domingo, 30 de outubro de 2011

Nazaré da Mata

Era uma vez uma mulher que corria na brenha escura da zona da mata sul. Disparava entre o canavial. Se não fosse tão tarde, quem sabe, se veria de longe as ondas verdes da cana se abrindo. Mas se fosse mais cedo não se ouviria o sussurro das folhas ásperas. Ouvi então um carro se aproximando, um carro popular, não se tratava de uma perseguição cheia de efeitos especiais, ou de carros antigos e belas mulheres... Se tratava do que meus olhos viam no canavial, mesmo aflito com o que presenciava não abandonei meu pensamento da forma como seria mais interessante olhar esta cena absurda. Um homem perseguindo uma mulher desesperada pela zona da mata. O carro e a moça se afastaram, o som dissipou-se vieram as corujas brancas, seguidas pela aurora. Eu não preguei os olhos por que não os pregava a semana inteira. Enquanto tomava café me perguntei se aquilo realmente tinha se passado, enquanto me questionava, admirei a textura do leite, e da relação do líquido com o pó marrom do Nescau do meu neto, ele gosta de formar ilhas de achocolatado e vê-las afundar depois. Até que me esqueci por um momento da moça.Meu neto falava alguma coisa que criança fala sozinha, não me preocupei em entender. Levei um susto quando a mão da mulher me apareceu erguida nas últimas altitudes da ilha que naufragava no mar branco dos copos fundos, ela pedia socorro. Eu realmente esfreguei meus olhos com força, bebi um gole do café velho, machuquei o inhame pro meu neto, coloquei leite, pouco, como ele gosta. Quando se espalhava pelo inhame machucado, as ondas de leite -que naquele momento eu as percebi com clareza, pareciam mais lentas- guiavam o carro popular, um Celta, um Palio, não identifiquei no breu, e na clareza do leite branco ele se embaçava, até ajeitei meu óculos, mas o carro entrou numa montanha de inhame e não mais o vi.
Meu neto caminhou pra caminhonete, me convenci que estava completamente em condições de levá-lo para a escola. Na volta pra casa percebi a atmosfera absurda do canavial que eu cruzara para ir pra Nazaré deixar meu neto. O dia estava claro, claríssimo, mas nem uma rajada de vento, nem um assopro de alívio. Mas também não fervia o asfalto, a temperatura era amena. Foi quando eu vi uma blusa jogada na estrada de barro. E mais a frente, passando devagar com o coração na mão, e a outra no volante- o carro pedia a segunda marcha- eu vi o carro popular. Capotado perto da estrada, onde estão os curiosos? Não havia corpos por perto, e a porta estava fechada, quem estava no carro estava vivo. Me aproximei da árvore próxima, lá estava a mulher que corria ontem. No tronco mais firme. Eu a olhei de baixo, estava sem calcinha, a sombra, e o sol na minha cara me impediram de ver com clareza a linha aberta de minha vida. Ela bebia alguma coisa, num copo popular, um copo de requeijão daqueles com desenhos de filmes, e de personagens, enfim... Ela jogou o leite que bebia na minha cara. Eu não esbocei nenhuma reação, o leite estava gelado, e senti meus poros se abrindo escandalosamente, minha pele ficou somente úmida, o leite havia sido tragado. Eu perguntei onde estava quem dirigia. Ela me respondeu uma coisa que não entendi como se falasse sozinha. Chamei ela pra levá-la a Nazaré, ela balançou a cabeça, e não sei como, sem vento de fora, mas o cabelo dela se mexeu, daquele jeito maligno, que maltrata um senhor de idade como eu. Cabelo preto encaracolado, muito bonito. O vento parecia que vinha dos furos de seu couro cabeludo, mas não me moviam desordenadamente, obedeciam a uma ordem, não burocrática, mas necessária para ser bela. Ela pulou do galho e caiu em pé, na minha frente. Deu uns passos, em "V" um grupo de pássaros voavam longe, uma coruja de buraco, atravessou voando baixo, o espaço que me separava da mulher esquisita. Ouvi um barulho de carro, e quando olhei o carro capotado tinha desaparecido. Virei meu rosto para mulher que se dirigia para meu carro, ela entrou, e mandou eu entrar, eu entrei, me sentei no banco de passageiro. ela dirigiu durante uma hora pelo meio da cana, até que pegamos a estrada, a pista de asfalto, que levava a Nazaré, do nada um mulher com cabelo longuíssimos aparece na frente do carro, correndo desembestada. eu grito para ela parar. Como se de fato a perseguição parasse, ela olhou na minha cara e falou:"Ela sabe muito bem que pode se jogar no acostamento, subir numa árvore, ou entrar no canavial, ela não precisa correr na frente do carro. Ela não precisa ir em frente. Eu nem sei de onde ela saiu mas eu que não vou estragar a vida de ninguém."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Elke 3. primeiro episódio

Origens:




"Estão no Brasil as obras "Guerra e paz" de Cândido Portinari. São dois paíneis de catorze metros de altura cada, um representa os horrores da guerra e o outro a paz e a sensação de calma. Os paíneis foram concluídos em 1957 e doados à Organização das Nações Unidas."

-Aff, desliga essa tv.
-Que foi?







