sexta-feira, 29 de abril de 2011

-Felipe, pega aí o Nescau.
-Toma.
-Obrigada.
-Aff, vai escovar os dentes.Tá com bafinho.
-Lógico amore, acabei de acordar.
-Todo mundo acabou de acordar, por que tu num escova esses dentes?
-Pra ficar com gosto de pasta de dente em tudo que eu ponho na boca?Não brigadinha.
-Ei Magali, tá lasca mermo, engolisse bosta foi?
-Eduardo, cala a boquinha ai.Tu também tá seboso aí, sem camisa na mesa, o olho todo remeloso, eca.
-Que merda é essa aí hein? Eu vou fazer ovo, alguém quer?
-Eu quero vó.
-Eu quero também per favore.
-Eu!
-Alguém não quer?Eita, só tem três ovos, alguém vai ter que renunciar.
-O colesterol da senhora num tá alto?
-Menos alto do que o galo que vai se formar na tua cabeça se tu não escovar esses dentes Magali.Eu vou fazer os ovos, então eu vou comer um ovo, sobram dois, vocês decidam aí.E vou fazer mexido tá?
-Bom dia.
-Oi Mãe.
-Magali, que bafo de onça hein, Nossa senhora.
-Affe.
-Ô mainha num diga isso não, ela escova os dentes toda manhã.é que tão usando a escova dela pra limpar a privada.
-Porra Eduardo.
-Que menino gaiato.Mas meus neto são tudo um bando de gaiato.
-Seus netos, mamãe, são um bando de engraçadinhos.
-Bom dia pessoas desta casa.
-Menino, que demora de vocês.
-A gente caminhou até Piedade.Painho levou um estouro.
-E foi Miguel?
-Foi nada, mentira de Laura.Eu quero ovo mexido.Eita dona Mariana já tava fazendo, muito obrigado, minha lindona.
-Miguelito, olha isso aqui é meu e dos meninos, só tem esses ovos.Três ovos.Você e Laura acordaram cedíssimo, por que não comeram?
-Mamãe, tem mais ovo na galinha de arame.
-Ah é? Eu já disse que não presta deixar ovo fora da geladeira Virgínia.Fica ruim, azeda.Faz aí Miguelito.
-Virgínia, como uma boa esposa, prendada que é, vai fazer estes ovos, para o marido e a filha, enquanto estes dois elementos tomam banho.
-E também pra dona Magali que ficou sem ovo.
-Como sem ovo?
-Você não vai comer meus ovos sem ter escovado os dentes, e se escovar agora, não vai sentir o gosto, então, eu como os ovos com Eduardo e Felipe, que já escovamos há horas.
-Eu ,hein Maga.Vai escovar.Mas eu não vou fritar ovo pra ninguém.Vou comer pinha.
-Se tu achar né, Felipe comeu umas três agora no café.
-Tá crescendo né menino, Deus te abençoe.
-Tem goma de tapioca.
-Vou comer Sucrilhos mermo.Isso é uma merda né Felipe, tu sabe que eu gosto de comer pinha de manhã, aí tu vendo que só tem três, vai e come tudo.
-Aff foi mal.
-Eu vou fazer tapioca, alguém aí quer, olha tem ovo aqui na galinha alguém quer?
-Já tomasse banho Miguel?
-Claro minha deusa.Agora Laura vai demorar viu.
-Eita e a minha escova tá lá.
-Escove com os dedos, tem pasta no meu banheiro.
-Ai, eu não gosto de entrar no banheiro depois que tomam banho quente.Fica todo vaporoso, sei lá.
-Aff, que menina fresca. Quer que eu lave tua boca com detergente?
-Mamãe, por favor.
-Uhm, alguém andou mastigando um chicletinho de lixo hein Maga.Dê um cheiro no seu pai, vá.
-Ai, vou beber água.

*

-Se lembra Miguel, quando a gente morava em Olinda, a gente se fudia quando chovia.Era lama pra tudo quanto é canto, uma vez tu teve que matar uma cobra, aquelas cobras de cipó.
-Ô se lembro.Eu amava morar ali.
-Eu também, menos em março.Em março eu queria vir pra cá, pra casa de mamãe em Boa viagem.
-Por que em março?
-Em março chove Miguel.Chove muito.

