sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Uma aprendizagem

Meu avô é daqueles que sentam com as pernas cruzadas em restaurante. Brinca de budista, e é de verdade. Tem uma patologia psiquíca que quando passa longos periódos sem o remédio sai distribuindo dinheiro para todos, todos, todos. Isso já gerou um quase divórcio com minha avó.
Nunca fui muito próximo ao meu avô, ele e minha vó moravam meio longe, interior da Paraíba.
Fazia anos que eu não ia lá, mas todo ano ele vinha pra Recife, ele e minha vó, André e Margarida.
Com os dois já velhos, um cuidava do outro. Mas em uma manhã daquelas brancas, embaixo do cajueiro, deitada na rede escrevendo em seu caderno, minha avó, Margarida escreveu sua última linha.

Com certeza esse fato gerou muitas outras linhas.

Foi graças à ida de Margarida, que se deu a vinda de André.

Meu avô, depois de todos os eventos fúnebres, veio à minha casa, pra acertar a situação do sítio de Bananeiras (onde ele e vovó moravam). Ficou acertado que seria vendido. passados seis dias da morte de Margarida meu avô já estava instalado na minha casa. No começo, nos primeiros dias foi meio estranho ter alguem em casa que não era aquele alguém de sempre. Ainda mais um velho, que tem aqueles hábitos esquisitos, mas ele não usava dentadura. Tinha dentes fortes, que agarravam no caroço da manga na hora de chupar, dentes fortes e amarelos. Na adolescência fumava com os irmãos cachimbos de folha de cajá, adorava o cheiro. O engraçado é que eu nunca vi meu avô escovando os dentes, e nunca senti mau hálito vindo da boca dele.

-E pra beber senhor?
- Suco, de cajá.
-E o senhor?
-Refrigerante.

Meu avô disse que coca-cola tinha gosta de plástico, misturado com sabão, e uma gota de petróleo pra dar a cor e o preço desejados. Sentamos à mesa da praça de alimentação, era sábado e religiosamente o shopping estava lotadíssimo. O número do pedido da minha mãe saiu na telinha, ela se levantou pra ir pegar o prato. Eu e meu avô ficamos sós na mesa. O velho André não era simpático, nem muito falador, nem muito calado. Eu fiquei pensando naquelas velhinhas bondosas e simpáticas que sorriem de graça, muitas tem uma vida simples, regada à moralismo e religião, mas são tão doces! Eu não pensava nada disso do meu avô, talvez isso se aplicaria
à minha avó. O meu avô aparentemente adivinhou o que eu pensava naquela hora.

- "Olha menino, nunca mais vão haver senhoras como Margarida, e outras que vivem pelas paradas aí afora. Não é questão de idade, certo que contribui, mas não é determinante, quando uma criancinha fala: aah eu adoro velhinhas", não é das velhinhas que ela gosta, mas sim das moças de antigamente, educadas e respeitosas. Tenho sorte de não viver pra ver as velhas de amanhã.
O mundo sempre foi perdido, sempre. Quando não houve caos?
Quando não havia mundo.
Mas sinto que estamos nos superando."

Meu avô nunca tinha falado tanto pra mim. E é verdade.

*
Quando chegamos em casa meu avô foi diretamente pro quarto dele. Me chamou.

-Oi vô

-Vem cá menino, bora abrir essa caixa aqui. É das coisas mais pessoais da tua avó.

Meu avô tirou do guarda roupa, a última caixa que faltava abrir, com o que preenchia a antiga casa em Bananeiras. O que eu vi primeiro foi a ponta de um lápis preto. Ele puxou de dentro da caixa o caderno da minha vó, ela usava mais ou menos um a cada ano, gostava muito de escrever. era de capa dura, não tinha espiral, era brochura mesmo, costurado, a capa era cheia de colagens, fotos, textos, orações. O velho André o colocou no colo. Olhou pra frente, na escrivaninha tinha um porta retrato com uma foto da minha vó, com um vestido bonito, os cabelos curtos, e a cara de envergonhada, era morena e tinha olhos que falavam. Sinalizou para que eu pegasse o retrato. Olhou um pouco para a velha foto, soltou no colchão, levantou o caderno com as mãos e disse:
-Aqui

silêncio


-Aqui o quê vô?

-Aqui está sua avó Margarida, nesse caderno, não na foto. Nenhum retrato a captou tão bem, quanto um de seus textos. Ela está bem aqui.
Colocou o caderno de lado, e não teve coragem de abri-lo.Eu puxei o caderno, ele rapidamente parou minha mão e disse que ainda era cedo pra saber o que ela tinha escrito no último dia de vida. Hesitou um segundo. Virou a caixa na cama. Eram tantos lápis de cor que a cama explodiu em cor. Minha vó não usava caneta. Puxei o lápis preto.

-Quando eu era pequeno perguntei a minha mãe se quando ela era pequenina existia lápis de cor colorido, ou se só tinha lápis preto e cinza. Já que o papel seria branco. Afinal, a tv era em preto e branco né?

