sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Reclamação:

Eu preciso me confessar: Eu adoraria, na verdade eu ando precisando, reclamar. Mas, apesar de muitas vezes reclamar, eu sinto que não tenho esse direito. Pois sou privilegiado na vida. Nada me falta na geladeira, estudo em escola paga e meus pais tem carro, enfim, tenho uma vida cada vez mais rara de se achar.
Reclamo só pra mim, as vezes eu falo mesmo, e na maioria é merda.
Mas até quando só, estou ouvindo a minha reclamação na solidão( ou não) do pensamento me vem a censura, e me faz lembrar das muitas pessoas que podem reclamar e não reclamam. Abaixam a cabeça, mesmo sentindo a cada passo o peso da vida, que é esquecida nos momentos ditos divertidos.
Onde a vida deveria ser celebrada é esquecida.

Onde vou buscar o esquecer do que me faz reclamar? Nas tardes, nas sessões de cinema lotadas até o talo por pessoas talvez querendo esquecer alguma coisa. Isso é inconsciente e não controlo, falar disso é até um pouco frustrante. Pois é como um grito de peixe: O peixe tá la nadando seguindo os outros milhares de peixes iguais a ele, até que magicamente ele não consegue mais respirar porque foi pescado. E grita muito. Mas os peixes não emitem sons, não tem cordas vocais nem nada assim.
Mas esse peixe grita procurando o que ele sempre teve em abundância, e nunca sentiu falta. E ouve os outros do seu cardume gritarem,
e chora água salgada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

68

"Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro, mas não um pássaro cantando. Lembra um pássaro voando."

Ferreira Gullar


*


-O que foi?

-Você caiu, e se machuou. Desmaiou no banheiro.

-E o que é que eu tenho?

-Ninguém sabe ainda.


*



-Até logo gurizada!

-Até seu Jairo!

Oito da manhã e todos ainda estavam na sala. Tocando e cantando.
A primeira vez que se apresentou em público foi de costas. A timidez sempre a acompanhara.

*
-Pai, amanhã eu vou participar de um show...

O pai, Jairo Leão, sem nem tirar os olhos do jarnal dispara:

-Então quer dizer que você vai virar vagabunda?
*


CORREIO CARIOCA 1964

Nara Leão estreou nessa última semana o show Opinião, considerado subversivo pela Censura, ao lado de João do Vale e Zé Ketti.
"Se não tem água, eu furo um poço, se não tem carne, eu compro um osso e ponho na sopa ", Diz o samba de Zé Ketti. Mas fica bem claro que a capixaba Nara Leão, menina rica que mora de frente pro mar de Copacabana, não está inserida na realidade que essa e quase todas as outras músicas do show retratam.
É mais uma vã tentativa de se enqudrar em algum grupo, já que há alguns meses, a cantora rompeu com a bossa nova e passou a andar com os compositores do morro.




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Mas ela nunca se enquadrou.

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Miss linda, feia, Lindonéia desaparecida. JORNAL DA MANHÃ 1968

Nara Leão, que faz alguns anos trocou a bossa nova pela música de protesto, participou do disco de estréia da nova onda americanizada que começou a aparecer nos festivais de música. A chamada Tropicália usa e abusa de guitarras elétricas e versos em outras línguas em suas canções, além de simpatizarem com a jovem guarda de Roberto, Erasmo e Wanderléia.

Mais um golpe da oportunista cantora, que não decidiu ainda sua posição na "música brasileira".
Tomara que Nara tenha finalmente encontrado a sua trupe em meio aos baianos Caetano, Gil, Capinam e Gal, para que no futuro nós não tenhamos mais desagradáveis surpresas.

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Mas ainda viriam muitas, muitas surpresas.

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FATOS FOTOS 1971

"Ah, insensatez". Assim abre o novo disco de Nara Leão gravado em Paris, onde a cantora vive há um ano. A musa do movimento que renegou há alguns anos, corre atrás do tempo perdido e grava um LP duplo com os grandes clássicos da bossa nova.
O disco recebeu o nome de "Dez anos depois". Na capa do disco vemos uma Nara embalada pelo frio europeu, que contrasta com o tema do disco que é só bossa nova, só o calorzinho do mais brasileiro dos ritmos.
Para os chatos de plantão disco pode parecer um golpe de oportunismo, mas na verdade é uma doce obra de arte. Mesmo no exílio os artistas continuam brasileiros.










