domingo, 30 de outubro de 2011

Nazaré da Mata

Era uma vez uma mulher que corria na brenha escura da zona da mata sul. Disparava entre o canavial. Se não fosse tão tarde, quem sabe, se veria de longe as ondas verdes da cana se abrindo. Mas se fosse mais cedo não se ouviria o sussurro das folhas ásperas. Ouvi então um carro se aproximando, um carro popular, não se tratava de uma perseguição cheia de efeitos especiais, ou de carros antigos e belas mulheres... Se tratava do que meus olhos viam no canavial, mesmo aflito com o que presenciava não abandonei meu pensamento da forma como seria mais interessante olhar esta cena absurda. Um homem perseguindo uma mulher desesperada pela zona da mata. O carro e a moça se afastaram, o som dissipou-se vieram as corujas brancas, seguidas pela aurora. Eu não preguei os olhos por que não os pregava a semana inteira. Enquanto tomava café me perguntei se aquilo realmente tinha se passado, enquanto me questionava, admirei a textura do leite, e da relação do líquido com o pó marrom do Nescau do meu neto, ele gosta de formar ilhas de achocolatado e vê-las afundar depois. Até que me esqueci por um momento da moça.Meu neto falava alguma coisa que criança fala sozinha, não me preocupei em entender. Levei um susto quando a mão da mulher me apareceu erguida nas últimas altitudes da ilha que naufragava no mar branco dos copos fundos, ela pedia socorro. Eu realmente esfreguei meus olhos com força, bebi um gole do café velho, machuquei o inhame pro meu neto, coloquei leite, pouco, como ele gosta. Quando se espalhava pelo inhame machucado, as ondas de leite -que naquele momento eu as percebi com clareza, pareciam mais lentas- guiavam o carro popular, um Celta, um Palio, não identifiquei no breu, e na clareza do leite branco ele se embaçava, até ajeitei meu óculos, mas o carro entrou numa montanha de inhame e não mais o vi.
Meu neto caminhou pra caminhonete, me convenci que estava completamente em condições de levá-lo para a escola. Na volta pra casa percebi a atmosfera absurda do canavial que eu cruzara para ir pra Nazaré deixar meu neto. O dia estava claro, claríssimo, mas nem uma rajada de vento, nem um assopro de alívio. Mas também não fervia o asfalto, a temperatura era amena. Foi quando eu vi uma blusa jogada na estrada de barro. E mais a frente, passando devagar com o coração na mão, e a outra no volante- o carro pedia a segunda marcha- eu vi o carro popular. Capotado perto da estrada, onde estão os curiosos? Não havia corpos por perto, e a porta estava fechada, quem estava no carro estava vivo. Me aproximei da árvore próxima, lá estava a mulher que corria ontem. No tronco mais firme. Eu a olhei de baixo, estava sem calcinha, a sombra, e o sol na minha cara me impediram de ver com clareza a linha aberta de minha vida. Ela bebia alguma coisa, num copo popular, um copo de requeijão daqueles com desenhos de filmes, e de personagens, enfim... Ela jogou o leite que bebia na minha cara. Eu não esbocei nenhuma reação, o leite estava gelado, e senti meus poros se abrindo escandalosamente, minha pele ficou somente úmida, o leite havia sido tragado. Eu perguntei onde estava quem dirigia. Ela me respondeu uma coisa que não entendi como se falasse sozinha. Chamei ela pra levá-la a Nazaré, ela balançou a cabeça, e não sei como, sem vento de fora, mas o cabelo dela se mexeu, daquele jeito maligno, que maltrata um senhor de idade como eu. Cabelo preto encaracolado, muito bonito. O vento parecia que vinha dos furos de seu couro cabeludo, mas não me moviam desordenadamente, obedeciam a uma ordem, não burocrática, mas necessária para ser bela. Ela pulou do galho e caiu em pé, na minha frente. Deu uns passos, em "V" um grupo de pássaros voavam longe, uma coruja de buraco, atravessou voando baixo, o espaço que me separava da mulher esquisita. Ouvi um barulho de carro, e quando olhei o carro capotado tinha desaparecido. Virei meu rosto para mulher que se dirigia para meu carro, ela entrou, e mandou eu entrar, eu entrei, me sentei no banco de passageiro. ela dirigiu durante uma hora pelo meio da cana, até que pegamos a estrada, a pista de asfalto, que levava a Nazaré, do nada um mulher com cabelo longuíssimos aparece na frente do carro, correndo desembestada. eu grito para ela parar. Como se de fato a perseguição parasse, ela olhou na minha cara e falou:"Ela sabe muito bem que pode se jogar no acostamento, subir numa árvore, ou entrar no canavial, ela não precisa correr na frente do carro. Ela não precisa ir em frente. Eu nem sei de onde ela saiu mas eu que não vou estragar a vida de ninguém."