-Hum. você AINDA é pequeno. e quando EU era pequeno não se tinha lápis de cor, nem muito menos televisão, e o mundo pra mim não era preto e branco. eu tinha um pincel que meu tio Rubens fez pra mim. era com um pedaço de pau e na ponta tinha pêlo de bode dalí do sítio mesmo. E as tintas era também ele que fazia, do urucum saía o vermelho, da polpa da beterraba ele fazia roxo. E do resto do tempero da carne ele no pilão, móia e fazia uma pasta verde. O jornal, que era nosso papel, ficava engilhado, mas eu me divertia horas. E eu tinha que esperar ele chegar pra poder pintar. porque não sabia, nem podia fabricar as tintas. e a cada visita do meu tio ele fazia também um novo pincel, pois nas minhas pinceladas o coitado do pincel se torava. era assim, meu mundo era em três cores. Eu gostava muito de tentar reproduzir no jornal o nosso cachorro Napoleão.
Nunca escrevi nada como sua avó. mas li. Li muito o que ela escrevia, e o que os outros escreveram e escrevem.

Senti um frio na espinha quando meu avô parou de falar. era como se minha alma tivesse entrado denovo no meu corpo. Meu Deus meu avô abriu parênteses no tempo.
viajei.
Dormia geralmente tarde. ficava assistindo tv. nunca ouvi ele rindo de nenhum programa.
e agora é fato, ele não escovava os dentes.

Hálito de cajá, meu avô me levou na sorveteria. minha mãe veio junto. Era uma sorveteria italiana na Conselheiro Aguiar. nos servimos, sentamos. Meu avó como de costume cruzou as pernas na cadeira, sentou como um sapo na vitória régia. até que:

-Senhor, o senhor pode por gentileza tirar os pés da cadeira? solicitou o garçom encabulado.
Sem falar nada com a colher na boca o velho André, se levantou e se sentou no chão, ao lado da cadeira.

-Quem disse que meu pé é mais sujo que meu traseiro.
Minha mãe entrou em choque. implorou para que meu avô se levantasse. Ele continuou comendo seu sorvete de banana com tranquilidade. O garçom já tinha desaparecido na vergonha, e todo mundo olhava pro velho.
Minha mãe se levantou e disse que ia embora.
E foi.

Assim que ela entrou no carro meu avô se levantou e nós fomos andando pela praia. Com as sandálias no pé, deixou se molhar pela onda fina.

-Tua avó gostava muito de água. tinha uma bica em cima de uma pedra, lá em cima, atrás de casa, atrás do cajueiro que ela escreveu a última frase. tomavámos banho de noite. era frio. mas agente se aquecia.

eu ri.

-A tua vó era empregada lá de casaquando eu era menino tu sabe né? Contava tudo da minha vida pra ela, meninas, poesia, música, comida, tudo. Agente conta as coisas pra empregada por que acha que ela não tem a menor interferência na nossa vida, acha que ela é de outro mundo. Até que ela sabe tudo de você e te acende. Foi covarde o jeito que Margarida me conquistou, eu penei por ela. Mas garanto que valeu à pena. 55 anos juntos.

- Nossa tudo isso?

-E então, e podia ter sido mais, nem tudo se completa, foi muito bom. mas não gosto de pensar em coisas fechadas nem tudo acaba sabe? Há o eco das pessoas. você tem eco em mim, eu espero ter em você, espero te contaminar, como Margarida me contaminou com a sede da vida. Meu pai, a vida toda do mundo já passou, tudo já tá escrito, agente só faz ler. Não eu não acredito em destino não. mas eu acredito em próximo capítulo, mesmo que inesperado. sei lá. não quero ter opinião formada sobre tudo.

- HEHE toca Rauul.

-Hum, detesto rock. Mas enfim meu filho, a vida é assim aberta.Talvez haja contradição. mas procure me entender sou velho e vivi bastante. Não me exija tanta coerência. Estou escrevendo em você o que não coloquei no papel.
Vamos ler a última página.

Meu avô me contaminou, não tem mais cura.

é doce.

*

Abriu o caderno logo no final. procurou entre seus escritos a última folha. se surpreendeu ao ver que só tinha uma linha na folha toda, a última folha com algo escrito do caderno que ainda tinha metade virgem. Não era poema, nem romance, nem receita. só dizia isso, e o que se seguia era um mar de folhas em branco:


Eu penso que:

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

ECO

Olívia,

Primeiramente, como é que tu tá? Faz tempo que agente não se vê, a última vez foi no aniversário de Pedro. Bem, eu tô bem, mainha tá mandando um beijo, disse pra tu ficar bem, mas que acha que é melhor tu ficar aí por uns tempos.
Eu tô sentindo muito a tua falta, teve a festa de são joão lá na igreja todo mundo (menos o pastor) perguntou por tu. Eu disse que tu viajou.
Olívia, eu to mandando essa carta pra te pedir desculpas, pelo o que eu te disse, Eu não acho nada daquilo que eu disse mas eu disse tudo aquilo que os outros achavam de você , por que naquele momento eu fui como uma esponja e absorvi o pensamento dos outros, não sei como nem por que, mas foi assim.
Tu sabe que eu te amo muito Olívia, quando tu voltar eu quero que tu fale comigo, senão é muito provavél qe eu faço o mesmo que tu tentou fazer no banheiro.
Tu é meu braço esquerdo, e eu sou canhoto.
Algumas coisas que tu fizeste no começo do ano são dificeís de engulir, se coloca no lugar de mainha, só te peço isso. E quando tu voltar agente já vai ter se mudado pra Jaqueira.