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NARA LEÃO VOLTA AO BRASIL COM OS DOIS FILHOS- FATOS E FOTOS 1972

Casada com o cineasta Cacá Diegues desde 67 Nara Leão engravidou em Paris e lá teve sua primeira filha Isabel, na volta a surpresa de estar grávida novamente e em seguida o menino Francisco vem ao mundo, pra encher de alegria a vida da contora que não está disposta a enfrentar os palcons nem tão cedo.
"Adoro cantar, mas não é acoisa mais importante do mundo, antes de ser cantora eu sou mulher e sou mãe."
Aguardamos ansiosos a volta da cantora que sempre divide a crítica.


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- Disco novo Menescal?

-É Nara!Tá na hora de gravar!

-Mas e a PUC?

-Agente grava de um jeit que não atrapalha as aulas.

-Tá bom Menescal. Mas gravar o que?

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VEJA RECOMENDA, NATAL DE 1974

NARA LEÃO-MEU PRIMEIRO AMOR

Nara grava nesse disco as músicas que sostuma cantar pra seus filhos dormirem. Mas não é um disco só infantil, muitos pais também estão correndo às lojas de discos para garantirem o seu próprio exemplar do disco que pra surpresa da própria Nara é praticamente unanimidade na mídia.



Nara conquista, além de crianças, adultos que relembram sua infância no disco.




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O estúdio é uma festa, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão e João Donato.
Os colegas gravam juntos.
Lembranças que ficaram. De uma época em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes como diria Elis.

Cada faixa é dividida com um amigo de Nara: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dominguinhos, Nelson Rufino, Edu Lobo, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Carlinhos Lyra e Roberto Menescal e João Donato.

Meus amigos são um barato.



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...E QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO... MANCHETE 1978



Nara Leão realmente não perde a chance de aparecer. Desde que botou pra trás sua turminha da bossa nova na década passada, gravou com a Tropicália, voltou com a bossa nova... Enfim, quando as coisas apareciam Nara as gravava e nunca ficava parada. Esse ano não foi diferente, e Nara gravou o disco "E que tudo mais vá pro inferno", Só com músicas de Roberto eErasmo Carlos. É realmente íncrivel como a desafinada ainda faz algum sucesso. Enfim Nara, vlte para sua casa e seus filhos, nós não precisamos tanto de você quanto eles.


*

"Por que eu tenho que gravar sempre a mesma coisa se posso gravar coisas novas?
Um passo pra frente e você não estará mais no mesmo lugar.
Se vejo uma coisa nova e me agrada, eu acho de maior talento, não tenho preconceito, vou lá e gravo."

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A CANTORA NARA LEÃO É INTERNADA APÓS QUEDA NO BANHEIRO.



*



Não vejo o que havia melhor pra gravar hoje em dia. Isso é a nata da música popular brasileira de 1981. é isso aí, Fausto Nilo, Fagner, Cli cle clo e Capinam. Tem toques de Nordeste, Tem toques de Brasil. Gostei muito do resultado.



Realmente é um Romance popular, no sentido mais amplo de romance.


Nunca me senti tão bonita, é só você colocar pra fora o que você tem de mais bonito e pronto.

As crianças me ajudaram muito a escolher o repertório, elas não passaram por uma série de condicionamentos pra gostar disso ou aquilo.








Seja o meu céu.






DE VOLTA A BOSSA NOVA, NARA LEÃO E ROBERTO MENESCAL RELEMBRAM PASSADO NA AVENIDA ATLÂNTICA.
Num disco nostálgico, o violão de Menescal acompanha a voz doce e afinada da cantora, que nunca esteve tão bem. Percorrendo novos clássicos

Nara Leão é a mais aventureira das cantoras brasileiras. Gravou de tudo ao longo de sua carreira, que ano passado fez 20 anos. Mas nesse registro de todsas inéditas na sua voz, ela volta ao passado pra antar o que se esperava dela naquela época. A questão é que ela faz isso com 43 anos e não com 23, e faz isso melhor do que nunca: cantar.
Nara humildemente começou a ter aulas de canto com um professor especializado, e melhorou muito deixando-a mais segura para fazer shows. E por falar em shows a cantora e o violonista responsáveis por essa obra prima estão nesse momento no Japão em turnê. É que os japoneses, ao contrãrio de grande parte da população brasileira, principalmente a jovem, admiram música de qualidade, por isso Nara Leão é uma pop star no Japão.
A novidade não para por aí Nara e Menescal foram convidados para gravar um disco com os grandes clássicos da bossa nova no japão, mas não um disco qualquer, um compact disc, a mais recente invenção no ramo musical. Nara será a primeira artista brasileira a gravar um cd.




