois de cansado de guerra, feito eu, O clarinete é muito doce, é quase um orgasmo de sereia, um sopro de vida, ele é a sobremesa. Vou te ensinar quando chegares. Vem direto pra cá, não passa em casa não, é melhor Palitinho, tu sabes que teu vó te ama né? Liga pra mim pra dizer o horário do vôo direitinho tá?

Beijo grande, Lamartine.



A VOLTA


Eu desci do carro , bati a porta, mainha fez o mesmo do lado do motorista. Agente tava indo ver Olívia que tinha chegado um dia antes na casa do meu avô. Toquei a campanhia, quem abriu foi ela. Primeiro ela deu um passo pra trás, seus olhos ficaram molhados e ela pulou no meu abraço, foi tão rápido que nem sei como percebi isso. Foi educada com nossa mãe, apesar dos últimos acontecimentos.
Fazia uns dois meses que eu nao via minha irmã, ela tava na França numa cidade chamada Argenteuil fazendo um intercâmbio forçado. Foi sugestão de mainha, que não queria continuar a ver meu pai e Olívia discutindo todo o dia e todo dia, a questão é que minha irmã tava namarondo com outra menina, uma tal de Ayala, que é filha de romenos diga-se de passagem. Meu pai nunca aceitaria, na verdade a única pessoa que não viu problema foi meu avô.
Sentamos no terrraço, pra comer pitomba tirada no dia, eu fiquei olhando o enorme cabelo dela, balançando, cabelo preto, liso-lambido.
A saudade que eu senti era muito grande, agente sempre foi muito apegado, até ela começar com essa história de ser diferente. Ela sempre gostou de tocar violão e cantar, tocava mesmo, fazia conservatório antes de viajar, se apresentava e tudo mais.
- Ei, e como foi lá? Eu perguntei
- Ai foi um saco, tipo, lá é muito organizado e tal, Paris é uma festa, é linda, mas as pessoas sabe?
Não tinha tu João, não tinha meu velho tava foda, e eu tava quase todo dia tendo tontura, um dia eu desmaiei no colégio, mas foi só alguns segundos.-Disse minha irmã com a calma que lhe era própria.
- Tu desmaiou?? Meu Pai, o que que tu teve??- Perguntei assustado
- Saudade. Respondeu Olívia com uma calma irritante.
- Agente tem que ver isso Olívia, ir no médico sei lá,
- Besteira, foi só lá mermo. E cadê teu pai ?
-Teu pai também né?-retruquei
- Meu mesmo não, ele é o HOMEM DA CASA, é assim que ele quer ser, espero nunca mais ver ele. disse Olívia com uma pitomba na boca.
-Ai que dram...
-Drama uma porra, tu não sabe o que eu passei não João-disse ela alterando a voz.
- Tá esquece isso- ela amenizando-Mas eu vou continuar aqui. Meu velho tá me ensinado a tocar clarinete, disse que eu já sei violão demais. João, nunca mais fala o que tu me falou, nunca me senti tão mal, se tu me ama de verdade, me aceita João.
-Olívia... -disse eu olhando pros lados procurando um buraco.-Eu não já te expliquei em carta isso.
Minha mãe chegou com minha avó no terraço, e se sentaram, minha avó Berenice era baixa velha e gorda, e não tirava os olhos da minha irmã, que para ela era uma mutação genética. Minha mãe arrancou do caixo uma pitomba. Olívia se levantou. uns cinco minutos depois de silêncio e eu fui atrás dela, fui caminhando pelo corredor escuro no fim da tarde da velha casa no Poço da Panela, vi pela fresta da porta Olívia conversando com meu avô.
-É melhor eu ir mesmo né vô?
-Você que sabe minha filha, as portas tão abertas viu? e se você for por favor leve sua avó e deixe ela no meio do caminh...
-João entre meu filho. disse meu avô constatando a minha presença.
Olívia veio e sentou no meu colo, meu avô tava deitado a janela tava semi-aberta, a colcha da cama que ele tava eu me lembro bem, era a que ele mais gostava, uma colcha de fuxico, que minha mãe e minha tia Sandra tinham feito pra ele quando eram "jovens e livres", palavras do velho. Era a penúltima vez que eu veria a colcha.
Meu avô achava que o casamento das suas duas tias tinham surtido o memso efeito do dele. A infelicidade, por conta de um dos membros. meu avô também não era flor que se cheirasse, traía minha avó dentro de casa! Nunca teve apego com religião nenhuma, quando minha mãe começou a frequentar a igreje Presbiteriana, meu avó falou muito, ainda fala, por que eu sigo. E o pior foi lá que minha mãe conheceu meu pai, que é proibido de pisar na casa do velho Lamartine (meu avô), os dois não se batem, sabe? O que meu avô mais odiava: Meu pai, a minha igreja, e ignorância, aah e a minha avó. E o que ele mais amava era minha irmã (palito), o pé de pitomba que ele plantou, e tocar piano. Nos desepedimos dele, (Olívia que o diga), quase não largou o velho, eles se amavam de verdade.
Olívia decidiu voltar com agente pra casa, eu peguei suas malas, e ela pegou o violão. Agente morava em Boa Viagem, mas ia se mudar pra Jaqueira, já tava quase tudo encaixotado. Quando agente abriu a porta do apartamento ,meu pai tava sentado no sofá com uma lata daqueles sucos industrializados( Olívia disse que achava que ele tomavam aquilo pra ter alguma lata pra segurar quando assistia televisão, já que não podia beber cerveja pelo fato de ser evangélico), eu suei frio, Olívia podia soltar uma gracinha qualquer que ia desencadear uma confusão tremenda. ela passou e disse:
-Meu Deus, tá tudo encaixotado já.
passando por nosso pai ela disse docemente, como era sua habilidade.
-Olá.
-Olá-respondeu meu pai com um tonzinho de ironia burra.
Olívia se virou pra mim colocou a cabelça no meu peito , e seu braço nas minhas costas, e disse que queria dormir no meu quarto.
Quando eu abri meus olhos na manhã do outro dia (era sabádo),ela tava com cotovelo apoiado no colchão apoiando a cabeça com o braço, me olhando.
-Bom dia flor do dia.- disse ela
O telefone começou a tocar.
Alô, mainha atendeu, ela disse:
Não, eu tô indo pra aí.Bateu o telefone e foi repetindo: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus.
Eu perguntei assustado o que tinha acontecido, talvez no fundo eu já soubesse, Olívia veio correndo, meio sorrindo, meio séria. Quando minha mãe ficou de joelhos chorando, e segurando a nossa mão, Olívia desmaiou.