Beijão, João (rimou)

João,

A situação aqui tá insustentavél, eu chego aí na quinta feira, qualquer coisa eu fico na casa de vózinha. Não eu não tô muito bem não, mas também não tô mal João, eu fiquei muito triste com o que tu me falou, muito mesmo, e não adianta falar que tu não queria me dizer aquelas coisas que eu sei que tu queria, enfim, não tô com raiva de você.
João tu é lindo por dentro e por fora, esquece tudo que tá por fora, quem tu ama tá dentro de tu, fecha os olhos, e vê as costas das tuas pálpebras, esquece dos outros, eles são pequenos, e eu temo que tu fique do tamanho deles. Mas eu vou tá aí pra te libertar hahahahahahha
Eu não me arrependo de nada que eu fiz, e eu quero deixar bem claro que eu não fiz nada de errado, eu amei muito Ayala, e não me arrependo de tê-la amado, faria de novo.
Ai o caminhão de lixo tá passando aqui, aqui eles passam de tarde pra não atrapalhar o sono dos velhos, na Europa é cheio de velho João. Por falar em velho como tá meu velho??? Tu e ele são as únicas pessoas que eu tenho certeza que me amam, manda um beijo enooorme pra ele. Tenho dúvidas quanto a veracidade so sentimento de mainha, não, talvez ela goste de mim, mas meio argh, sabe? culpa do HOMEM.
Ei sabe o que foi que a mulher aqui da minha familia veio me dizer? que brasileira por aqui tinha fama de PUTONA hahahahahahahahahahahhahahahahahahahhaha, bora escrota.
Só me lembrei de tu, não que tu seja uma putona, mas eu sei que tu ia rir.

Tá quase na hora do francês, eu tenho que ir, até quinta João.
Eu não vou ficar aí se O HOMEM DA CASA estiver, ok?

Um beijo do tamanho do Louvre ( meu Deus que labirinto é aquele?), e não rimou ok? Tabacudo, te amo.

Palito,

Eu também tô com muita saudade de você minha linda, minha flor, minha Olívia Palitinho.
Soubemos que você tava de caso com uma menina né? Minha casca é grossa mas meus pensamentos não minha filha, você sabe que eu lhe apoio, nas suas escolhas, mas digo logo que sua vó não gostou muito da sua "aventura". Mas não se sinta mal com a opinião dos outros, você sabe que sua vó é muito mais coerente que eu, ela é velha por fora é por dentro. Minha vida teria sido bem diferente se eu não tivesse me casado com Berenice, ela tá com barba Palitinho. Mas enfim você não é meu analista.
Nós lhe amamos muito, disso pode ter certeza, e sua mãe também, ela já me disse isso, ela ama lá do jeito dela filha. Não culpe ela, você sabe de quem é a culpa: das outras pessoas, nem é de João, ele tá contra a parede minha filha. Tô lhe falando essas coisas por que sei que você tem maturidade suficiente para entender. Por falar em maturidade eu resolvi aprender a tocar clarinte. É preciso ser maduro pra tocar clarinte. Se lembra que elhe disse na apresentação da orquestra sinfônica lá no santa Isabel? O clarinte se aprende por último, depois de cansado de guerra, feito eu, O clarinete é muito doce, é quase um orgasmo de sereia, um sopro de vida, ele é a sobremesa. Vou te ensinar quando chegares. Vem direto pra cá, não passa em casa não, é melhor Palitinho, tu sabes que teu vó te ama né? Liga pra mim pra dizer o horário do vôo direitinho tá?

Beijo grande, Lamartine.



