terça-feira, 1 de maio de 2012

Manhã de Terça

Manhãs acesas, que nos chamam Fazem a cama carecer de sentido Inveja dos que a sentem tão natural, as que a fazem ser parte de sua camuflagem, ou de sua plumagem mais exuberante Manhã pra mim, luz mais limpa não há, nem mais rara A rotina me cortou pelo talo o prazer das manhãs úmidas Me tirou a possibilidade de daqui vê-las Só existem em dias de descanso comprido, quando acordar é um prazer Para amar manhãs, há de se amar as mães Que fazem das manhãs, na pia, no balcão, no chão do terraço A coisa mais bonita, por que é o começo Antes do café, antes da escola, e antes da faculdade, do mesmo modo, só que de outro, com mais sombras no rosto, e mais luz nos olhos. Manhã é pra quem sabe, pra quem dança, e principalmente para quem escreve e pinta Pois se criam mundos, quem dança joga pra fora, quem pinta, faz brotar em outro meio, o corpo só guia. Manhã de danças e cantos, quando minha mãe canta sem jamais desafinar, e sem jamais aquecer a voz Minha mãe canta com a boca, não sabe bem do diafragma, nem da garganta Ela simplesmente canta todas as manhãs.

domingo, 15 de abril de 2012

Domingo

Domingo nada de especial tem. Simplesmente ocorre uma vez a cada sete. Para todos que trabalham comercialmente Domingo é dia de cama, mesa farta e banho quente. Domingo, para estes também é dia de tormento, pela semana que virá, pelos seis dias de labuta. é verdade que a sexta já carrega para os trabalhadores o semi-alivio do sábado. Não há momento de maior paz, onde cantem mais harmoniosos os galhos que se roçam no verde, do que no sábado, depois do trabalho. A segunda parece distante. Para os que estudam esse dia é a sexta. Dia de graças, depois do almoço, liberdade total. Já o domingo carrega o peso da segunda, e o peso das tarefas não feitas na sexta, empurradas para o sábado, e acham no domingo seu habitat. Domingo é dia que não tem empregada, logo ou é dia de ir almoçar fora, num restaurante que normalmente se repete, ou é dia de comer sobras. Feijão em pote de sorvete, bife temperado há uma semana, arroz geladinho, suco de caixa. Domingo meus amigos, é o dia que eu pulo.

