sábado, 1 de agosto de 2009

Avenida, Boa Viagem!

A casa era toda muito impessoal, menos o quarto da sua mãe, que aguardava a morte para se mudar, ah, e o quarto da empregada que esbanjava personalidade com suas calcinhas coloridas penduradas na escada de aluminio, eram as duas honestas da casa, minto, a mulher em questão também era franca, franca com a sua incapacidade de ser ela. Posso estar tremendamente enganado, ela pode ser isso mesmo, plástico, mas parece que o que ela mais quer é se projetar mais pra fora de si, o que ela pensa que ela é, busca fora, e longe, não em volta, mas lá lá lá fora mesmo. Enquanto sua verdadeira essência, sua verdadeira forma, se dissipava, num bafo frio por suas entranhas.

Era assim a casa, entrava-se sempre pela cozinha se não fosse visita extraordinária. A cozinha feita sob medida, num branco enjoativo, que junto com o azulejo também branco dava a sensação de fila de lojas americanas no Domingo ( você tá cercado mas ainda muito só). O que salvava eram os detalhes laranja, nos copos e nos potes, e a galinha de arame que guardava os ovos de outras galinhas, ( afinal todo mundo tem que ser feliz) repito que posso estar muito errado, mas de qualquer maneira isso nao se baseia em ninguém ( mentira). Mas é só inspirado. (juro)

A sala era de uma cor que não tem nome, talvez bege, ou creme, azul talvez, NÃO! Aquilo é cor de bom gosto, e o bom gosto para quem não sabe está sempre o mais longe possivél de você.

Sabe quando você vai numa loja de móveis e é tudo lindo e aconchegante, e você pensa isso nunca vai me pertencer, aí você compra o conjunto, e insatala, e tá lá igual a da loja na sua casa! Mas depois das horas de secura o que você sente é o bafo empoeirado do ar-condicionado da loja, e de fato nunca lhe pertenceu.

Acho que era assim ela nunca havia se pertencido. Pode ser erro meu, mas ela calculava bem oque ia fazer. Não, nunca foi pessoa ruim a adoravam, eu a adoro, principalmente assim na minha frente, romanceada; mas é ela, ou melhor nunca foi, acho eu.

Até o dia que ela esperava: a mãe foi-se, mas não por morte; não aquela nem tão cedo: casou-se, e conto mais: foi por amor. A gora era só ela e a empregada, era só o apartamento e a empregada, só a loja de móveis e a empregada. A empregada também se foi, presa: a vadia explorava a mãe.

Só o apartamento vazio, as portas nem se abriam, principalmente a da cozinha. Se alguma abrisse seria a da sala. E assim esperando se perdeu, mas ninguém percebeu, afinal ela continuava no emprego, marido, carro, APARTAMENTO, ai amiga, ela era um sonho! Era mesmo. Mas as coisas são sempre mais do que parecem, muito maiores, há reverberações nas cabeças dos cílios dos microorganismos (hã?), e esse sonho cansava. Eu sei por experiência próxima (porque própria é muito perigoso) que os sonhos custam muito, não falo de dinheiro que como eu já falei ela era casada.

Mas ela acordou. Foi no antigo quarto da mãe, onde guardava as toalhas, viu: uma rachadura no teto, aquelas que ainda por cima têem infiltrações marrons. Sua primeira idéia era chamar um pedreiro, ou algo assim, mas antes que ela pudesse chama-lo a rachadura cresceu tão rápido que ela ficou de cor de bom gosto, a cor que era dela mesmo, aquela de vitrine, sabe?

Apartamento condenado, muita água pouco cimento, mas ela ainda tinha o marido que a amava e ama, agora vive na casa da mãe, até receber a indenização (iiih se lascou), e foi na casa da mãe que ela se sentiu muito perdida, em meio à tantas fotos e recordações, foi na loucura, da poeira de anos, da porcelana, e do jerimum de sua mãe que ela se encontrou, numa foto, na estante da sala branca mesmo, mas cheia de quadros, e nas almofadas estampadas com cisnes, as bregas mesmo, ela se viu. Pega agora teu pé e fica olhando pra ele, já o tinha notado? ele tem cabelo? É estranho, o meu pareceu-me impessoal, quando o vi de fora, e era esse o problema dela, com a foto na mão se viu por dentro, não sei, nem entendi. Mas agora ela viu, que havia mais pegadas na areia do que só as dela.

E a galinha de arame começou a não precisar mais da bandeja de ovos comprada no bompreço.

Um comentário:

  1. você é a única pessoa que consegue me fascinar com coisas que não consigo compreender

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