A VOLTA


Eu desci do carro , bati a porta, mainha fez o mesmo do lado do motorista. Agente tava indo ver Olívia que tinha chegado um dia antes na casa do meu avô. Toquei a campanhia, quem abriu foi ela. Primeiro ela deu um passo pra trás, seus olhos ficaram molhados e ela pulou no meu abraço, foi tão rápido que nem sei como percebi isso. Foi educada com nossa mãe, apesar dos últimos acontecimentos.
Fazia uns dois meses que eu nao via minha irmã, ela tava na França numa cidade chamada Argenteuil fazendo um intercâmbio forçado. Foi sugestão de mainha, que não queria continuar a ver meu pai e Olívia discutindo todo o dia e todo dia, a questão é que minha irmã tava namarondo com outra menina, uma tal de Ayala, que é filha de romenos diga-se de passagem. Meu pai nunca aceitaria, na verdade a única pessoa que não viu problema foi meu avô.
Sentamos no terrraço, pra comer pitomba tirada no dia, eu fiquei olhando o enorme cabelo dela, balançando, cabelo preto, liso-lambido.
A saudade que eu senti era muito grande, agente sempre foi muito apegado, até ela começar com essa história de ser diferente. Ela sempre gostou de tocar violão e cantar, tocava mesmo, fazia conservatório antes de viajar, se apresentava e tudo mais.
- Ei, e como foi lá? Eu perguntei
- Ai foi um saco, tipo, lá é muito organizado e tal, Paris é uma festa, é linda, mas as pessoas sabe?
Não tinha tu João, não tinha meu velho tava foda, e eu tava quase todo dia tendo tontura, um dia eu desmaiei no colégio, mas foi só alguns segundos.-Disse minha irmã com a calma que lhe era própria.
- Tu desmaiou?? Meu Pai, o que que tu teve??- Perguntei assustado
- Saudade. Respondeu Olívia com uma calma irritante.
- Agente tem que ver isso Olívia, ir no médico sei lá,
- Besteira, foi só lá mermo. E cadê teu pai ?
-Teu pai também né?-retruquei
- Meu mesmo não, ele é o HOMEM DA CASA, é assim que ele quer ser, espero nunca mais ver ele. disse Olívia com uma pitomba na boca.
-Ai que dram...
-Drama uma porra, tu não sabe o que eu passei não João-disse ela alterando a voz.
- Tá esquece isso- ela amenizando-Mas eu vou continuar aqui. Meu velho tá me ensinado a tocar clarinete, disse que eu já sei violão demais. João, nunca mais fala o que tu me falou, nunca me senti tão mal, se tu me ama de verdade, me aceita João.
-Olívia... -disse eu olhando pros lados procurando um buraco.-Eu não já te expliquei em carta isso.
Minha mãe chegou com minha avó no terraço, e se sentaram, minha avó Berenice era baixa velha e gorda, e não tirava os olhos da minha irmã, que para ela era uma mutação genética. Minha mãe arrancou do caixo uma pitomba. Olívia se levantou. uns cinco minutos depois de silêncio e eu fui atrás dela, fui caminhando pelo corredor escuro no fim da tarde da velha casa no Poço da Panela, vi pela fresta da porta Olívia conversando com meu avô.
-É melhor eu ir mesmo né vô?
-Você que sabe minha filha, as portas tão abertas viu? e se você for por favor leve sua avó e deixe ela no meio do caminh...
-João entre meu filho. disse meu avô constatando a minha presença.
Olívia veio e sentou no meu colo, meu avô tava deitado a janela tava semi-aberta, a colcha da cama que ele tava eu me lembro bem, era a que ele mais gostava, uma colcha de fuxico, que minha mãe e minha tia Sandra tinham feito pra ele quando eram "jovens e livres", palavras do velho. Era a penúltima vez que eu veria a colcha.
Meu avô achava que o casamento das suas duas tias tinham surtido o memso efeito do dele. A infelicidade, por conta de um dos membros. meu avô também não era flor que se cheirasse, traía minha avó dentro de casa! Nunca teve apego com religião nenhuma, quando minha mãe começou a frequentar a igreje Presbiteriana, meu avó falou muito, ainda fala, por que eu sigo. E o pior foi lá que minha mãe conheceu meu pai, que é proibido de pisar na casa do velho Lamartine (meu avô), os dois não se batem, sabe? O que meu avô mais odiava: Meu pai, a minha igreja, e ignorância, aah e a minha avó. E o que ele mais amava era minha irmã (palito), o pé de pitomba que ele plantou, e tocar piano. Nos desepedimos dele, (Olívia que o diga), quase não largou o velho, eles se amavam de verdade.
Olívia decidiu voltar com agente pra casa, eu peguei suas malas, e ela pegou o violão. Agente morava em Boa Viagem, mas ia se mudar pra Jaqueira, já tava quase tudo encaixotado. Quando agente abriu a porta do apartamento ,meu pai tava sentado no sofá com uma lata daqueles sucos industrializados( Olívia disse que achava que ele tomavam aquilo pra ter alguma lata pra segurar quando assistia televisão, já que não podia beber cerveja pelo fato de ser evangélico), eu suei frio, Olívia podia soltar uma gracinha qualquer que ia desencadear uma confusão tremenda. ela passou e disse:
-Meu Deus, tá tudo encaixotado já.
passando por nosso pai ela disse docemente, como era sua habilidade.
-Olá.
-Olá-respondeu meu pai com um tonzinho de ironia burra.
Olívia se virou pra mim colocou a cabelça no meu peito , e seu braço nas minhas costas, e disse que queria dormir no meu quarto.
Quando eu abri meus olhos na manhã do outro dia (era sabádo),ela tava com cotovelo apoiado no colchão apoiando a cabeça com o braço, me olhando.
-Bom dia flor do dia.- disse ela
O telefone começou a tocar.
Alô, mainha atendeu, ela disse:
Não, eu tô indo pra aí.Bateu o telefone e foi repetindo: Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus.
Eu perguntei assustado o que tinha acontecido, talvez no fundo eu já soubesse, Olívia veio correndo, meio sorrindo, meio séria. Quando minha mãe ficou de joelhos chorando, e segurando a nossa mão, Olívia desmaiou.



O COMEÇO DO FIM



Meu avô, Lamartine, morreu de manhã cedo em casa mesmo, sobre a colcha que tanto gostava morreu dormindo, oque foi um alivío pra minha avó, que não teve que ouvir nada.
Olívia ficou no hospital com a irmã do meu pai Rosa, de quem ela gostava bastante. Aconteceu tudo muito rápido, nunca vi minha mãe chorar tanto, e nunca vi Olívia tão calada. passou os dois primeiros dias sem falar n a d a. depois voltou a falar normalmente, mas não quis comparecer a nenhum dos eventos (enterro, funeral e tal). Mas o que é estranho é que Olívia não parecia estar triste, ela parecia tá perdida, sei lá. Achei estranho. Basicamente não chorou.
Voltamos pra casa, todo mundo, meu pai se mostrou até compreensivo para com a minha mãe. Olívia tava bem. No outro dia de manhã, colégio, agente era da mesma sala. Olívia fez questão de ir, disse que não estava mais tão triste.

Era a segunda aula, química, Olívia detestava profundamente, ela tava dormindo, eu olhei pra ela, normelmente eu a teria acordado, mas não naquele dia, era tudo muito recente. De repente eu ouço:

-João, Joãão- bem baixinho ela me chamava.