É INTERNADA EM ESTADO GRAVE NARA LEÃO.
















*

Mas como já se disse antes: Tem gente que nuca morre. E ainda por cima dá vida aos outros.


Nara faria hoje 68 anos de idade. E fazem 20 anos da sua morte.






















segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dia

Ano passado , 2009 , teve um concurso de curtas metragens pra comemorar o aniversário da comunidade Cinema Olho, Quando eu li que aconteceria o concurso e depois que li o regulamento, que não podia ter música com direitos autorais e tal me lembrei logo do meu primo Bruno. Fomos conversando tentando montar um roteiro do roteiro, o tema era a passagem do tempo. Faltando três dias pra entregar o curta nós começamos a fazer, sentamos e falamos: E agora que sai. Fizemos uma lista com tópicos, que foi chamado de "roteiro", Chamamos Joana, e minha vó Lisete pra atuar no curta. Se bem que nem estavam atuando mesmo. Tavam eram vivendo aquele momento denovo, não sei, nem quero explicar.
Fizemos, Bruno também atuou. Bruno tocou na hora de improviso, e gravamos. A edição quase que não fica pronta, o conselho que se dá é pra nunca dependerem só do Movie Maker! Aqui está o curta:

Ah, e nós ganhamos o concurso.

http://www.youtube.com/watch?v=j6glsu_4Rbc

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os cocos de Grimarão.

Pra meu tio Edivaldo,


Era só ela e o marido Grimarão. Ele sempre trabalhou e a sustentou. Sempre, ela nunca trabalhou em nada fixo, de vez em quando fazia uma costura, um remendo. Houve um ano em que ela costurou um vestido de noiva, foram tantas as lembranças, mas já faziam mais de quarenta anos.
Ela era mais nova que ele sete anos, esses sete anos a mais eram facilmente percebidos na cara dele, ele tinha até uma casca grossa e seca na testa. Os dois usavam óculos, quase todo senhor usa. Talvez os anos a mais se fizessem notar pelos anos de serviço, enquanto a mulher ficava em casa com os meninos. Mas seria mentira, a mulher era bem mais conservada do que ele, mas não por isso. Ela ralava muito em casa, talvez até mais do que ele. Esfregar aquela cerâmica toda, amarela e preta que era, chegava a dar nauséas. Cuidar de três filhos. Ainda esquentar o café pra Grimarão quando o velho, que ainda era novo, chegava.
Hoje estão sós ele e ela. De vez em quando visitam a irmã dele, Nilda, que tem grande apreço por ela. Mas os filhos aparecem rarríssimamente.
*

Era de manhã cedo, cinco e meia, seis horas quando ela pediu pra Isabel ralar o coco.

- Grimarão daqui a pouco acorda, ele vai querer a tapioca dele. A minha você sabe, é de queijo coalho com mortadela né?

-Sei sim, e vou passar o café. Aliás tamo precisando de mais filtro viu? Que os que tem ai tá acabando.

-Ishh, vou comprar, amanhã eu vou fazer feira. Hoje eu não quero fazer é nada.Acordei pra lá de Bagdá, sabe?

-Uhm sei que isso não senhora (A mulher forte que Isabel era, fechou os olhos pretos e abaixou a cabeça, sentada de pernas abertas por cima do ralador, colocando força enquanto a carne branca do coco perfumava a cozinha ainda meio escura).

-Sabe não? Oxente. Tô sem saco.

Passou um tempinho e deu seis e meia. A morena Isabel já foi perguntando se ia querer agora a tapioca.

-Não, não, eu vou esperar pra comer com Grimarão que ele não gosta de comer sozinho. Hoje até que ele tá demorando pra acordar né?

-E então.

E a manhã foi passando. E nada de Grimarão acordar.

-Ei ,a senhora não acha melhor agente acordar ele não?

-Opa, já tava cochilando aqui Isabel, bora, bora.

