sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Inverno Recife 1

Explosões, minúsculas explosões, os pingos atirados do céu, arrebentavam as poças formadas. Era tão frio, minha boca ressecava mais.A saída pro intervalo da sala gelada com o ar-condicionado, nem causou choque de temperatura, o dia gelava.
Nos reunimos no pátio pra lanchar, em meio as poças d'água, formamos um círculo de cadeiras. A viagem à Bahia foi massa pelos relatos, muita cachaça e muita sacanagem. Além do saudosismo prévio, daquela época que não volta mais que é o colégio.último ano, a peróla das preocupações. O debate dos candidatos à presidência na noite anterior tinha sido ofuscado pelo jogo de futebol que passou no outro canal, num claro movimento de boicote, claro que a maioria dos meninos do colégio nem sabiam da existência do debate.Não sei porque esse negócio de futebol, que merda é essa? O que está em jogo de verdade? A viagem aos estados unidos também tinha sido ótima, com direito à Broadway e madame Toussaud. As férias foram rápidas e agradavéis, deu um tempinho pra descansar.
Foi quando surgiu por entre as profundezas das frestas alagadas do concreto do chão a minhoca rosa. Parecia que sangrava um pouco, mas era o clitelo dela. O nojo foi unanime. Imploraram para que eu pisasse nela, não pisei. A menina pisou. A massa rosa, agora suja, e moribunda ainda se contorcia, era quase possivél ouvi-la gemer, seu clitelo tinha sido completamente esmagado, não seria mãe novamente, ou pai, tanto faz para as minhocas, elas já superaram o sexismo. Era muito nojento. Pisou denovo para que virasse suco. Depois as risadas continuaram, as inscrições, as festas, as fornicações, as gestações alheias, as viagens ao estrangeiro, o sucesso e o ridículo, perto de nós um grupo de oração se reuniu. Olhava com certa vergonha alheia pra gente. Eu não me importei. A exterminadora de anelídios logo se incomodou com os olhares e questionou o porque das reuniões, ams era cagona e falou baixinho. Fiquei com vontade de ir lá e dizer que ela perguntou, aproveitar e perguntar se estamos todos condenados. Mas não fui. O suco da minhoca rosa, fedia. Só eu sentia. E sabia que estava empregnado no sapato da menina, e ia sentir o resto do dia na sala de aula.
A conversa prosseguiu, os fatos, os atos, os gatos, as músicas, as lojas, os casacos, os artistas, a favela, ops, a favela não o cinema.Tocou o horário de subirmos:
-é um nojo essa porra aí esmagada.
Me levantando vi meu reflexo na poça suja em que a minhoca tinha dado o último suspiro:
-é mesmo, muito nojento.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A criação.

Mais aniversários?
O aniversário.
Fluxos e pulsaçoes.

Do pó da terra formou Deus-Jeovah o homem e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida. E o homem tornou-se um ser vivente.*
Gênesis 2.7

A alegria absurda por excelência é a criação.*
Nietzsche

Foi o dia em que a luz pariu em ópera a luz do planeta, aquela que completa anos.
Nada de endeusar ninguém. Sem exageiros, é muito fácil e perigoso se envolver.Daremos os fatos.

Nuvens de cores que ainda não foram descobertas pelos olhos, a fumaça mais pesada, úmida, as cores , era tudo tão vivo que por um instante, ante de acordar pensei que tinha finalmente nascido.Acordei.
Sempre quando acordo bebo café sem açúcar enquanto escrevo, à máquina de escrever vermelha. Antes de cruzar o corredor eis que entre um pano listrado de azul e branco a criatura com quem sonhei.Já tinha acendido o cigarro.

É importante que se mantenha a devida distância. é fácil se envolver, só os fatos interessam (?)

Como me atraiu o contraste do pano, entre o cobalto e o titânio,me atraiu o da pele branca e o cabelo negro. o da boca rosa. os cílios longos e as sobrancelhas que não mostravam seus segredos de ator não sabido.

É preciso que a distância seja respeitada, nada de endeusamentos .

Caralho. O cigarro entre os dedos,o cotovelo, apoiado na mão do outro braço, formava no espelho o que me levou ao fumo: a estética e a fome. Eu preciso da fumaça. ela é impossivel e dança.
Eu devo acorda-lo? deitado no sofá dormindo? na minha casa? a que custo o trouxe pra dentro do meu lar. Já que fui banido do jardim pra fora. Puta que pariu, foi hoje que pariram você, a alguns anos, né?

Ele nem sequer abre os olhos. Eu grito. ele não desperta. Nem faz tanta diferença assim. nunca me olharia.eu acho né, não vivo na cabeça de ninguém.

É preciso organizar os pensamentos de forma que façam sentido (?)

Eu preciso organizar os meu pensamentos. Penso mais enquanto sonho, acordo e corro pra máquina pra concatenar o que produzi por subconsciente.

Eu nem queria nada, nem compromisso direito, só se ele quisesse. Eu não vou ser a mala de ninguém, nunca me deram meu estofo. O cuspiram fora, e ele se desenvolveu com a prana da atmosfera mística. é verdade, por que quando os olhos encontram um cheiro, algo é curioso. E foi da primeira vez que eu o vi. Ele é resultado de uma separação. não ele, mas a presença dele na minha existência.
Drama.

COMO SE ATREVE A NÃO ACORDAR.PUTA MERDA, foi aí que eu me toquei. ele estava acordado, eu que dormia. precisava acordar. colocar aquilo em palavras. Mas eu já estava sentado à máquina escrendo isso. eu não sei muuito bem, mas é como a lata de fermento, uma dentro da outra, muito além das bonecas russas.AS bonecas russas se repetem. Mas eu nunca vi um bola engolir uma pedra.
Agora eu não sei mais o que fazer, quero que ele fique no mesmo estado que eu estou. Hoje estou marcado de desencontros. Tenho que lhe dar os parabéns. Foi concebido. a luz.não pesa nada.
faltam dois minutos para a virada do dia e não consigo descobrir, oque está acontecendo ao teclado que atrai meus dedos em formação aleátoria de palavras dramáticas.

Parabéns , feliz aniversário, você sobreviveu mais um ano , e eu mais um ano sem você, sem sua boca, sem comer a sua presença.
00:00
Hoje é o seu dia, hoje é dia santo, é dia lindo!

E você vai me ver. aperto o cigarro aceso contra seu rosto, o cigarro apaga, e tudo vira noite.


Falhou a tentativa de se distanciar. A fundição foi concretizada. Bum!
Hoje não, um dia quem sabe. Hoje é teu dia.


*Um Sopro de Vida-Clarice Lispector.

Mão do povo

Ai coisa brega, diria eu, e mais uma madame e um machão. é brega o que todo mundo tem e sente. Chita, aquele pano com flores coloridas estampadas-que eu acho lindo- é brega, acho que é por isso, o que é do povo, é popular, é tido como cafona.embora não frequente os lugares ditos do povo, os mercados, as paradas, a praia no domingo, a cidade, o estádio, embora não assista a novela sou do povo. é por que até isso foi rotulado, o que é do povo.Quem nasce é do povo.Querendo ou não, e eu quero. Eu nasci, isso é meu direito.