Olhei pra ela ela parecia ter sido atropelada, a mão segurando a cabeça, sangrava. Eu gritei, peguei na mão dela, e agente saiu da sala. A coordenação tomou as medidas e mandou ela pro hospital. Ficou internada dois dias, não fui pra aula nesse período. Ninguém tinha miníma idéia do que tinha acontecido, pela primeira vez na minha vida eu vi meu pai chorando( discretamente, é claro). Uma avalanche de exames, e a notícia: Olívia tinha um tumor no cérebro, mais ou menos do tamanho de uma manga.

Nunca vou me esquecer desse dia. Agente já tava em casa, ela perguntou:

- E ai, eu tenho oque?

Meu pai sentado com a velha lata de suco, olhou pra minha mãe, eu que tava até normal repentinamente, como num vômito comecei a chorar. Ela olhou pra mim, com aquele rosto dela, o cabelo grande e preto, meio no olho, e aquele olho dela me fitando, eu parei de chorar, a boca dela se contraiu um pouco, virou pra minha mãe e repetiu:

-o que, eu quero saber.

- Você tá com um tumor minha filha, ninguém suspeitava, é inespe...

- De que tamanho? perguntou interrompendo meu pai.

-Mais ou menos do tamanho de uma manga- eu disse

-Manga rosa ou espada?- perguntou ela abrindo o riso dela, que acendia os quarterões, seguido por uma lágrima.

Eu sorri, minha mãe e meu pai reprovaram a piadinha. Meu pai se levantou, em direção ao quarto, parou, voltou, apressou o passo, e abraçou Olívia, que desabou em lágrimas, acompanhada por ele. O braço dela apertava com força a camisa social azul do meu pai, a outra segurava o rosto, contorcido de tristeza dele. Olívia era o ideal de perfeição para aquele homem, nela ele se realizaria, quando ela nasceu, meu pai estava em platina, isto é, nem a megasena, o faria mais feliz, do que ter aquela menininha. Pra ele, aquele cabelo tão negro contrastando com a pele branquinha, as sardinhas no nariz, eram únicos. Mas minha irmã aprontou muito, brigou com o pastor e deixou de ir na igreja, ela era muito evoluída, é uma pena eu ter demorado tanto pra perceber isso, ela era nova, aquelas flores, as mais coloridas, cheirosas e bonitas, que tem, que só nascem no mais distante dos desertos. essa era ela, e eu não sabia direito.

Como eu já disse agente tava na Jaqueira, e foi lá que em meio as caixas da recém mudança, que eu vi a cena que mais guardo desse dia.

* * *

"Eu você nós dois, aqui nesse terraço à beira mar,

O sol já vai caindo e o seu olhar parece acompanhar a cor do mar,

você tem de ir embora, a tarde cai, em cores se desfaz,

escureceu,

o sol caiu no mar e aquela luz, lá embaixo se acendeu."

Eu cheguei na sala, tudo escuro, eu tinha acabado de acordar do cochilo que todos tiravam de tarde, todo dia. Ela tava contra a janela, só via o perfil dela, só a linha branca de luz,o contorno de Olívia, eu via os lábios dela um batendo no outro enquanto ela cantava. Ela tava tocando essa música que eu escrevi aqui, o nome é fotografia, ela adorava essa canção. fiquei olhando, do portal do corredor a minha irmã, com tempo de vida contado, tocando violão em meio às nossas coisas encaixotadas, nossas lembranças. Me escorreu dos olhos uma lágrima, só uma. Ela me viu.

Quando se virou eu vi, ela tinha cortado o cabelo, dei um passo, e descalço, senti os tufos no chão massagearem meus dedos, eu olhei e vi, as longas mechas negras no chão branco,o preto no branco, como tudo quando é de noite, ou é branco ou preto, ou cinzinha. ela se levantou, não via direito o rosto dela, era preto por causa da noite profunda na zona norte. Ela me abraçou:

-tu me ama?

demorando um pouco, respondi:

-como nunca.

-por que como nunca?

-por que eu nunca te percebi tanto. Eu te amo Olívia, e tu nunca vai sair da minha vida.

Ela olhou nos meus olhos. Eu só via o brilho da água nos olhos dela, só aqueles dois pontinhos brilhosos, no rosto negro da minha irmã.

Os olhos se fecharam e tudo virou noite.

DIÁRIO DE OLÍVIA,

04 de agosto de 2009

Eu me lembro quando meu irmão veio me ver , recém chegada da viagem, eu tinha passado a manhã colhendo pitomba, que meu velho tinha plantado, e amava, e cuidava. Como a mim. Esse dia me marcou bastante, eu tive que ser muito forte, como tive que ser em muitas situações. Esse dia foi pior do que o primeiro dia na França, em meio à uma multidão de estranhos. Meu velho me chamou pra conversar, ele me disse que ia morrer o dia seguinte, eu ri. Depois vendo que ele permanecera sério perguntei:

-que história é essa?

-Chegou minha hora palito, eu quero morrer essa noite.

Eu ri mais, e o abracei, ele também riu, eu não acreditei muito bem, mas ele passou a mão na colcha.

No outro dia aconteceu. Ele quis. Mas não foi o fim de Lamartine, um homem, um grande homem... Podemos enteder o homem, como uma voz, algumas vozes são baixas, desafinadas, ou até altas e bem entoadas, mas se mal usadas não formam bela canção, meu avó tinha uma voz forte, e mesmo quando essa voz foi calada (sabiamente), o eco permaneceu, até o sempre. E ecoa, e vai vai vai vai vai vai vá

Hoje, eu soube que vou morrer em pouco tempo, e pensei bastante no meu eco. O que eu vou deixar pra João? Será que ele aprendeu comigo? E Ayala, ela foi a terceira pessoa que eu mais amei, não acredito em medição de amor, mas é realmente imensuravél o que eu sinto por João e por meu velho. Já peguei o espelho, vou cortar meu cabelo, bem curto, como a tempo queria, é agora ou nunca, literalmente. Eu quero só ver a cara do meu pai. Quero tocar violão.