MANAUS, 1957

O professor de botânica da Universidade de Sarajevo, na Iugoslávia(Univerzitet u Sarajevu), Andrej, viajou milhares de quilômetros para estudar as espécies tropicais que abundam nesssa parte do Brasil, em especial as pteridófitas.A aluna de Antropologia do curso de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco,Margarida,também viajou alguns milhares de quilômetros, uns dois milhares- um pouco menos do que o ilustre professor europeu-para estudar a vida nas aldeias indigénas ao redor da capital do Amazonas. As aldeias periféricas, o seu contato com a cidade.
Os dois, que chegaram em Manaus no mesmo dia, se juntaram ao resto do grupo de mestres, exploradores, seringueiros e fazendeiros para seguirem com a montagem do acampamento e todo o resto da organização na mata.
Andrej só falava inglês no acampamento.Margarida era a única mulher do grupo, e é claro que veio acompanhada do seu marido, o ornitólogo Joaquim Emanoel, que realizava um dos sonhos da sua vida, o de estudar as coloridas aves da amazônia, já que no Recife as espécies já tinham se esgotado em seu catálogo- e ele não deixaria a sua mulher andando sozinha pela floresta amazônica, cercada por índios de tanguinha.
Joaquim aranhava um inglês e conversava com Andrej, lhe interessava todas as áreas
da biologia, e também queria saber da Iugoslávia, um lugar de que pouco se sabia. Margarida que arranhava o tupi, fez amizade com os pequenos índios, estes a ensinavam a se pintar com o urucum. Tudo ia bem, principalmente para Andrej, que estava completamente fascinado pela riqueza da floresta e do povo ribeirinho. A comida, os sucos de fruta...A mandioca, tacacá, tucupi,o jacaré na brasa, o cupuaçu.
É bem verdade que Margarida e Joaquim enfrentavam crises no casamento, Margarida era muito diferente, ousada, estudava demais, não cumpria com as obrigações na casa. Joaquim por sua vez vivia rodeado por raparigas de todas as partes, da cidade alta de Olinda, até Prazeres de Jaboatão, muitos prazeres.
O banho da equipe era no rio, Joaquim tomava de noite com Margarida para que os marmanjos não botassem o olho no que é seu, Margarida tinha um corpo muito bonito, tinha os cabelos cumpridos, encaracoldos e claros, o nariz pronunciado e os seios pintados com sardas. No rio, o casal nu. a água era gelada.
Andrej, desacostumado com o calor da floresta tropical, vivia sem camisa, era muito jovem, tinha lá seus trinta anos, no máximo. Um dia na hora do almoço, quando todos se reuniam para comer o que a floresta e o rio tinham a oferecer, Os pequenos indiozinhos começaram a pintar com as sementes coloridas na barriga branca de Andrej que ria de cócegas, uma indiazinha de franja no olho, chegou correndo puxando Margarida, quando viu a situção começou a rir. As crianças começarama pintar seu rosto também. Margarida se juntou a eles e ajudou a pintar as costas de Andrej, quando o curandeiro chamou os pirraias e eles abandonaram a dupla de estrangeiros, faltava ainda pintar o rosto de Andrej.
-Você entende o que eu falo?
Andrej balançou a cabeça, afirmando que sim. Já fazia três meses que estavam na mata.
-Sim.
-Vamos pintar esse seu rosto branco, não é?
-Sim.
Andrej era muito risonho. Margarida se aproximou do seu rosto e começou a pintar, as sementes com cheiro forte.Um traço com os dedos ao longo do nariz, os dois na bochecha rosada com o calor. O vento soprou tão forte naquele momento.O cabelo de Margarida até grudou na tinta.
-Pintarei sua boca, tudo bem?
-Sim.
Margarida até se perdeu um pouco no contorno dos lábios carnudos e rosados de Andrej, por que Joaquim não tinha lábios. Ventava.Joaquim se aproximou:
-Vamos almoçar Margarida.
Margarida respondeu assustada:
-Sim.
Notadamente Joaquim ficou surpreso e indignado com a estranha situação que presenciou no barracão do almoço.Ele deixou isso ainda mais claro para Margarida no final da tarde, quando se preparavam pra ir tomar banho.
-Não adianta estar no meio da floresta tropical, não é sua engraçada?Você arruma um jeito de me encher. Sempre.
-Sempre.
-Não me responda com esse tom mulher!
-Não foi uma pergunta, homem.
-Como é, engraçada?
-Eu não respondi a você, você não me fez uma pergunta.Isso seria uma abertura para o diálogo, coisa que não há entre gente de dois sexos.Não espero tanto de você Joaquim, não lhe espero tão avant-garde.
-Hum, até palavras estrangeiras aprendeu.Num foi sua engraçada?
-Foi.Mas não foi com esse homem do leste europeu, e muito menos com você, que nunca se prestou pra me ensinar nada do mundo.O que eu sei, eu que li Joaquim.
-Você não precisa saber de nada, pra o que você faz, se engraçar com os machos...Até a mais baixa cortesã de Manaus faz.
-Então o que será que esse senhor, este nobre mestre iugoslavo viu em moi?Talvez eu tenha alguma coisa extra não é? Um acréscimo aos meu serviços.Ele não me vê como mais uma prostituta.Pra falar a verdade, eu detesto acabar com tudo isso... ele não viu nada em mim...Nada aconteceu, eu pintei a cara dele.Só.
-Eu vi Margarida, eu vi que não aconteceu nada, mas ia acontecer, não ia?
Joaquim Emanoel segura Margarida forte pelo braço e torce.
-Ei! Me larga, tá louco é? me larga seu patife,imbecil.
-Fale direito comigo sua meretriz de favela, se não...
-Se não o que? Se não oque Joaquim, você mija na minha cara?
Joaquim dá uma tapa na cara de Margarida. Seus cabelos enlouquecem sobre a cabeça. Para quem queria urina a tapa não veio a calhar.Margarida sai da tenda, com as roupas e a toalha.Vira o rosto vermelho, ainda pintado pra Joaquim. Sorri. Tira a calça,joga na lama, depois a calcinha, e vai desabotoando a blusa no caminho para o rio.
Era fim de tarde no Amazonas quando já nua Margarida entrou na água, com a cara ainda pintada, gostava de sentir entre os dedos do pé aquele chão incerto e inconstante, do fundo do rio, aquela lama terapêutica. A água é tão limpa, tão doce. Se vê os peixes, um dia apreceu um casal de botos.
Margarida nua esquecendo Joaquim no rio, o melhor banho. Deu um mergulho profundo, emergiu, a água e a tinta lhe escorriam a pele.Seus seios molhados, seu ventre emerso davam lugar a descoberta e a intuição.Foi quando ouviu o barulho. Algo caira na água, três garças voaram.Alguém havia mergulhado, era ele, o homem europeu, Andrej, estava de costas.se virou, se assustou.
-Margarida!
Margarida está de pé, água batia no umbigo, só depois de alguns segundos nota que está com os seios fora d'água,cobre os peitos com os braços em X e se abaixa na água.