Virgínia está deitada atravesada na cama. Seus cabelos pretos contrastam com o lençol de cor clara.Ela olha pro teto.

-É mermo, alagava.É muito estranho isso né, por que, olha só, a gente morava numa ladeira.Enfim.Mas foi bom a gente ter se mudado pra cá.
-Eu gosto daqui.Não dava mais pra morar em Olinda.
-Em que ano a gente veio pra Boa viagem?Noventa e pouco, noventa?
-Foi noventa e um, mil novecentos e noventa e um.Eu tava grávida de Laura.
-Foi, depois teu pai faleceu, depois o meu faleceu.
-Teu pai morreu bem velho num foi Miguel?
-Um pouco, tava com noventa anos.
-Eu sempre achei ele bem velho pra ser teu pai. Quando a gente era pequeno eu achava que teu pai era teu avô. E Jorge era teu pai.
-Eu pensava que tua mãe era a empregada, por causa do jeito que ela falava.Que ela ainda fala.
-Oxe, sério?
-Ela era bem dura assim, e falava, fala, palavrão. Tu sabe, enfim Virgínia, não era normal, eu nunca tinha visto, uma mulher com dinheiro falando assim.
-Como se a gente fosse rico.
-Agora a gente é.
-Hum.Isso não é importante Miguel.
-Claro que é Virgínia.Tu vai dar uma de comunista?A gente não fez as coisas pensando em dinheiro não, a gente fez o que a gente queria.
-A gente vive muito bem Miguel. Nós dois trabalhamos, tá tudo perfeito.Mas acho esquisito falar que a gente é rico.Nunca foi rica.
-Se acostumasse rápido.
-A oque?
-A ser rica.
-Oxe.
-Só se veste como que há de bom e de melhor, toda perfumada, enfeitada.Isso é bom menina.
-O que é que tu tem hoje Miguel?
-Dinheiro.Brincadeira.Eu tô meio sem graça hoje, tô meio enjoado.
-Se lembra do jardim, Miguel, eu já tava me esquecendo, em Olinda, a descida da área de serviço? Um jardim grande, eu tinha me esquecido.Será que tem foto da gente lá?
-Tem.
-Tinha pé de acerola, Jambeiro e que mais?
-Carambola.
-é mermo.Carambola. Mas eu e tu sabemos, que o jambeiro é a árvore da minha vida.
-Por que?

Virgínia se levanta, da cama, fica sentada, olha pra Miguel e diz:

-Eu acho que passei por cima do que tu tava falando, desculpa Miguel.
-Por que tu tá enjoado?
-Acho que foi o café da manhã.
-Os ovos realmente não podem ficar fora da geladeira, azedam.
-Sim, os ovos.
-Miguel.

Virgínia está sentada sobre as pernas, o cabelo de lado.

-Que foi amore?
-Amore? tá falando igual a tua filha.
-Eu sou igual a minha filha Vigínia.
-Eu também Miguel.
-Tu também é igual a elas duas.Elas te lembram muito.Cada dia que passa tu fica mais parecida com elas sabia?
-Ah é?
-Tu vai envelhecendo e ficando cada vez mais serena.
-Laura é serena. Magali nem tanto. Tu também tá sereno.
-Depois elas perdem a serenidade, depois ganham de novo.
-O tempo dá.
-É, os meninos, parecem demais com tu Virgínia, principalmente Eduardo.
-E ninguém parece com tu né Miguel.
-Tu parece comigo.
-Ai é?
-Lógico Virgínia. Todos os quatro parecem com a gente.
-A gente se parece? Vem cá.

Miguel vai, se senta do lado de Virgínia.Na cama.