Se hoje fosse seu último dia de vida, oque você faria?

-viveria, existiria, vivo e existo, pois penso, fui apedrejada por ter assumido o risco de unir o "eu" de "eu penso" com o "eu" de " eu sou", No meu último de vida eu quero ser João, eu quero ser Lamartine, quero ser música e poesia, quero ser Olívia

Olívi

Olív

Olí

Ol

O

jOão

velhO

O

o

°

.

domingo, 16 de agosto de 2009

Diário de Adelaide.

Era domingo,e eu estava passando na frente de uma igreja, de carro, com meu pai, eu estava no banco de trás, tinha quinze anos, tenho; por que isso me aconteceu logo hoje de tarde, tudo numa só tarde, eu acho que foi grave, eu ousei.
Eu via (e vejo) toda vez que agente passsa na frente de uma igreja, a minha avó fechar os olhos e colocar a mão no coração durante alguns intantes. Ocorreu à mim a mesma idéia quando eu passava na frente da igreja em que meus pais se casaram, enfim, não sei se tem alguma ligação, mas Deus sabe mesmo o que faz, se é que foi ele, eu nem sei se acredito, mas acho muito bonito se ter fé; e tenho, na minha mãe que é solteira e totalmente independente.
Mas todavia, me deu vontade de fazer isso, avistei a igreja rosa, fechei os olhos e coloquei minha mão junto ao local do coração, eu senti uma coisa que eu nunca tinha sentido na minha vida de uma decáda e meia, eu com a mão no peito, senti vontade de me acariciar. Sei que parece proibido, que ninguém leia isso, e desculpe não sentir muita culpa embora sinta alguma. Com os olhos fechados soltei meu cabelo preso com uma piranha amarela de 50 centavos, e passei a mão nos meus peitos (não gosto de falar seio parece-me pedante), meus peitos são daqueles cobertos de sardas, modéstia parte: lindos, me desejei de alguma forma, nunca tinha me sentido assim, nunca tinha me preocupado com sexo, masturbação, filme pornô, ou coisas assim. Estava indo pra casa da minha vó, chegamos, meu pai que não perceberia o que eu tinha cometido, nem se eu o arracasse do volanta para lhe mostrar, se emburacou rapidamente no bar mais próximo, eu entrei, dei um beijo em cada bochecha velha da minha vó: me ocorreu quantos beijos aquelas bochechas já levaram, mas rapidamente me voltou o desejo, dos meus peitos (?)
É meio narcisita né?É , de qualquer forma, eu fui no (ao banheiro seria certo, mas eu tô aqui toda errada mesmo) banheiro, abaixei a blusa e fiquei olhando meus peitos, pensei em como seriam os da minha avó, e me senti muito bonita, afinal nem precisa de sutiã, coloquei uma das minhas mãos no peito esquerdo, não me lembro qual mão foi, caminhei até o espelho naquele banheiro branco e enorme, e vi uma menina alta com peitos bonitos, UM peito, por que o outro estava coberto, pensei em como seria bom que me fotografassem nua, me senti A estrela, na frente do espelho. Me deu vontade de tirar a roupa, minha mão desceu e tirou minha saia de estampa florida, a calcinha ficou. Aí seria demais; eu parei; me olhei de novo no espelho, eu vi aquela menina branca, de lábios carnudos, sarnas e cabelo liso (natural, diga-se de passagem), eu vi que aquilo era ridículo, me senti nojenta, coloquei bem rápido a blusa e depois a saia, e me culpei. Minha vó bateu na porta:
- Eii Adelaide, ainda há vida no banheiro?
Eu saí e me sentei à mesa assustada, meu pai chegou, não falou com minha vó e foi se servindo. A empregada, que me conhecia de longas conversas, perguntou:
- Por que tu tais tão pálida menina?
Meu pai respondeu:
- Essa menina sempre foi branca assim Carmem, puxou à família da mãe
- Nem todos viu? Minha irmã é quase preta, disse minha vó
E ficaram falando calmamente, nada que eu desse atenção, fiquei pensando no meu pecado, olhei pra bíblia, em cima do movél, repito não sou religiosa, e me obriguei a me sentir culpada, acho que eu tava assustada com meu sentimento em relação à mim mesma, nunca tinha me sentido assim, nunca tinha me tocado, eu já vi minha mãe e meu pai se tocarem profundamente e cinco meses depois minha mãe abortou naturalmente.
Enfim, beijei minha vó, na mão, fiz questão, cansei da bochecha dela, e peguei meu pai e fomos embora, trouxe comigo o que eu tinha aprendido ou não nessa tarde, acho que eu vi que eu não era só sentimento de desejo abstrato em relação à outro, vi que eu também significava algo pra mim: o meu corpo e mais. Ele também podia representar algo pra alguém, não é só amor que se sente, não sei se é errado, as vezes só se quer tocar e beijar, sentir gosto de outro, ou de si mesmo que às vezes é raro, e hoje eu tive uma prova disso.
Não é mais como nos livros cor de rosa, nem como nas músicas boas dos lp´s do meu pai, agora era a mesma coisa de sempre + outra coisa nova, não, não é específico, mas nunca vi pensamento direto levar à algo. Mentira leva sim, não tenho essa sorte, mas agora eu sei, que existe corpo, existe desejo, existe atração, existe a admiração, a vontade, mas acima de tudo: mesmo que para algo palpavél, existe amor.
E que ninguém leia isso!