Andrej vai andando pra trás.
Um momento.
Margarida, fecha os olhos, e se levanta.Tira dos seios as mãos que os escondiam. Mostra. Sente as folhas da água descerem com seu braço, o vento.
Andrej mergulha e vem até ela por debaixo da água.Um frio leve correu a espinha de Margarida, ela sentiu ele se aproximar, os caminhos do rio são muitos, e se abriram, a água estava morna. Quando Margarida voltou a ver Andrej, ele já estava com os olhos fechados,colados nos seus olhos.Margarida fechou os seus, sentia o nariz, a boca e a presença. Desmanchou-se qualquer receio e pudor.O rio corria aberto e quente. Nenhum pássaro se moveu.


RECIFE,1968

-A situação só tende a piorar Andrej.Sabes disso.
-Marcos Langadone sumiu.
-Sumiu?
-Sim, desapareceu.
-Eu sei o que quer dizer sumiu.O mesmo aconteceu Andrej, no departamento de ciências humanas.Mariana Mariarco, Jorge Silva e Otáviano Espinhal, nenhum deles aparece na universidade desde o ínicio das aulas.
-Talvez, Margarida, eu não quero me precipitar, mas com a minha decedência.
-Se precipitar Andrej? Nós já deviamos estar fazendo as malas.
-Não exagere. Os professores militantes sumiram, mas nós nunca nos envolvemos não foi Margarida?
-Andrej.
-O que foi?
-Não é mais seguro.
-Não, não é mais seguro Margarida. Mas para onde nós iremos?Pro exílio? Viver de que?
-Vamos embora.
-Não podemos.
-Podemos sim!
-Como ir?Vamos ficar cala...
-Eu estou grávida.
Andrej encosta a cabeça na parede, olha pro teto branco.Uma lágrima escorre de seus olhos, divide a parte inferior do rosto em duas.Margarida anda pra lá e pra cá, sem parar de roer as unhas.
-Andrej.
-hum.
-Nós temos que ir.
As lágrimas escorrem do rosto de Andrej.Margarida desaba:
-Andrej!Eu estou com tanto medo, dova aula pra uma turma onde noventa por cento é comunista, hoje na sala não tinha mais que vinte pessoas! Vinte Andrej. Onde eles estão? nas ruas? No campo?Vamos embora desse país de merda.

Na calada da mesma noite, bateram na porta, com ordem de prisão para a professora Margarida Campos.Andrej e margarida foram levadas pro departamento de detenção.
-A senhora está sendo intimada professora.
-Intimidada?
-Entenda como quiser.
-Aceita uma bebida professora?
-Por que o protocolo general? Não vai mandar arrancar meus seios?
-Acontece professora, que a senhora é um caso especial.
-A que devo a honra?
-A senhora é professora da minha filha.
Margarida fica calada.
-A senhora tem alguma ligação com comunistas senhora Margarida?
-Só pela televisão.
-Pela televisão?
-Sim.Nas novelas todos são ricos, e isso é o mais perto que eu já vi de uma sociedade igualitária.
O general aperta o braço de Margarida com força.
-Eu aceito sua bebida general.
-Uhm, não sou general.
-Eu sei.
-E por que insiste em me chamar assim?!-O homem derrama um pouco da bebida barata no chão, se altera levemente.
-Boa pergunta, acho que nunca lidei com um militar antes. Peço desculpas.
-Não se preocupe. Então, a senhora conhece estes elementos?- O homem mostra cerca de dez fotos de homens e mulheres, oito desses são seus alunos.
-Quem a senhora conhece daqui professora?
-Uhm...
-Beba.
-Receio que posso ter visto esse, ou esse, mas não aparecem há muito tempo. Não estou certa, é uma pena que não possa lhe ajudar.
-Não se faça de tão espertinha professora. sei que oito desses elementos estão matriculados na sua disciplina "A invenção do homem puro".Estou correto?
-Talvez.
-Beba, por que a senhora não bebe? Está doente?
-Não.
-Tá grávida?
-Não. Graças a Deus.
-Filhos são uma benção professora Margarida, vejo pelos meus, tenho quatro, você conhece Sílvana, menina pura, honesta.
-Sim, uma das alunas que mais se destacam, o senhor tem que ter orgulho dela mesmo. Tem muito vagabundo por aí.
-Sim, sim.Eu gosto da senhora professora, quem sabe possamos jantar juntos na minha casa,eu, a senhora, minha esposa, seu esposo, senhor Andrej Mlic, não é isso e meus filhos.
-Uhum, seria bom.
-Muito bem. A senhora pode ir, depois nós conversamos mais, a senhora tem muito pra contar não é?
-Receio que fique desapontado com o tão pouco que sei.
-Receio que não.Até mais professora.Ah, e não saia de Recife, tudo certo?
-Tá certo, eu não vou sair.