domingo, 30 de outubro de 2011

Nazaré da Mata

Era uma vez uma mulher que corria na brenha escura da zona da mata sul. Disparava entre o canavial. Se não fosse tão tarde, quem sabe, se veria de longe as ondas verdes da cana se abrindo. Mas se fosse mais cedo não se ouviria o sussurro das folhas ásperas. Ouvi então um carro se aproximando, um carro popular, não se tratava de uma perseguição cheia de efeitos especiais, ou de carros antigos e belas mulheres... Se tratava do que meus olhos viam no canavial, mesmo aflito com o que presenciava não abandonei meu pensamento da forma como seria mais interessante olhar esta cena absurda. Um homem perseguindo uma mulher desesperada pela zona da mata. O carro e a moça se afastaram, o som dissipou-se vieram as corujas brancas, seguidas pela aurora. Eu não preguei os olhos por que não os pregava a semana inteira. Enquanto tomava café me perguntei se aquilo realmente tinha se passado, enquanto me questionava, admirei a textura do leite, e da relação do líquido com o pó marrom do Nescau do meu neto, ele gosta de formar ilhas de achocolatado e vê-las afundar depois. Até que me esqueci por um momento da moça.Meu neto falava alguma coisa que criança fala sozinha, não me preocupei em entender. Levei um susto quando a mão da mulher me apareceu erguida nas últimas altitudes da ilha que naufragava no mar branco dos copos fundos, ela pedia socorro. Eu realmente esfreguei meus olhos com força, bebi um gole do café velho, machuquei o inhame pro meu neto, coloquei leite, pouco, como ele gosta. Quando se espalhava pelo inhame machucado, as ondas de leite -que naquele momento eu as percebi com clareza, pareciam mais lentas- guiavam o carro popular, um Celta, um Palio, não identifiquei no breu, e na clareza do leite branco ele se embaçava, até ajeitei meu óculos, mas o carro entrou numa montanha de inhame e não mais o vi.
Meu neto caminhou pra caminhonete, me convenci que estava completamente em condições de levá-lo para a escola. Na volta pra casa percebi a atmosfera absurda do canavial que eu cruzara para ir pra Nazaré deixar meu neto. O dia estava claro, claríssimo, mas nem uma rajada de vento, nem um assopro de alívio. Mas também não fervia o asfalto, a temperatura era amena. Foi quando eu vi uma blusa jogada na estrada de barro. E mais a frente, passando devagar com o coração na mão, e a outra no volante- o carro pedia a segunda marcha- eu vi o carro popular. Capotado perto da estrada, onde estão os curiosos? Não havia corpos por perto, e a porta estava fechada, quem estava no carro estava vivo. Me aproximei da árvore próxima, lá estava a mulher que corria ontem. No tronco mais firme. Eu a olhei de baixo, estava sem calcinha, a sombra, e o sol na minha cara me impediram de ver com clareza a linha aberta de minha vida. Ela bebia alguma coisa, num copo popular, um copo de requeijão daqueles com desenhos de filmes, e de personagens, enfim... Ela jogou o leite que bebia na minha cara. Eu não esbocei nenhuma reação, o leite estava gelado, e senti meus poros se abrindo escandalosamente, minha pele ficou somente úmida, o leite havia sido tragado. Eu perguntei onde estava quem dirigia. Ela me respondeu uma coisa que não entendi como se falasse sozinha. Chamei ela pra levá-la a Nazaré, ela balançou a cabeça, e não sei como, sem vento de fora, mas o cabelo dela se mexeu, daquele jeito maligno, que maltrata um senhor de idade como eu. Cabelo preto encaracolado, muito bonito. O vento parecia que vinha dos furos de seu couro cabeludo, mas não me moviam desordenadamente, obedeciam a uma ordem, não burocrática, mas necessária para ser bela. Ela pulou do galho e caiu em pé, na minha frente. Deu uns passos, em "V" um grupo de pássaros voavam longe, uma coruja de buraco, atravessou voando baixo, o espaço que me separava da mulher esquisita. Ouvi um barulho de carro, e quando olhei o carro capotado tinha desaparecido. Virei meu rosto para mulher que se dirigia para meu carro, ela entrou, e mandou eu entrar, eu entrei, me sentei no banco de passageiro. ela dirigiu durante uma hora pelo meio da cana, até que pegamos a estrada, a pista de asfalto, que levava a Nazaré, do nada um mulher com cabelo longuíssimos aparece na frente do carro, correndo desembestada. eu grito para ela parar. Como se de fato a perseguição parasse, ela olhou na minha cara e falou:"Ela sabe muito bem que pode se jogar no acostamento, subir numa árvore, ou entrar no canavial, ela não precisa correr na frente do carro. Ela não precisa ir em frente. Eu nem sei de onde ela saiu mas eu que não vou estragar a vida de ninguém."

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Elke 3. primeiro episódio

Origens:




"Estão no Brasil as obras "Guerra e paz" de Cândido Portinari. São dois paíneis de catorze metros de altura cada, um representa os horrores da guerra e o outro a paz e a sensação de calma. Os paíneis foram concluídos em 1957 e doados à Organização das Nações Unidas."

-Aff, desliga essa tv.
-Que foi?