-A gente se parece.Será que a gente é irmão?(risos)
-Acho que sim, os irmãos mais diferentes. Não acho a gente tão parecido assim Miguel.
-Nossa.
-Eu tô tentando ser honesta.A gente tá trancado dentro de casa, uma chuva triste la fora. Vamos ser cinzentos como o dia.(risos)
-Talvez tu esteja certa. Eu também não acho a gente tão parecido, mas eu te amo muito tá?
-Eu não sou uma criança, nem uma adolescente Miguel.
-Oxe, tem certeza? (risos)
-Tenho, tu falasse como se eu tivesse sete anos, e por isso mesmo, por eu não ser mais uma menina, eu entendo o que tu diz,e não fico nem um pouco chateada. Eu te amo pra caralho Miguel.Por que tu disse que a gente era tão parecido, irmãos, e tal?
-Não tinha pensado direito.
-Não tinha pensado direito ou queria me comer?
-Segunda opção né minha deusa.
-Graças a Deus.
-Amém.
-As vezes eu queria que tu fosse um estranho Miguel.Eu queria, uma vez na semana, sem dia marcado, esquecer quem tu és, e que tu me acordasse no meio da noite, me abordando na cama.E a gente fizesse amor, e eu nem soubesse teu nome.
-Eu não queria que isso acontecesse.
-Eu sei.
-Tu sabe?
-Eu sei que tu não queria, por isso que eu queria.
-Tu tá muito linda.
-E tu tais muito lindo.Eu amo tua boca.Ela parece uma flor.
-Uma flor?!
-É uma flor carnívora.A boca é o orgão mais importante no amor né Miguel?
-É.
-A gente nunca falou enquanto faz amor.
-É, tu queres falar?
-Não.
-Oxente.
-A gente já falou demais.
-Virgínia?
-Uhm?
-Por que o jambeiro?
-Adoro jambo MiguEL!
-Só por isso?!
-NÃO!
-O QUE MAIS?
-TINHA... JAMBEIRO... NA CASA DA MINHA ... AVÓ!MIGUEL!
-EITA PORRA!
-ai, graças a Deus.
-Amém.
-O que eu mais gostava era do chão rosa. O tapede cor de rosa que a flor do jambeiro deixava. Aquilo era uma coisa linda, um tapete de flores.
-Eu me lembro, tinha em Olinda.
-Tinha. E o jambo era carnudo, num era essas merdas que vende no mercado não, negóço aguado.
-A gente tem que ir no mercado.
-Fazer feira.
-Vamo tomar banho?
-Vamo.
*

- coloca a água fria!
-Água fria Virgínia, com essa chuva?
-É bota fria, água quente, sei lá eu fico me coçando.
-Eita, tu sempre tomasse banho de água qeunte.
-Eu sempre tomei banho com tu Miguel, faz muito tempo que a gente não toma banho.
-Juntos né, porque todo dia eu tomo meu banho.
-Só um né, mas eu tenho que ser sincera, é muito bom tá tomando banho com tu, principalmente depois do amor, mas eu gosto de tomar banho sozinha.
-Eita.
-É, Miguel, só não quero todo dia, sabe, por que a gente se for gostar de uma coisa tem que gostar pra sempre? E não, eu fico enjoada das coisas, acho que todo mundo fica, mas finge que não, ou nem se lembra. Não sei.
-Eu gosto de tomar banho com tu.
-Me dá um beijo Miguel, um beijo de cinema.
A água escorre, pelos cabelos, pelos pés, pelo ralo dos amantes.
-Já beijasse outra mulher?
-Beijaste?
-Sim.
-Já antes de te namorar.
-E depois Miguel?
-Não.
-Uhm,
-Oxe, por que a pergunta?
-Acabaste de beijar outra mulher.Mas o gosto na minha boca ainda é do mesmo homem.
-Isso é bom?
-é bom, o gosto é bom Miguel.
-E a minha boca diz tudo?



-Não. Nem a minha.

terça-feira, 19 de abril de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Inverno Recife 2