Continua...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Histoire(s) du Cinéma














jean-luc godard

Dúvida

É o melhor momento pra escrever. Não que eu tenha escrever como um hábito, pelo contrário. Mas quando sento, pra escrever, e somente para isso(não faço outra coisa enquanto escrevo, nem ouvir música sou capaz)e estou como estou agora, ou seja em estado de exclamação neurótica, sai fácil.
Quero escrever uma história de amor, envolvendo família, um casal, um apartamento pequeno, com ventilador de chão. Quero escrever para me lembrar, que tudo isso existe, eu sei muito bem, por que graças a Deus, eu tenho tudo isso, o amor de uma família, um apartamento, só falta uma coisa, e que coisa chata de se falar. Quero falar de um romance possível, completamente irreal, uma mentira apaixonante, que faça chorar e rir, chorar de rir, quero uma mulher que sorri e chora, que não sinta o peso da vida, de leve que é, um homem livre, que sorri e chora, que não sente o peso da cobrança em suas costas largas, que esse peso nem exista, pelo amor de Deus, por favor que não haja peso, afinal é minha a história.
Ou quem sabe eu escreva uma tragédia, uma daquelas onde arrancam-se corações, dilaceram-se as famílias, não sei. Prefiro pensar numa comédia cínica, irônicazinha, quase repugnante com sua sobrancelha arrogantemente arqueada. Uma mulher que vive com o marido, na beira mar, e vive feliz pra sempre, até que ela percebe na véspera de sua morte que sua vida foi uma perda de tempo e que ela não fez absolutamente nada do que ela queria ter feito, resignada, ela já velha se olhava no espelho da penteadeira e se lembrava de ter abdicado e ter forçado. Fez o marido ceder, e ela própria se entregou, sem nem perceber, ainda se penteava, cheirava a lavanda e andava na moda, junto com seu marido caminhavam na praia, recebiam as visitas dos dois filhos, filhos que hoje, nessa véspera de morte dessa senhora grave ela lembra, com certa dor no ventre, a dor do parto, tudo voltou para a senhora. A abertura forçada das pernas, por onde vieram seus filhos, que a salvaram em muitas coisas, assim como fizeram com o pai, mas que muito doeram e muito custaram. A mulher dorme e não acorda. Ou acorda para sempre, como preferirem.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Paris Territory

Coloquei finalmente o disco pra tocar. É maravilhoso, me diz tanto, tem umas coisas que eu penso que não me dizem nada, mas me tocam profundamente, como se não me dissessem, mas me apunhalassem, ou me beijassem. Faz tempo que eu comprei esse disco, numa loja na cidade, era o único, não conhecia este trabalho. O vendedor me assediou nesse dia. Ele tinha um bigode de português, mas era paraibano. Vendia discos. E acima de tudo os ouvia, isso faz tempo, e ele ouvia até a mais nova leva do rock nacional e internacional, quero dizer, o rock de Brasília e o dos Estados Unidos. O inglês veio depois para a loja, pois quem trazia os discos raros de contrabando, não pisava em solo inglês. Depois eu fui atrás dos discos. Não como contrabandista, mas fui para Europa para estudar, e viver um tempo, tinha acabado minha graduação em comunicação social, era uma jornalista finalmente. Pelo menos pensava que era.
Consegui uma bolsa na Universidade da cidade de Paris, iria estudar a tradição da cultura parisiense,o modo de viver tão retratado, seus esteriótipos, suas possíveis verdades, seus cafés, boinas, baguetes, macarrons, croissants, bateau mouches. Meu pai, me lembro de ter perguntado, o por que de eu não estudar o modo de vida de minha terra, o modo de vida recifense. Eu não queria saber de Recife, eu sempre quis morar em Paris, desde que eu vi Beijos Roubados, aquela música de Charles Trenet, me deu uma saudade de Paris, só que eu nunca tinha pisado em Paris, eu tinha uns doze anos quando vi esse filme. Eu queria ver Paris, pretendia morar um tempo, já que eu passei algum tempo estagiando, consegui dinheiro pra passagem, meu pai me prometeu uma mesada, em Paris as coisas não eram baratas, pelo que me dizia minha tia Eunice, a única pessoa que eu conhecia que já tinha ido pra Europa. Eu queria ter visto a revolução de 1968 de perto, queria ser amiga de Marcello Mastroianni, e queria pentear meus cabelos e fazer as unhas com Catherine Deneuve, mas achei depois que ele fosse preferir tomar um bom vinho e comer torradas com manjericão e tomate na praça perto do seu apartamento, em Trocadero. Eu com Jean Pierre Leaud jogaria pedras no canal de Saint Martin.
Desembarquei em Paris em julho de 1980, ainda peguei no cinema O Último Mêtro, filme maravilhoso, foi por causa de Truffaut que me apaixonei por Paris. Me instalei em meu apartamento, um aluguel caríssimo, que meu pai pagava, graças a Deus, eu tive essa oportunidade de viver em Paris. era um apartamento MUITO pequeno, mas eu o amava. Eu jamais reclamaria da vista. Comecei meus estudos, a universidade era longe do meu apê, eu pegava o metro,não o último, mas o primeiro, tinha que chegar lá bem cedo. Tava fazendo um artigo sobre a importância do cinema francês no modo de ver a França, queria falar com alguém, quem sabe conseguir uma entrevista com jeanne Moreau, Anna Karina, Philipe Garrel. Ia ser difícil, mas eu queria muito fazer isso, eu estava completamente fascinada por Paris, e por aqueles pessoas que eu não conhecia, eu não fizera nenhum amigo até o presente momento.