MANAUS, 1957

O professor de botânica da Universidade de Sarajevo, na Iugoslávia(Univerzitet u Sarajevu), Andrej, viajou milhares de quilômetros para estudar as espécies tropicais que abundam nesssa parte do Brasil, em especial as pteridófitas.A aluna de Antropologia do curso de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco,Margarida,também viajou alguns milhares de quilômetros, uns dois milhares- um pouco menos do que o ilustre professor europeu-para estudar a vida nas aldeias indigénas ao redor da capital do Amazonas. As aldeias periféricas, o seu contato com a cidade.
Os dois, que chegaram em Manaus no mesmo dia, se juntaram ao resto do grupo de mestres, exploradores, seringueiros e fazendeiros para seguirem com a montagem do acampamento e todo o resto da organização na mata.
Andrej só falava inglês no acampamento.Margarida era a única mulher do grupo, e é claro que veio acompanhada do seu marido, o ornitólogo Joaquim Emanoel, que realizava um dos sonhos da sua vida, o de estudar as coloridas aves da amazônia, já que no Recife as espécies já tinham se esgotado em seu catálogo- e ele não deixaria a sua mulher andando sozinha pela floresta amazônica, cercada por índios de tanguinha.
Joaquim aranhava um inglês e conversava com Andrej, lhe interessava todas as áreas
da biologia, e também queria saber da Iugoslávia, um lugar de que pouco se sabia. Margarida que arranhava o tupi, fez amizade com os pequenos índios, estes a ensinavam a se pintar com o urucum. Tudo ia bem, principalmente para Andrej, que estava completamente fascinado pela riqueza da floresta e do povo ribeirinho. A comida, os sucos de fruta...A mandioca, tacacá, tucupi,o jacaré na brasa, o cupuaçu.
É bem verdade que Margarida e Joaquim enfrentavam crises no casamento, Margarida era muito diferente, ousada, estudava demais, não cumpria com as obrigações na casa. Joaquim por sua vez vivia rodeado por raparigas de todas as partes, da cidade alta de Olinda, até Prazeres de Jaboatão, muitos prazeres.
O banho da equipe era no rio, Joaquim tomava de noite com Margarida para que os marmanjos não botassem o olho no que é seu, Margarida tinha um corpo muito bonito, tinha os cabelos cumpridos, encaracoldos e claros, o nariz pronunciado e os seios pintados com sardas. No rio, o casal nu. a água era gelada.
Andrej, desacostumado com o calor da floresta tropical, vivia sem camisa, era muito jovem, tinha lá seus trinta anos, no máximo. Um dia na hora do almoço, quando todos se reuniam para comer o que a floresta e o rio tinham a oferecer, Os pequenos indiozinhos começaram a pintar com as sementes coloridas na barriga branca de Andrej que ria de cócegas, uma indiazinha de franja no olho, chegou correndo puxando Margarida, quando viu a situção começou a rir. As crianças começarama pintar seu rosto também. Margarida se juntou a eles e ajudou a pintar as costas de Andrej, quando o curandeiro chamou os pirraias e eles abandonaram a dupla de estrangeiros, faltava ainda pintar o rosto de Andrej.
-Você entende o que eu falo?
Andrej balançou a cabeça, afirmando que sim. Já fazia três meses que estavam na mata.
-Sim.
-Vamos pintar esse seu rosto branco, não é?
-Sim.