Alguém mijando na rua.Caminhão de lixo.A mãe assiste neurótica Altas Horas, esperando o filho chegar em casa.O homem dorme agarrado à mulher, no frio do ar condicionado.O homem dorme de costas pra mulher.Dois homens andam de mãos separadas em direção a uma lanchonete, a violência das ruas as mantêm separadas, em casa, no calor da noite as mãos unidas um dia deixarão de serem vencidas.Uma mulher lava a louça junto com seu filho depois de seu bolo de aniversário: 44 primaveras, eles ouvem Roberto Carlos, a música favorita dela é Palavras, a dele é Debaixo dos Caracóis.Um homem lava o carro depois de ter atropelado uma prostituta, ele disse a esposa que tinha atropelado um cachorro, a esposa ansiosa para amar o marido o ajuda a lavar o carro sem esperanças para a noite.O cachorro morto nem passou por sua cabeça.Três mulheres e três homens ouvem Ella Fitzgerald, depois de terem ouvido dois discos de Elba Ramalho e um de Kings of Convenience-discutem política, arte e religião.
Exaltação serena essa que a gente tem, perde e ganha.
Alguém acorda no meio da noite para mijar no banheiro da casa.Um banheiro antigo, com azulejos floridos, porcelanato azul,ainda com o lavador de bunda de nome estranho,Enxagüe.
Só juntos venceremos.Venceremos quem?
Nós mesmos?
Mas não irei acabar comigo mesmo, ah isso não, vim de longe pra chegar até aqui, andei muito.Unirmo-nos.Vamos nos olhar.Pelo menos unidos.
Esqueça. Destruirmo-nos.
Esquece.
Simplesmente venceremos, de olhos bem abertos: quem sabe a união, quem sabe a solidão, fará que com que tenhamos noção do que é Recife, e o mundo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Todos por um.

Passados noventa e poucos anos da sua estréia em 1925, O Encouraçado Potemkin me deixou de boca aberta com seus cortes, e estou certo que continuará deixando os estudantes de cinema, cinéfilos e entusiastas ainda por muito tempo boquiabertos.Trata-se da comprovação do que tanto se repete: A montagem do filme é com os Soviéticos.No caso um dos maiores diretores soviéticos: Sergei Einseinstein, com certeza o mais conhecido cineasta russo junto com Tarkovsky. Kubrick concorda, que o que torna cinema, cinema é a montagem, não é fotografia, nem música, nem literatura, é tudo isso mais o elemento único da sétima arte: a montagem; é cinema.O ritmo nesse filme é de uma força e velocidade alucinantes, é um filme que realmente é da sua época, da efervecência dos primeiros anos da União Soviética, passados nem dez anos desde a revolução de 1917. Esse filme reafirma a idéia de união do povo, que num episódio anterior a revolução, numa Rússia quase feudal, enfrentou a opressão do Czar.
O povo é que manda, isso é o que deve ser. Mas nunca foi, sempre algum espertinho se apropriou do poder de maneira total. A revolução não trouxe a diferença, colocando no lugar do Czar Nicolau II, ditadores no mesmo patamar ou piores que o antigo rei que como se provará no final da década de oitenta não conseguem segurar o tranco de um país tão grande. No filme dá até vontade de se unir ao povo indignado, o espectador está ali dentro, também indignado, não há filme 3D que faça mergulhar mais que uma história bem contada.
Ao entrar de barco na baía de Odessa com corpo do marinheiro morto,os marinheiros presenciam os navios parados no porto que parecem indiferentes, a cidade parece não pertencer aos seus habitantes na prática.Ao chegar ao cais, a notícia de um irmão russo, trabalhador, massacrado, morto se espalha por Odessa trazendo todo o povo, os seus irmãos, que enfrentam situações similares, sentem a dor do marinheiro de nome impronunciável.Choram sua morte e vibram com a revolução, um ensaio revolucionário.Nas escadarias da cidade a tirania dos partidarios do Czarismo atinge seu ápice, uma avalanche de cadáveres se espalha pela escada, pisoteamentos, gritos, numa cena frenética e alucinante de sofrimento e agonia.A mãe que desesperada pede ao Kossacos piedade é tocante, e imagino que na época que o filme foi exibido contou com a emoção da platéia, que chorou cada momento de dor, das mães e filhos mortos pela imbecilidade de um regime estúpido. Com planos de em média três segundos de duração cada, a sequência das escadarias fica guardada na história do cinema.
Não há muito o que dizer, é pra se ver. É difícil pra mim imaginar um filme com tanta força, com seus closes, com os regentes da orquestra do povo, a forte imagem da velha igreja representada pelo padre, o filme é uma ópera muda.Aplausos.