Nossa eu caminhava pela tarde de Montmartre, quando vejo de longe uma figura conhecida. Vinha na mesma calçada que eu, e entrou no café, acompanhando um homem meio careca, era Fanny Ardant, as pessoas olhavam pra ela. Eu entrei no café, queria falar com ela, mas ela estava com o homem de costas para mim, olhou pra mim e sorriu, aquueles dentes branquíssimos, o cabelo curto, Fanny usava lenço na cabeça, ela era a rainha do café Doinel naquele momento. Eu me sentei na mesa que eu encontrei, meio afastada, pedi um café antes que a garçonete me expulsasse, meu francês era bom. Ela se levantou, todos olharam para ela, mas quem foi parado por um senhor de óculos, e sua esposa de cabelos longos foi o homem que a acompanhava. foi quando eu vi: MEU DEUS, era François Truffaut! eu tinha que abraça-lo rapidamente, e entrevistá-lo em seguida



Eu consegui algumas palavras com ele, mas ele tinha prece, falou alguma coisa sobre Gerard, Gerard, tudo bem, ele pediu que eu voltasse a esse café, ele vinha frequentemente, provavelmente ainda essa semana tomaria uma café preto no Doinel. Eu voltei pra casa, já se aproximava o fim de semana, fiquei pensando em Truffaut, e em como eu o entrevistaria, que perguntas faria:
Como o senhor classificaria a atual situação do cinema francês?
Como VOCÊ vê a representação das mulheres em seus filmes?
Como você escolhe onde vai filmar?
Filmar Paris é natural para o senhor/você?
Fiquei com minha Molesquine rascunhando umas perguntas, olhando boba a vista da minha janela. Me sentia só em Paris, é bem verdade. não conhecia ninguém. Só a porteira, que não raspava o sovaco. Mas o cheiro de algodão doce enchia meu apartamento.




Eu não sei como será a entrevista, peguei minha mala, que ainda guardava algumas coisas que eu não tinha usado, e vi o disco de Maria Bethânia, Mel, tava no plástico, peguei pra ouvir. Finalmente eu coloquei pra tocar. Eu tô com saudade de cantar com minha mãe. E de descer as escadarias do nosso apartamento. Eu tenho escadarias na minha rua, mas ela me levam a lugares estranhos. Talvez seja isso que eu queira, me perder, depois eu penso nisso, tenho que pensar em Truffaut. Gerard, Gerard? Depardieu! O novo filme pro ano que vem, vou perguntar sobre isso. Minha mãe disse que terra é onde a gente vive. Minha mãe nunca entendeu, nunca gostou de filmes franceses, achava chatos, não tocavam a ela ela gostava de Anna Magnani, e de Sophia Loren, apesar de opostas, ela gostava dos filmes dublados em italiano, não se gravava som direto. Ela me perguntou por que eu não ia pra Roma, talvez eu ainda vá. Quem sabe. Será que esse cinema me diz? Ou me beija? Me bate? Vou ver se me encontro com Truffaut. Descendo pelas escadarias da minha terra.









sexta-feira, 29 de abril de 2011

-Felipe, pega aí o Nescau.
-Toma.
-Obrigada.
-Aff, vai escovar os dentes.Tá com bafinho.
-Lógico amore, acabei de acordar.
-Todo mundo acabou de acordar, por que tu num escova esses dentes?
-Pra ficar com gosto de pasta de dente em tudo que eu ponho na boca?Não brigadinha.
-Ei Magali, tá lasca mermo, engolisse bosta foi?
-Eduardo, cala a boquinha ai.Tu também tá seboso aí, sem camisa na mesa, o olho todo remeloso, eca.
-Que merda é essa aí hein? Eu vou fazer ovo, alguém quer?
-Eu quero vó.
-Eu quero também per favore.
-Eu!
-Alguém não quer?Eita, só tem três ovos, alguém vai ter que renunciar.
-O colesterol da senhora num tá alto?
-Menos alto do que o galo que vai se formar na tua cabeça se tu não escovar esses dentes Magali.Eu vou fazer os ovos, então eu vou comer um ovo, sobram dois, vocês decidam aí.E vou fazer mexido tá?
-Bom dia.
-Oi Mãe.
-Magali, que bafo de onça hein, Nossa senhora.
-Affe.
-Ô mainha num diga isso não, ela escova os dentes toda manhã.é que tão usando a escova dela pra limpar a privada.
-Porra Eduardo.
-Que menino gaiato.Mas meus neto são tudo um bando de gaiato.
-Seus netos, mamãe, são um bando de engraçadinhos.
-Bom dia pessoas desta casa.
-Menino, que demora de vocês.
-A gente caminhou até Piedade.Painho levou um estouro.
-E foi Miguel?
-Foi nada, mentira de Laura.Eu quero ovo mexido.Eita dona Mariana já tava fazendo, muito obrigado, minha lindona.
-Miguelito, olha isso aqui é meu e dos meninos, só tem esses ovos.Três ovos.Você e Laura acordaram cedíssimo, por que não comeram?
-Mamãe, tem mais ovo na galinha de arame.
-Ah é? Eu já disse que não presta deixar ovo fora da geladeira Virgínia.Fica ruim, azeda.Faz aí Miguelito.
-Virgínia, como uma boa esposa, prendada que é, vai fazer estes ovos, para o marido e a filha, enquanto estes dois elementos tomam banho.
-E também pra dona Magali que ficou sem ovo.
-Como sem ovo?
-Você não vai comer meus ovos sem ter escovado os dentes, e se escovar agora, não vai sentir o gosto, então, eu como os ovos com Eduardo e Felipe, que já escovamos há horas.
-Eu ,hein Maga.Vai escovar.Mas eu não vou fritar ovo pra ninguém.Vou comer pinha.
-Se tu achar né, Felipe comeu umas três agora no café.
-Tá crescendo né menino, Deus te abençoe.
-Tem goma de tapioca.
-Vou comer Sucrilhos mermo.Isso é uma merda né Felipe, tu sabe que eu gosto de comer pinha de manhã, aí tu vendo que só tem três, vai e come tudo.
-Aff foi mal.
-Eu vou fazer tapioca, alguém aí quer, olha tem ovo aqui na galinha alguém quer?
-Já tomasse banho Miguel?
-Claro minha deusa.Agora Laura vai demorar viu.
-Eita e a minha escova tá lá.
-Escove com os dedos, tem pasta no meu banheiro.
-Ai, eu não gosto de entrar no banheiro depois que tomam banho quente.Fica todo vaporoso, sei lá.
-Aff, que menina fresca. Quer que eu lave tua boca com detergente?
-Mamãe, por favor.
-Uhm, alguém andou mastigando um chicletinho de lixo hein Maga.Dê um cheiro no seu pai, vá.
-Ai, vou beber água.