Andrej era muito risonho. Margarida se aproximou do seu rosto e começou a pintar, as sementes com cheiro forte.Um traço com os dedos ao longo do nariz, os dois na bochecha rosada com o calor. O vento soprou tão forte naquele momento.O cabelo de Margarida até grudou na tinta.
-Pintarei sua boca, tudo bem?
-Sim.
Margarida até se perdeu um pouco no contorno dos lábios carnudos e rosados de Andrej, por que Joaquim não tinha lábios. Ventava.Joaquim se aproximou:
-Vamos almoçar Margarida.
Margarida respondeu assustada:
-Sim.
Notadamente Joaquim ficou surpreso e indignado com a estranha situação que presenciou no barracão do almoço.Ele deixou isso ainda mais claro para Margarida no final da tarde, quando se preparavam pra ir tomar banho.
-Não adianta estar no meio da floresta tropical, não é sua engraçada?Você arruma um jeito de me encher. Sempre.
-Sempre.
-Não me responda com esse tom mulher!
-Não foi uma pergunta, homem.
-Como é, engraçada?
-Eu não respondi a você, você não me fez uma pergunta.Isso seria uma abertura para o diálogo, coisa que não há entre gente de dois sexos.Não espero tanto de você Joaquim, não lhe espero tão avant-garde.
-Hum, até palavras estrangeiras aprendeu.Num foi sua engraçada?
-Foi.Mas não foi com esse homem do leste europeu, e muito menos com você, que nunca se prestou pra me ensinar nada do mundo.O que eu sei, eu que li Joaquim.
-Você não precisa saber de nada, pra o que você faz, se engraçar com os machos...Até a mais baixa cortesã de Manaus faz.
-Então o que será que esse senhor, este nobre mestre iugoslavo viu em moi?Talvez eu tenha alguma coisa extra não é? Um acréscimo aos meu serviços.Ele não me vê como mais uma prostituta.Pra falar a verdade, eu detesto acabar com tudo isso... ele não viu nada em mim...Nada aconteceu, eu pintei a cara dele.Só.
-Eu vi Margarida, eu vi que não aconteceu nada, mas ia acontecer, não ia?
Joaquim Emanoel segura Margarida forte pelo braço e torce.
-Ei! Me larga, tá louco é? me larga seu patife,imbecil.
-Fale direito comigo sua meretriz de favela, se não...
-Se não o que? Se não oque Joaquim, você mija na minha cara?
Joaquim dá uma tapa na cara de Margarida. Seus cabelos enlouquecem sobre a cabeça. Para quem queria urina a tapa não veio a calhar.Margarida sai da tenda, com as roupas e a toalha.Vira o rosto vermelho, ainda pintado pra Joaquim. Sorri. Tira a calça,joga na lama, depois a calcinha, e vai desabotoando a blusa no caminho para o rio.
Era fim de tarde no Amazonas quando já nua Margarida entrou na água, com a cara ainda pintada, gostava de sentir entre os dedos do pé aquele chão incerto e inconstante, do fundo do rio, aquela lama terapêutica. A água é tão limpa, tão doce. Se vê os peixes, um dia apreceu um casal de botos.
Margarida nua esquecendo Joaquim no rio, o melhor banho. Deu um mergulho profundo, emergiu, a água e a tinta lhe escorriam a pele.Seus seios molhados, seu ventre emerso davam lugar a descoberta e a intuição.Foi quando ouviu o barulho. Algo caira na água, três garças voaram.Alguém havia mergulhado, era ele, o homem europeu, Andrej, estava de costas.se virou, se assustou.
-Margarida!
Margarida está de pé, água batia no umbigo, só depois de alguns segundos nota que está com os seios fora d'água,cobre os peitos com os braços em X e se abaixa na água.