Adelaide, 16/08/2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

E quando uma força irrefreavél encontra um objeto irremovivél?

Quando alguma coisa realmente inesperada, acontecer, um choque, pequenas catastrófes, você vai perceber, que há muito a se perceber, Nada do que lhe foi proposto é absoluto, absolutamente nada é completo, perceberás, um pequeno choque e tua vida toda muda.
A minha mudou, nada que afetasse minha rotina, talvez meus estudos, que desde o ano passado vem deixando muito a desejar, mas me mudou MUITO, por dentro, aquela minha parte secreta, que tem eco ilimitado:ela grita; e quando aconteceu: enlouqueci.
O total oposto de Heitor, lá atrás eu vi, e me intriguei, me entreguei, confesso, passaram-se meses, até a primeira troca de palavras. Mas quem precisa de palavras, quem precisa de fala, quem precisa de boca, quando se tem olhos, e logo dois. Me contentava em adimirar, em olhar (mentira), era tudo oque eu podia fazer mesmo. O que mais faria não ousaria tocar no que é proibido. Falar é fácil, com a boca, que não é tão nescessária quanto se pensava. Mas fazer, nem tanto. É difícil, e proibido.
Eu sei, como é amar sem conhecer, amar o que agente não conhece, simplesmente pelo fato de se sentir atraido, não sei se é desejo, tesão, vontade, impuro, errado; o relevante é que ERA, e é.
Quando eu olhava (e como olhava) eu me sentia, mais distante ainda, tu me liga ao mundo, és a minha amostra, o meu convite. Por que não largas as limitações, muta, muda, pra mim? Não.
Fica assim, que foi assim que te mirei, e nunca deves saber, imagina o escandâlo, como se me importasse. Eu que já me cobri de sargaço, pra te buscar no deserto, e quando mais te olho, mas sonho. E durmo melhor, mesmo só. é triste nutrir uma coisa que nunca se realizará. Mas eu não tenho outra opção, escrever é o que eu sei, e o que eu quero fazer agora.
O que eu sinto é irrefrevél, selvagem, primitivo, eu nem sei da onde vem, mas vem do fundo. Caramba, me sinto errado, sei lá, mas eu não tenho culpa. Como se isso mudasse as coisas. Não muda, parece que nada muda, eu pensei que tinha me libertado do que eu tinha por ti, mas não, nem tão cedo, tá difícil.
Enfim, o que eu quero dizer com esse "testemunho", é que o maior crime é a inibição, é a proibição do que não é errado, é a hipérbole, do que tá dentro da gente e agente não vomita!
Eu vomito, pelo menos aqui no blog, mas sei que tu não sabes, nem fazes idéia, nem eu sei de tu, mas sei que te amo, tu me sopra vida, me floresce, tu tens algo que só as crianças têm: a pureza, a inocência, e a ânsia tremenda pela vida.
O mundo não é tão bom assim, pra tu que és tão inocente,
O mundo não é tão ruim assim, pra tu que tens esperança,
O mundo não é;
Pra quem é inibido, e procura no outro sua maior diferença, ou semelhança, semelhança, evidente, mas a diferença? agente descobre e aceita depois né?
Tomara.
Amém

sábado, 1 de agosto de 2009

Avenida, Boa Viagem!

A casa era toda muito impessoal, menos o quarto da sua mãe, que aguardava a morte para se mudar, ah, e o quarto da empregada que esbanjava personalidade com suas calcinhas coloridas penduradas na escada de aluminio, eram as duas honestas da casa, minto, a mulher em questão também era franca, franca com a sua incapacidade de ser ela. Posso estar tremendamente enganado, ela pode ser isso mesmo, plástico, mas parece que o que ela mais quer é se projetar mais pra fora de si, o que ela pensa que ela é, busca fora, e longe, não em volta, mas lá lá lá fora mesmo. Enquanto sua verdadeira essência, sua verdadeira forma, se dissipava, num bafo frio por suas entranhas.

Era assim a casa, entrava-se sempre pela cozinha se não fosse visita extraordinária. A cozinha feita sob medida, num branco enjoativo, que junto com o azulejo também branco dava a sensação de fila de lojas americanas no Domingo ( você tá cercado mas ainda muito só). O que salvava eram os detalhes laranja, nos copos e nos potes, e a galinha de arame que guardava os ovos de outras galinhas, ( afinal todo mundo tem que ser feliz) repito que posso estar muito errado, mas de qualquer maneira isso nao se baseia em ninguém ( mentira). Mas é só inspirado. (juro)

A sala era de uma cor que não tem nome, talvez bege, ou creme, azul talvez, NÃO! Aquilo é cor de bom gosto, e o bom gosto para quem não sabe está sempre o mais longe possivél de você.

Sabe quando você vai numa loja de móveis e é tudo lindo e aconchegante, e você pensa isso nunca vai me pertencer, aí você compra o conjunto, e insatala, e tá lá igual a da loja na sua casa! Mas depois das horas de secura o que você sente é o bafo empoeirado do ar-condicionado da loja, e de fato nunca lhe pertenceu.