*

-Se lembra Miguel, quando a gente morava em Olinda, a gente se fudia quando chovia.Era lama pra tudo quanto é canto, uma vez tu teve que matar uma cobra, aquelas cobras de cipó.
-Ô se lembro.Eu amava morar ali.
-Eu também, menos em março.Em março eu queria vir pra cá, pra casa de mamãe em Boa viagem.
-Por que em março?
-Em março chove Miguel.Chove muito.

Virgínia está deitada atravesada na cama. Seus cabelos pretos contrastam com o lençol de cor clara.Ela olha pro teto.

-É mermo, alagava.É muito estranho isso né, por que, olha só, a gente morava numa ladeira.Enfim.Mas foi bom a gente ter se mudado pra cá.
-Eu gosto daqui.Não dava mais pra morar em Olinda.
-Em que ano a gente veio pra Boa viagem?Noventa e pouco, noventa?
-Foi noventa e um, mil novecentos e noventa e um.Eu tava grávida de Laura.
-Foi, depois teu pai faleceu, depois o meu faleceu.
-Teu pai morreu bem velho num foi Miguel?
-Um pouco, tava com noventa anos.
-Eu sempre achei ele bem velho pra ser teu pai. Quando a gente era pequeno eu achava que teu pai era teu avô. E Jorge era teu pai.
-Eu pensava que tua mãe era a empregada, por causa do jeito que ela falava.Que ela ainda fala.
-Oxe, sério?
-Ela era bem dura assim, e falava, fala, palavrão. Tu sabe, enfim Virgínia, não era normal, eu nunca tinha visto, uma mulher com dinheiro falando assim.
-Como se a gente fosse rico.
-Agora a gente é.
-Hum.Isso não é importante Miguel.
-Claro que é Virgínia.Tu vai dar uma de comunista?A gente não fez as coisas pensando em dinheiro não, a gente fez o que a gente queria.
-A gente vive muito bem Miguel. Nós dois trabalhamos, tá tudo perfeito.Mas acho esquisito falar que a gente é rico.Nunca foi rica.
-Se acostumasse rápido.
-A oque?
-A ser rica.
-Oxe.
-Só se veste como que há de bom e de melhor, toda perfumada, enfeitada.Isso é bom menina.
-O que é que tu tem hoje Miguel?
-Dinheiro.Brincadeira.Eu tô meio sem graça hoje, tô meio enjoado.
-Se lembra do jardim, Miguel, eu já tava me esquecendo, em Olinda, a descida da área de serviço? Um jardim grande, eu tinha me esquecido.Será que tem foto da gente lá?
-Tem.
-Tinha pé de acerola, Jambeiro e que mais?
-Carambola.
-é mermo.Carambola. Mas eu e tu sabemos, que o jambeiro é a árvore da minha vida.
-Por que?

Virgínia se levanta, da cama, fica sentada, olha pra Miguel e diz:

-Eu acho que passei por cima do que tu tava falando, desculpa Miguel.
-Por que tu tá enjoado?
-Acho que foi o café da manhã.
-Os ovos realmente não podem ficar fora da geladeira, azedam.
-Sim, os ovos.
-Miguel.

Virgínia está sentada sobre as pernas, o cabelo de lado.

-Que foi amore?
-Amore? tá falando igual a tua filha.
-Eu sou igual a minha filha Vigínia.
-Eu também Miguel.
-Tu também é igual a elas duas.Elas te lembram muito.Cada dia que passa tu fica mais parecida com elas sabia?
-Ah é?
-Tu vai envelhecendo e ficando cada vez mais serena.
-Laura é serena. Magali nem tanto. Tu também tá sereno.
-Depois elas perdem a serenidade, depois ganham de novo.
-O tempo dá.
-É, os meninos, parecem demais com tu Virgínia, principalmente Eduardo.
-E ninguém parece com tu né Miguel.
-Tu parece comigo.
-Ai é?
-Lógico Virgínia. Todos os quatro parecem com a gente.
-A gente se parece? Vem cá.

Miguel vai, se senta do lado de Virgínia.Na cama.

-A gente se parece.Será que a gente é irmão?(risos)
-Acho que sim, os irmãos mais diferentes. Não acho a gente tão parecido assim Miguel.
-Nossa.
-Eu tô tentando ser honesta.A gente tá trancado dentro de casa, uma chuva triste la fora. Vamos ser cinzentos como o dia.(risos)
-Talvez tu esteja certa. Eu também não acho a gente tão parecido, mas eu te amo muito tá?
-Eu não sou uma criança, nem uma adolescente Miguel.
-Oxe, tem certeza? (risos)
-Tenho, tu falasse como se eu tivesse sete anos, e por isso mesmo, por eu não ser mais uma menina, eu entendo o que tu diz,e não fico nem um pouco chateada. Eu te amo pra caralho Miguel.Por que tu disse que a gente era tão parecido, irmãos, e tal?
-Não tinha pensado direito.
-Não tinha pensado direito ou queria me comer?
-Segunda opção né minha deusa.
-Graças a Deus.
-Amém.
-As vezes eu queria que tu fosse um estranho Miguel.Eu queria, uma vez na semana, sem dia marcado, esquecer quem tu és, e que tu me acordasse no meio da noite, me abordando na cama.E a gente fizesse amor, e eu nem soubesse teu nome.
-Eu não queria que isso acontecesse.
-Eu sei.
-Tu sabe?
-Eu sei que tu não queria, por isso que eu queria.
-Tu tá muito linda.
-E tu tais muito lindo.Eu amo tua boca.Ela parece uma flor.
-Uma flor?!
-É uma flor carnívora.A boca é o orgão mais importante no amor né Miguel?
-É.
-A gente nunca falou enquanto faz amor.
-É, tu queres falar?
-Não.
-Oxente.
-A gente já falou demais.
-Virgínia?
-Uhm?
-Por que o jambeiro?
-Adoro jambo MiguEL!
-Só por isso?!
-NÃO!
-O QUE MAIS?
-TINHA... JAMBEIRO... NA CASA DA MINHA ... AVÓ!MIGUEL!
-EITA PORRA!
-ai, graças a Deus.
-Amém.
-O que eu mais gostava era do chão rosa. O tapede cor de rosa que a flor do jambeiro deixava. Aquilo era uma coisa linda, um tapete de flores.
-Eu me lembro, tinha em Olinda.
-Tinha. E o jambo era carnudo, num era essas merdas que vende no mercado não, negóço aguado.
-A gente tem que ir no mercado.
-Fazer feira.
-Vamo tomar banho?
-Vamo.
*