Andrej vai andando pra trás.
Um momento.
Margarida, fecha os olhos, e se levanta.Tira dos seios as mãos que os escondiam. Mostra. Sente as folhas da água descerem com seu braço, o vento.
Andrej mergulha e vem até ela por debaixo da água.Um frio leve correu a espinha de Margarida, ela sentiu ele se aproximar, os caminhos do rio são muitos, e se abriram, a água estava morna. Quando Margarida voltou a ver Andrej, ele já estava com os olhos fechados,colados nos seus olhos.Margarida fechou os seus, sentia o nariz, a boca e a presença. Desmanchou-se qualquer receio e pudor.O rio corria aberto e quente. Nenhum pássaro se moveu.


RECIFE,1968

-A situação só tende a piorar Andrej.Sabes disso.
-Marcos Langadone sumiu.
-Sumiu?
-Sim, desapareceu.
-Eu sei o que quer dizer sumiu.O mesmo aconteceu Andrej, no departamento de ciências humanas.Mariana Mariarco, Jorge Silva e Otáviano Espinhal, nenhum deles aparece na universidade desde o ínicio das aulas.
-Talvez, Margarida, eu não quero me precipitar, mas com a minha decedência.
-Se precipitar Andrej? Nós já deviamos estar fazendo as malas.
-Não exagere. Os professores militantes sumiram, mas nós nunca nos envolvemos não foi Margarida?
-Andrej.
-O que foi?
-Não é mais seguro.
-Não, não é mais seguro Margarida. Mas para onde nós iremos?Pro exílio? Viver de que?
-Vamos embora.
-Não podemos.
-Podemos sim!
-Como ir?Vamos ficar cala...
-Eu estou grávida.
Andrej encosta a cabeça na parede, olha pro teto branco.Uma lágrima escorre de seus olhos, divide a parte inferior do rosto em duas.Margarida anda pra lá e pra cá, sem parar de roer as unhas.
-Andrej.
-hum.
-Nós temos que ir.
As lágrimas escorrem do rosto de Andrej.Margarida desaba:
-Andrej!Eu estou com tanto medo, dova aula pra uma turma onde noventa por cento é comunista, hoje na sala não tinha mais que vinte pessoas! Vinte Andrej. Onde eles estão? nas ruas? No campo?Vamos embora desse país de merda.

Na calada da mesma noite, bateram na porta, com ordem de prisão para a professora Margarida Campos.Andrej e margarida foram levadas pro departamento de detenção.
-A senhora está sendo intimada professora.
-Intimidada?
-Entenda como quiser.
-Aceita uma bebida professora?
-Por que o protocolo general? Não vai mandar arrancar meus seios?
-Acontece professora, que a senhora é um caso especial.
-A que devo a honra?
-A senhora é professora da minha filha.
Margarida fica calada.
-A senhora tem alguma ligação com comunistas senhora Margarida?
-Só pela televisão.
-Pela televisão?
-Sim.Nas novelas todos são ricos, e isso é o mais perto que eu já vi de uma sociedade igualitária.
O general aperta o braço de Margarida com força.
-Eu aceito sua bebida general.
-Uhm, não sou general.
-Eu sei.
-E por que insiste em me chamar assim?!-O homem derrama um pouco da bebida barata no chão, se altera levemente.
-Boa pergunta, acho que nunca lidei com um militar antes. Peço desculpas.
-Não se preocupe. Então, a senhora conhece estes elementos?- O homem mostra cerca de dez fotos de homens e mulheres, oito desses são seus alunos.
-Quem a senhora conhece daqui professora?
-Uhm...
-Beba.
-Receio que posso ter visto esse, ou esse, mas não aparecem há muito tempo. Não estou certa, é uma pena que não possa lhe ajudar.
-Não se faça de tão espertinha professora. sei que oito desses elementos estão matriculados na sua disciplina "A invenção do homem puro".Estou correto?
-Talvez.
-Beba, por que a senhora não bebe? Está doente?
-Não.
-Tá grávida?
-Não. Graças a Deus.
-Filhos são uma benção professora Margarida, vejo pelos meus, tenho quatro, você conhece Sílvana, menina pura, honesta.
-Sim, uma das alunas que mais se destacam, o senhor tem que ter orgulho dela mesmo. Tem muito vagabundo por aí.
-Sim, sim.Eu gosto da senhora professora, quem sabe possamos jantar juntos na minha casa,eu, a senhora, minha esposa, seu esposo, senhor Andrej Mlic, não é isso e meus filhos.
-Uhum, seria bom.
-Muito bem. A senhora pode ir, depois nós conversamos mais, a senhora tem muito pra contar não é?
-Receio que fique desapontado com o tão pouco que sei.
-Receio que não.Até mais professora.Ah, e não saia de Recife, tudo certo?
-Tá certo, eu não vou sair.

Continua...