Acho que era assim ela nunca havia se pertencido. Pode ser erro meu, mas ela calculava bem oque ia fazer. Não, nunca foi pessoa ruim a adoravam, eu a adoro, principalmente assim na minha frente, romanceada; mas é ela, ou melhor nunca foi, acho eu.

Até o dia que ela esperava: a mãe foi-se, mas não por morte; não aquela nem tão cedo: casou-se, e conto mais: foi por amor. A gora era só ela e a empregada, era só o apartamento e a empregada, só a loja de móveis e a empregada. A empregada também se foi, presa: a vadia explorava a mãe.

Só o apartamento vazio, as portas nem se abriam, principalmente a da cozinha. Se alguma abrisse seria a da sala. E assim esperando se perdeu, mas ninguém percebeu, afinal ela continuava no emprego, marido, carro, APARTAMENTO, ai amiga, ela era um sonho! Era mesmo. Mas as coisas são sempre mais do que parecem, muito maiores, há reverberações nas cabeças dos cílios dos microorganismos (hã?), e esse sonho cansava. Eu sei por experiência próxima (porque própria é muito perigoso) que os sonhos custam muito, não falo de dinheiro que como eu já falei ela era casada.

Mas ela acordou. Foi no antigo quarto da mãe, onde guardava as toalhas, viu: uma rachadura no teto, aquelas que ainda por cima têem infiltrações marrons. Sua primeira idéia era chamar um pedreiro, ou algo assim, mas antes que ela pudesse chama-lo a rachadura cresceu tão rápido que ela ficou de cor de bom gosto, a cor que era dela mesmo, aquela de vitrine, sabe?

Apartamento condenado, muita água pouco cimento, mas ela ainda tinha o marido que a amava e ama, agora vive na casa da mãe, até receber a indenização (iiih se lascou), e foi na casa da mãe que ela se sentiu muito perdida, em meio à tantas fotos e recordações, foi na loucura, da poeira de anos, da porcelana, e do jerimum de sua mãe que ela se encontrou, numa foto, na estante da sala branca mesmo, mas cheia de quadros, e nas almofadas estampadas com cisnes, as bregas mesmo, ela se viu. Pega agora teu pé e fica olhando pra ele, já o tinha notado? ele tem cabelo? É estranho, o meu pareceu-me impessoal, quando o vi de fora, e era esse o problema dela, com a foto na mão se viu por dentro, não sei, nem entendi. Mas agora ela viu, que havia mais pegadas na areia do que só as dela.

E a galinha de arame começou a não precisar mais da bandeja de ovos comprada no bompreço.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Contatos imediatos.

Tudo o que me toca, tudo que de alguma maneira existe pra mim, o que pode não existir pra você e vice versa. Tudo ( e aquilo que existe muito bem, e agente não sabe, e talvez nunca saiba) isso me toca com a ponta, com aquela amostra, o convite, o resto fica disponivel pra eu ir atrás. E como já disseram sobre a perfeição o que existe só cabe ali dentro, o conteúdo de uma cabeça de alfinete, a nuvem. Não pretendo a perfeição, não pretendo muita coisa, pretendo conseguir o que quero. Tá eu pretendo muito, eu faço pouco, mas o que eu faço cabe perfeitamente em cada momento que eu realizo determinada coisa. Mas nada é completo, nem absoluto, só a perfeição, que alguns chamam de Deus.
Não acredito numa perfeição onde nós nos tornamos minusculos diante o tamanho da maravilha perfeita. Acredito que o que existe da sua maneira própria, é feito pra gente notar. Por que no fundo o que todo mundo quer é ser notado, é ter amor. Eu vi num filme que as árvores só faltam andar pra chamar nossa atenção, elas florescem, suas folhas mudam de cor. E podemos rezar, e agradecer do jeito que for.
Uns vão decorar os textos de validade inquestionavél (para alguns), o pai nosso, salve rainha e tal, outros não vão atrasar suas refeições para agradecer nada a ninguém. Eu por exemplo. Não sei se eu to certo ou errado, mas eu garanto que eu amo muito mais que muita gente por aí, por que o amor acontece mesmo quando é num só, incompleto mas é. Presto atenção, noto, anoto, desenho fotografo, sinto, gozo, rio, rio cheio, transbordo.
Conheço uma parte de mim que poucos descobrem em si, a parte que justamente mais pertence a si próprio. Que independem de educação, ou empurrão da massa.
O eu selvagem e gritante, que é calado.
Como se castra , e como se cortas as asas dos papagaios. Mas os papagaios continuam a falar, ou a reprodizir o que lhes foi ensinado, enfim, eles continuam gritando.
A coisa mais bonita que se pode ter são asas.
Que não cortem as minhas, e se cortarem tenho minha garganta e umas ídeias.
Amém pra todos nós.

quarta-feira, 22 de julho de 2009




"É antes das férias, o ápice, o ponto máximo, sem sabermos, planejamos, desejamos as férias intensamente, e quando elas chegam?
Agora, e vê, eu não estou molhado de chuva, nem melado de geléia e lama, estou limpo e engomado. Tédio, e eu que planejava escrever todo o dia, todo dia.
por isso não planejo mas nada. faço, me forço e faço. Se não, vou ter que me sujar pra provar alguma coisa à mim. Mas eu gosto de me sujar de não sei oque. Mas tenho que me lavar depois, não consigo passar muito tempo sujo, nem acompanhado, tenho que mudar, limpo/sujo/só/cheio. Depende do dia. Hoje é férias. "

Heitor Assunção

Pra falar o que eu sei, e o que eu não sei.