- coloca a água fria!
-Água fria Virgínia, com essa chuva?
-É bota fria, água quente, sei lá eu fico me coçando.
-Eita, tu sempre tomasse banho de água qeunte.
-Eu sempre tomei banho com tu Miguel, faz muito tempo que a gente não toma banho.
-Juntos né, porque todo dia eu tomo meu banho.
-Só um né, mas eu tenho que ser sincera, é muito bom tá tomando banho com tu, principalmente depois do amor, mas eu gosto de tomar banho sozinha.
-Eita.
-É, Miguel, só não quero todo dia, sabe, por que a gente se for gostar de uma coisa tem que gostar pra sempre? E não, eu fico enjoada das coisas, acho que todo mundo fica, mas finge que não, ou nem se lembra. Não sei.
-Eu gosto de tomar banho com tu.
-Me dá um beijo Miguel, um beijo de cinema.
A água escorre, pelos cabelos, pelos pés, pelo ralo dos amantes.
-Já beijasse outra mulher?
-Beijaste?
-Sim.
-Já antes de te namorar.
-E depois Miguel?
-Não.
-Uhm,
-Oxe, por que a pergunta?
-Acabaste de beijar outra mulher.Mas o gosto na minha boca ainda é do mesmo homem.
-Isso é bom?
-é bom, o gosto é bom Miguel.
-E a minha boca diz tudo?



-Não. Nem a minha.

terça-feira, 19 de abril de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Inverno Recife 2

Alguém mijando na rua.Caminhão de lixo.A mãe assiste neurótica Altas Horas, esperando o filho chegar em casa.O homem dorme agarrado à mulher, no frio do ar condicionado.O homem dorme de costas pra mulher.Dois homens andam de mãos separadas em direção a uma lanchonete, a violência das ruas as mantêm separadas, em casa, no calor da noite as mãos unidas um dia deixarão de serem vencidas.Uma mulher lava a louça junto com seu filho depois de seu bolo de aniversário: 44 primaveras, eles ouvem Roberto Carlos, a música favorita dela é Palavras, a dele é Debaixo dos Caracóis.Um homem lava o carro depois de ter atropelado uma prostituta, ele disse a esposa que tinha atropelado um cachorro, a esposa ansiosa para amar o marido o ajuda a lavar o carro sem esperanças para a noite.O cachorro morto nem passou por sua cabeça.Três mulheres e três homens ouvem Ella Fitzgerald, depois de terem ouvido dois discos de Elba Ramalho e um de Kings of Convenience-discutem política, arte e religião.
Exaltação serena essa que a gente tem, perde e ganha.
Alguém acorda no meio da noite para mijar no banheiro da casa.Um banheiro antigo, com azulejos floridos, porcelanato azul,ainda com o lavador de bunda de nome estranho,Enxagüe.
Só juntos venceremos.Venceremos quem?
Nós mesmos?
Mas não irei acabar comigo mesmo, ah isso não, vim de longe pra chegar até aqui, andei muito.Unirmo-nos.Vamos nos olhar.Pelo menos unidos.
Esqueça. Destruirmo-nos.
Esquece.
Simplesmente venceremos, de olhos bem abertos: quem sabe a união, quem sabe a solidão, fará que com que tenhamos noção do que é Recife, e o mundo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Todos por um.

Passados noventa e poucos anos da sua estréia em 1925, O Encouraçado Potemkin me deixou de boca aberta com seus cortes, e estou certo que continuará deixando os estudantes de cinema, cinéfilos e entusiastas ainda por muito tempo boquiabertos.Trata-se da comprovação do que tanto se repete: A montagem do filme é com os Soviéticos.No caso um dos maiores diretores soviéticos: Sergei Einseinstein, com certeza o mais conhecido cineasta russo junto com Tarkovsky. Kubrick concorda, que o que torna cinema, cinema é a montagem, não é fotografia, nem música, nem literatura, é tudo isso mais o elemento único da sétima arte: a montagem; é cinema.O ritmo nesse filme é de uma força e velocidade alucinantes, é um filme que realmente é da sua época, da efervecência dos primeiros anos da União Soviética, passados nem dez anos desde a revolução de 1917. Esse filme reafirma a idéia de união do povo, que num episódio anterior a revolução, numa Rússia quase feudal, enfrentou a opressão do Czar.
O povo é que manda, isso é o que deve ser. Mas nunca foi, sempre algum espertinho se apropriou do poder de maneira total. A revolução não trouxe a diferença, colocando no lugar do Czar Nicolau II, ditadores no mesmo patamar ou piores que o antigo rei que como se provará no final da década de oitenta não conseguem segurar o tranco de um país tão grande. No filme dá até vontade de se unir ao povo indignado, o espectador está ali dentro, também indignado, não há filme 3D que faça mergulhar mais que uma história bem contada.
Ao entrar de barco na baía de Odessa com corpo do marinheiro morto,os marinheiros presenciam os navios parados no porto que parecem indiferentes, a cidade parece não pertencer aos seus habitantes na prática.Ao chegar ao cais, a notícia de um irmão russo, trabalhador, massacrado, morto se espalha por Odessa trazendo todo o povo, os seus irmãos, que enfrentam situações similares, sentem a dor do marinheiro de nome impronunciável.Choram sua morte e vibram com a revolução, um ensaio revolucionário.Nas escadarias da cidade a tirania dos partidarios do Czarismo atinge seu ápice, uma avalanche de cadáveres se espalha pela escada, pisoteamentos, gritos, numa cena frenética e alucinante de sofrimento e agonia.A mãe que desesperada pede ao Kossacos piedade é tocante, e imagino que na época que o filme foi exibido contou com a emoção da platéia, que chorou cada momento de dor, das mães e filhos mortos pela imbecilidade de um regime estúpido. Com planos de em média três segundos de duração cada, a sequência das escadarias fica guardada na história do cinema.
Não há muito o que dizer, é pra se ver. É difícil pra mim imaginar um filme com tanta força, com seus closes, com os regentes da orquestra do povo, a forte imagem da velha igreja representada pelo padre, o filme é uma ópera muda.Aplausos.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Não tem nome.