O COMEÇO DO FIM



Meu avô, Lamartine, morreu de manhã cedo em casa mesmo, sobre a colcha que tanto gostava morreu dormindo, oque foi um alivío pra minha avó, que não teve que ouvir nada.
Olívia ficou no hospital com a irmã do meu pai Rosa, de quem ela gostava bastante. Aconteceu tudo muito rápido, nunca vi minha mãe chorar tanto, e nunca vi Olívia tão calada. passou os dois primeiros dias sem falar n a d a. depois voltou a falar normalmente, mas não quis comparecer a nenhum dos eventos (enterro, funeral e tal). Mas o que é estranho é que Olívia não parecia estar triste, ela parecia tá perdida, sei lá. Achei estranho. Basicamente não chorou.
Voltamos pra casa, todo mundo, meu pai se mostrou até compreensivo para com a minha mãe. Olívia tava bem. No outro dia de manhã, colégio, agente era da mesma sala. Olívia fez questão de ir, disse que não estava mais tão triste.

Era a segunda aula, química, Olívia detestava profundamente, ela tava dormindo, eu olhei pra ela, normelmente eu a teria acordado, mas não naquele dia, era tudo muito recente. De repente eu ouço:

-João, Joãão- bem baixinho ela me chamava.

Olhei pra ela ela parecia ter sido atropelada, a mão segurando a cabeça, sangrava. Eu gritei, peguei na mão dela, e agente saiu da sala. A coordenação tomou as medidas e mandou ela pro hospital. Ficou internada dois dias, não fui pra aula nesse período. Ninguém tinha miníma idéia do que tinha acontecido, pela primeira vez na minha vida eu vi meu pai chorando( discretamente, é claro). Uma avalanche de exames, e a notícia: Olívia tinha um tumor no cérebro, mais ou menos do tamanho de uma manga.

Nunca vou me esquecer desse dia. Agente já tava em casa, ela perguntou:

- E ai, eu tenho oque?

Meu pai sentado com a velha lata de suco, olhou pra minha mãe, eu que tava até normal repentinamente, como num vômito comecei a chorar. Ela olhou pra mim, com aquele rosto dela, o cabelo grande e preto, meio no olho, e aquele olho dela me fitando, eu parei de chorar, a boca dela se contraiu um pouco, virou pra minha mãe e repetiu:

-o que, eu quero saber.

- Você tá com um tumor minha filha, ninguém suspeitava, é inespe...

- De que tamanho? perguntou interrompendo meu pai.

-Mais ou menos do tamanho de uma manga- eu disse

-Manga rosa ou espada?- perguntou ela abrindo o riso dela, que acendia os quarterões, seguido por uma lágrima.