Ela foi em direção ao quarto que tava com a porta fechada, Isabel foi atrás dela.Quando chegou na frente da porta ela estava meio nervosa, sabia que o homem já era velho.
Quando abriu a porta fechou rapidamente quase no mesmo segundo, que não deu tempo nem de Isabel entender o que se passava no quarto. Ela deu uma gargalhada tão aguda que Isabel jurou ouvir uma taça na cozinha estalar.

-ish que foi??( Perguntou assustada)

-Nada não menina, agora deixa eu entrar, que eu tenho que falar um negócio que esse meninão.

E não parava de rir. Isabel ficou confusa.

*


- Isabel, pode ir ralando o coco de Grimarão tá? Daqui a pouco o velho acorda.

- Tá certo.

- E hoje eu não vou querer tapioca não, cou comer carambola mesmo, Nilda me deu umas anteontem.

-E eu num vi. Até filei uma.

- Pode pegar menina. Grimarão gosta de fruta também, mas de manhã não abre mão da tapioca dele.

*

Isabel derrubou o ralador na bacia que por sua vez capotou e derrubou no chão todo o coco já ralado, o chão preto e amarelo ficou incrementado com branco. A morena olhou aquela composição achou bonito e cheiroso, mas em alguns instantes ela se obrigou a perceber que aquilo era ridículo, e que deiva estar preocupada por ter derrubado o recheio da tapioca do seu patrão no chão. Mas não estava. Virou em direção a porta da cozinha e entrou na sala, parou na frente da patroa, e disse:

-Vamo acordar o véio?

-Menina ainda é cedo (olhando pro relógio de cuco, enorme que ela tinha na sala.)

-Vamo.
*
*


Já não tinha mais coco nenhum quando Isabel voltou pra trabalhar. Tudo já estava feito. Ela ia se mudar, e a morena iria com a patroa. Não podiam ficar sozinhas naquele palacete. Não sem Grimarão.

- Como é que ele tá mãe?

- Como um vegetal meu filho. Não respira só, nem nada, nem fala muito menos. Vocês não vão mesmo poder vir aqui hoje?

-Amanhã, eu vou por aí. Mas tem certeza que a senhora quer se mudar? O quadro dele pode se reverter.

- Não, aqui eu não fico mais, tô lhe esperando amanhã. Roberta tá no Hospital com ele, mais tarde eu tô indo pra lá. Beijo.

As únicas coisas que ainda estavam de pé eram o telefone, que tava ligado e o relógio, que continuava lá.
Isabel, Carlos e ela tavam lá dentro fechand as últimas caixas.

Carlos puxou ela meio de lado e perguntou baixinho:

-Por que é que a senhora não espera mais um pouco pra se mudar, agente consegue oferta melhor mãe. A senhora tá fazendo as coisas muito na carreira, vai se arrepender...

O telefone berrou no meio do eco.

-Mãe??

-Oi minha filha, que que houve?

*


-Olha Isabel aquele dia que agente abriu a porta e eu comecei a rir, lembra?

-Lembro bem.

Ela não parou de rir.

-Se controle, e me conte o que foi que a senhora viu.

A mulher vermelha se recompôs.

-Quando abri a porta eu vi Grimarão sentado an cama totalmente nu, com as pernas juntas e aqueles dois ovinhos e a bimba morta! Eu não consegui parar de rir!!

A morena abriu um sorriso branco. Aceso.

-E agora a senhora vai fazer oque dá vida sem ele?

-Sem ele? Nunca vou ser sem ele. Vou me mudar, só isso. Mas vamos continuar em Casa Amarela.

*

A mulher viúva, com três filhos, 68 anos de idade, com uma amiga Isabel, se mudou, mas não mudou.


Algum tempo depois Isabel beba de sono ainda continuava ralando o coco de manhã cedo. Mas não se estragava, ela dava pro porteiro comer com bolacha e café.

-Isabel, entenda, as pessoas apenas deixam de atender o telefone. Mas nunca deixam de falar, nunca.

-É, já me disseram que tem gente que nunca morre né?

é.





Talvez seja pra meu tio e minha tia Nilza, que cuidou dele nesses últimos tempos. E que agora vai descansar um pouco. E meu tio já está descansando.

Pra Edivaldo que ajudou tanta gente,
Que chateou tanta gente,
Que só matou de rir,
Que xingava carinhosamente minha avó,

E que nunca vai morrer.