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Histoire(s) du Cinéma














jean-luc godard

Dúvida

É o melhor momento pra escrever. Não que eu tenha escrever como um hábito, pelo contrário. Mas quando sento, pra escrever, e somente para isso(não faço outra coisa enquanto escrevo, nem ouvir música sou capaz)e estou como estou agora, ou seja em estado de exclamação neurótica, sai fácil.
Quero escrever uma história de amor, envolvendo família, um casal, um apartamento pequeno, com ventilador de chão. Quero escrever para me lembrar, que tudo isso existe, eu sei muito bem, por que graças a Deus, eu tenho tudo isso, o amor de uma família, um apartamento, só falta uma coisa, e que coisa chata de se falar. Quero falar de um romance possível, completamente irreal, uma mentira apaixonante, que faça chorar e rir, chorar de rir, quero uma mulher que sorri e chora, que não sinta o peso da vida, de leve que é, um homem livre, que sorri e chora, que não sente o peso da cobrança em suas costas largas, que esse peso nem exista, pelo amor de Deus, por favor que não haja peso, afinal é minha a história.
Ou quem sabe eu escreva uma tragédia, uma daquelas onde arrancam-se corações, dilaceram-se as famílias, não sei. Prefiro pensar numa comédia cínica, irônicazinha, quase repugnante com sua sobrancelha arrogantemente arqueada. Uma mulher que vive com o marido, na beira mar, e vive feliz pra sempre, até que ela percebe na véspera de sua morte que sua vida foi uma perda de tempo e que ela não fez absolutamente nada do que ela queria ter feito, resignada, ela já velha se olhava no espelho da penteadeira e se lembrava de ter abdicado e ter forçado. Fez o marido ceder, e ela própria se entregou, sem nem perceber, ainda se penteava, cheirava a lavanda e andava na moda, junto com seu marido caminhavam na praia, recebiam as visitas dos dois filhos, filhos que hoje, nessa véspera de morte dessa senhora grave ela lembra, com certa dor no ventre, a dor do parto, tudo voltou para a senhora. A abertura forçada das pernas, por onde vieram seus filhos, que a salvaram em muitas coisas, assim como fizeram com o pai, mas que muito doeram e muito custaram. A mulher dorme e não acorda. Ou acorda para sempre, como preferirem.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Paris Territory

Coloquei finalmente o disco pra tocar. É maravilhoso, me diz tanto, tem umas coisas que eu penso que não me dizem nada, mas me tocam profundamente, como se não me dissessem, mas me apunhalassem, ou me beijassem. Faz tempo que eu comprei esse disco, numa loja na cidade, era o único, não conhecia este trabalho. O vendedor me assediou nesse dia. Ele tinha um bigode de português, mas era paraibano. Vendia discos. E acima de tudo os ouvia, isso faz tempo, e ele ouvia até a mais nova leva do rock nacional e internacional, quero dizer, o rock de Brasília e o dos Estados Unidos. O inglês veio depois para a loja, pois quem trazia os discos raros de contrabando, não pisava em solo inglês. Depois eu fui atrás dos discos. Não como contrabandista, mas fui para Europa para estudar, e viver um tempo, tinha acabado minha graduação em comunicação social, era uma jornalista finalmente. Pelo menos pensava que era.
Consegui uma bolsa na Universidade da cidade de Paris, iria estudar a tradição da cultura parisiense,o modo de viver tão retratado, seus esteriótipos, suas possíveis verdades, seus cafés, boinas, baguetes, macarrons, croissants, bateau mouches. Meu pai, me lembro de ter perguntado, o por que de eu não estudar o modo de vida de minha terra, o modo de vida recifense. Eu não queria saber de Recife, eu sempre quis morar em Paris, desde que eu vi Beijos Roubados, aquela música de Charles Trenet, me deu uma saudade de Paris, só que eu nunca tinha pisado em Paris, eu tinha uns doze anos quando vi esse filme. Eu queria ver Paris, pretendia morar um tempo, já que eu passei algum tempo estagiando, consegui dinheiro pra passagem, meu pai me prometeu uma mesada, em Paris as coisas não eram baratas, pelo que me dizia minha tia Eunice, a única pessoa que eu conhecia que já tinha ido pra Europa. Eu queria ter visto a revolução de 1968 de perto, queria ser amiga de Marcello Mastroianni, e queria pentear meus cabelos e fazer as unhas com Catherine Deneuve, mas achei depois que ele fosse preferir tomar um bom vinho e comer torradas com manjericão e tomate na praça perto do seu apartamento, em Trocadero. Eu com Jean Pierre Leaud jogaria pedras no canal de Saint Martin.
Desembarquei em Paris em julho de 1980, ainda peguei no cinema O Último Mêtro, filme maravilhoso, foi por causa de Truffaut que me apaixonei por Paris. Me instalei em meu apartamento, um aluguel caríssimo, que meu pai pagava, graças a Deus, eu tive essa oportunidade de viver em Paris. era um apartamento MUITO pequeno, mas eu o amava. Eu jamais reclamaria da vista. Comecei meus estudos, a universidade era longe do meu apê, eu pegava o metro,não o último, mas o primeiro, tinha que chegar lá bem cedo. Tava fazendo um artigo sobre a importância do cinema francês no modo de ver a França, queria falar com alguém, quem sabe conseguir uma entrevista com jeanne Moreau, Anna Karina, Philipe Garrel. Ia ser difícil, mas eu queria muito fazer isso, eu estava completamente fascinada por Paris, e por aqueles pessoas que eu não conhecia, eu não fizera nenhum amigo até o presente momento.