Eu sorri, minha mãe e meu pai reprovaram a piadinha. Meu pai se levantou, em direção ao quarto, parou, voltou, apressou o passo, e abraçou Olívia, que desabou em lágrimas, acompanhada por ele. O braço dela apertava com força a camisa social azul do meu pai, a outra segurava o rosto, contorcido de tristeza dele. Olívia era o ideal de perfeição para aquele homem, nela ele se realizaria, quando ela nasceu, meu pai estava em platina, isto é, nem a megasena, o faria mais feliz, do que ter aquela menininha. Pra ele, aquele cabelo tão negro contrastando com a pele branquinha, as sardinhas no nariz, eram únicos. Mas minha irmã aprontou muito, brigou com o pastor e deixou de ir na igreja, ela era muito evoluída, é uma pena eu ter demorado tanto pra perceber isso, ela era nova, aquelas flores, as mais coloridas, cheirosas e bonitas, que tem, que só nascem no mais distante dos desertos. essa era ela, e eu não sabia direito.

Como eu já disse agente tava na Jaqueira, e foi lá que em meio as caixas da recém mudança, que eu vi a cena que mais guardo desse dia.

* * *

"Eu você nós dois, aqui nesse terraço à beira mar,

O sol já vai caindo e o seu olhar parece acompanhar a cor do mar,

você tem de ir embora, a tarde cai, em cores se desfaz,

escureceu,

o sol caiu no mar e aquela luz, lá embaixo se acendeu."

Eu cheguei na sala, tudo escuro, eu tinha acabado de acordar do cochilo que todos tiravam de tarde, todo dia. Ela tava contra a janela, só via o perfil dela, só a linha branca de luz,o contorno de Olívia, eu via os lábios dela um batendo no outro enquanto ela cantava. Ela tava tocando essa música que eu escrevi aqui, o nome é fotografia, ela adorava essa canção. fiquei olhando, do portal do corredor a minha irmã, com tempo de vida contado, tocando violão em meio às nossas coisas encaixotadas, nossas lembranças. Me escorreu dos olhos uma lágrima, só uma. Ela me viu.

Quando se virou eu vi, ela tinha cortado o cabelo, dei um passo, e descalço, senti os tufos no chão massagearem meus dedos, eu olhei e vi, as longas mechas negras no chão branco,o preto no branco, como tudo quando é de noite, ou é branco ou preto, ou cinzinha. ela se levantou, não via direito o rosto dela, era preto por causa da noite profunda na zona norte. Ela me abraçou:

-tu me ama?

demorando um pouco, respondi:

-como nunca.

-por que como nunca?

-por que eu nunca te percebi tanto. Eu te amo Olívia, e tu nunca vai sair da minha vida.

Ela olhou nos meus olhos. Eu só via o brilho da água nos olhos dela, só aqueles dois pontinhos brilhosos, no rosto negro da minha irmã.

Os olhos se fecharam e tudo virou noite.

DIÁRIO DE OLÍVIA,

04 de agosto de 2009

Eu me lembro quando meu irmão veio me ver , recém chegada da viagem, eu tinha passado a manhã colhendo pitomba, que meu velho tinha plantado, e amava, e cuidava. Como a mim. Esse dia me marcou bastante, eu tive que ser muito forte, como tive que ser em muitas situações. Esse dia foi pior do que o primeiro dia na França, em meio à uma multidão de estranhos. Meu velho me chamou pra conversar, ele me disse que ia morrer o dia seguinte, eu ri. Depois vendo que ele permanecera sério perguntei:

-que história é essa?

-Chegou minha hora palito, eu quero morrer essa noite.

Eu ri mais, e o abracei, ele também riu, eu não acreditei muito bem, mas ele passou a mão na colcha.

No outro dia aconteceu. Ele quis. Mas não foi o fim de Lamartine, um homem, um grande homem... Podemos enteder o homem, como uma voz, algumas vozes são baixas, desafinadas, ou até altas e bem entoadas, mas se mal usadas não formam bela canção, meu avó tinha uma voz forte, e mesmo quando essa voz foi calada (sabiamente), o eco permaneceu, até o sempre. E ecoa, e vai vai vai vai vai vai vá

Hoje, eu soube que vou morrer em pouco tempo, e pensei bastante no meu eco. O que eu vou deixar pra João? Será que ele aprendeu comigo? E Ayala, ela foi a terceira pessoa que eu mais amei, não acredito em medição de amor, mas é realmente imensuravél o que eu sinto por João e por meu velho. Já peguei o espelho, vou cortar meu cabelo, bem curto, como a tempo queria, é agora ou nunca, literalmente. Eu quero só ver a cara do meu pai. Quero tocar violão.

Se hoje fosse seu último dia de vida, oque você faria?

-viveria, existiria, vivo e existo, pois penso, fui apedrejada por ter assumido o risco de unir o "eu" de "eu penso" com o "eu" de " eu sou", No meu último de vida eu quero ser João, eu quero ser Lamartine, quero ser música e poesia, quero ser Olívia

Olívi

Olív

Olí

Ol

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jOão

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