-Adicionemos mais uma, ao clube dos "assistidores arrogantes de filmes entediantes"
-Quem?
-Aquela Maíra.
-Que Maíra?
-Uma puta que sempre ficava sozinha, uma escrota.
-Ah, Putona.Me lembrei, ela é tão bonita.
-Não, não estamos falando da mesma pessoa. Certamente você tá pensando em outra.
-É uma que se exclui. sei quem é sim porrinha.
-Descreve ela Marco. Como é a mais nova membra do seu clube de escrotos?
-Ela tem o cabelo pintado nas pontas, vermelho, a raiz é castanha, é alta, bonita.
-Pronto? Aí está ela?
-Ela num é assim porra?
-Ela tem o cabelo gasto das tinturas tóxicas, mastigado, é alta, podia ser modelo.
-A não ser seguido. Muito alta, muito magra, gosto de mulher com carne.
-E tu gosta de mulher é Marco? Nem sabia.
-Oxe, vai tomar no teu cu.
-Tô brincando. Mas esperava uma descrição mais precisa de um conhecedor da obra de todos os grandes cineastas e artistas.
-Oxe, por que?
-Pensava que você, fazendo parte do clube falaria com maior eloquência, sei lá Marco, tu não é igual a Maíra, tu gosta de cinema.
-E ela não?
-Ela gosta de gostar de cinema, se é que ela gosta.
-Como assim?
-Ela quer bolar, usar boina francesa, sabe? cara esfumaçada, só rir de piadas pernósticas, sabe? Ela gosta do enfeite.Aquela porra.
-E que história é essa de clube, tu fala como se eu fosse o grande cinéfilo.
-Eu tô começando a achar que tu realmente é. Você assiste muito filme, e todo mundo que começa a soletrar Einseinstein diz que assiste muito filme, mas talvez seja mentira.
-Uhm. Eu sei disso.
-Assiste o filme, não gosto disso. Assiste. o filme passa na sua frente, diante de seus olhos, mas, sei lá, não entra.
-É mais um filme na lista. Quantos Godard, quantos Truffaut, quantos Renoir?Não entra.
-E não é a tecnologia 3D que vai colocar a gente dentro do filme Marco, tu sabe disso, mas tu come calado, mas é uma tecnologia muito mais avançada.
-Qual é essa tecnologia?
-Eu não sei o nome. Não tem a palvra, você vive aquilo, e não precisa estudar mais do que viver.
-Eu sei do que tu tá falando. e eu sei a palavra.
-Qual é ?
-Vivência.
-Não, não é vivência, pode até ser um pouco, as vezes o que tá no filme é muito distante, e você... tá lá.
-Talvez cada um tenha uma palavra, qual será a de Maíra?
-A palavra dela deve ser chuparola que é o que ela gosta de ver na tela, já que ninguém vai chupar a dela.
-Até por que seria difícil.
-Ela que se foda. Acho que não tem palavra, nãos e escreve oq eu eu to querendo dizer.
-Se filma.
-Tu é fodinha mermo. Fala pouco, mas diz, né?
-Hum
-Hum, o quê? Tais frescando comigo? Porra.
-Claro que não, tava té pensanso em te convidar pro meu clube.
-HAHAHA escrotinho. desse clube tu não faz mais parte.
-Como assim? Tô expulso?
-Sorte né?Eu acho que eu gosto de cinema.
-Tu gosta sim. Eu acho.
-Eu não sei o nome do primeiro filme de Fellini, mas eu já chorei em filmes italianos.
-Hum
-Girasóis da Rússia. é tão bonito, aquele campo. aquilo é bonito que só o carai.
-Que só o CARAI?
-Temos que estabelecer prioridades.
-De quem é esse filme?
-Vittorio de Sica.
-Esse cara gostava de cinema. Eu vi poucos filmes. Lá em casa a gente vê mais novela mermo. Mas as novelas tão uma bosta.
-Quer entrar pro meu clube?
-Já disse que tu tá fora bexiga.
-Não, outro clube.
-Qual?
-O nosso.Eu e tu, tu e eu.
-Qual vai ser o nome desse ilustre clube?
-Não tem nome.
-Não tem palavra.
-

-

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

La flor de mi secreto

Sempre que meu marido fala, eu entro em silêncio profundo.Primeiro por que ele se irrita ao ser interompido, segundo porque me umedece de prazer simplesmente ouvir a sua voz. Ele quase nunca fala.
Todas as vezes que me virei pra falar com meu marido um frio arrepiante me correu a espinha.Foi o medo? Mas como ter medo de falar com quem escolhi para passar a vida com?
Só não quero brigas, sou sensata.Algumas amigas minhas me entendem, outras acham que me submeto a absurdos, mal sabem elas que absurdas são as guerras

Eu, que vivo em eterno campo de batalha.
.