Nossa eu caminhava pela tarde de Montmartre, quando vejo de longe uma figura conhecida. Vinha na mesma calçada que eu, e entrou no café, acompanhando um homem meio careca, era Fanny Ardant, as pessoas olhavam pra ela. Eu entrei no café, queria falar com ela, mas ela estava com o homem de costas para mim, olhou pra mim e sorriu, aquueles dentes branquíssimos, o cabelo curto, Fanny usava lenço na cabeça, ela era a rainha do café Doinel naquele momento. Eu me sentei na mesa que eu encontrei, meio afastada, pedi um café antes que a garçonete me expulsasse, meu francês era bom. Ela se levantou, todos olharam para ela, mas quem foi parado por um senhor de óculos, e sua esposa de cabelos longos foi o homem que a acompanhava. foi quando eu vi: MEU DEUS, era François Truffaut! eu tinha que abraça-lo rapidamente, e entrevistá-lo em seguida



Eu consegui algumas palavras com ele, mas ele tinha prece, falou alguma coisa sobre Gerard, Gerard, tudo bem, ele pediu que eu voltasse a esse café, ele vinha frequentemente, provavelmente ainda essa semana tomaria uma café preto no Doinel. Eu voltei pra casa, já se aproximava o fim de semana, fiquei pensando em Truffaut, e em como eu o entrevistaria, que perguntas faria:
Como o senhor classificaria a atual situação do cinema francês?
Como VOCÊ vê a representação das mulheres em seus filmes?
Como você escolhe onde vai filmar?
Filmar Paris é natural para o senhor/você?
Fiquei com minha Molesquine rascunhando umas perguntas, olhando boba a vista da minha janela. Me sentia só em Paris, é bem verdade. não conhecia ninguém. Só a porteira, que não raspava o sovaco. Mas o cheiro de algodão doce enchia meu apartamento.




Eu não sei como será a entrevista, peguei minha mala, que ainda guardava algumas coisas que eu não tinha usado, e vi o disco de Maria Bethânia, Mel, tava no plástico, peguei pra ouvir. Finalmente eu coloquei pra tocar. Eu tô com saudade de cantar com minha mãe. E de descer as escadarias do nosso apartamento. Eu tenho escadarias na minha rua, mas ela me levam a lugares estranhos. Talvez seja isso que eu queira, me perder, depois eu penso nisso, tenho que pensar em Truffaut. Gerard, Gerard? Depardieu! O novo filme pro ano que vem, vou perguntar sobre isso. Minha mãe disse que terra é onde a gente vive. Minha mãe nunca entendeu, nunca gostou de filmes franceses, achava chatos, não tocavam a ela ela gostava de Anna Magnani, e de Sophia Loren, apesar de opostas, ela gostava dos filmes dublados em italiano, não se gravava som direto. Ela me perguntou por que eu não ia pra Roma, talvez eu ainda vá. Quem sabe. Será que esse cinema me diz? Ou me beija? Me bate? Vou ver se me encontro com Truffaut. Descendo pelas escadarias da minha terra.