Pra meu tio Edivaldo,
Era só ela e o marido Grimarão. Ele sempre trabalhou e a sustentou. Sempre, ela nunca trabalhou em nada fixo, de vez em quando fazia uma costura, um remendo. Houve um ano em que ela costurou um vestido de noiva, foram tantas as lembranças, mas já faziam mais de quarenta anos.
Ela era mais nova que ele sete anos, esses sete anos a mais eram facilmente percebidos na cara dele, ele tinha até uma casca grossa e seca na testa. Os dois usavam óculos, quase todo senhor usa. Talvez os anos a mais se fizessem notar pelos anos de serviço, enquanto a mulher ficava em casa com os meninos. Mas seria mentira, a mulher era bem mais conservada do que ele, mas não por isso. Ela ralava muito em casa, talvez até mais do que ele. Esfregar aquela cerâmica toda, amarela e preta que era, chegava a dar nauséas. Cuidar de três filhos. Ainda esquentar o café pra Grimarão quando o velho, que ainda era novo, chegava.
Hoje estão sós ele e ela. De vez em quando visitam a irmã dele, Nilda, que tem grande apreço por ela. Mas os filhos aparecem rarríssimamente.
*
Era de manhã cedo, cinco e meia, seis horas quando ela pediu pra Isabel ralar o coco.
- Grimarão daqui a pouco acorda, ele vai querer a tapioca dele. A minha você sabe, é de queijo coalho com mortadela né?
-Sei sim, e vou passar o café. Aliás tamo precisando de mais filtro viu? Que os que tem ai tá acabando.
-Ishh, vou comprar, amanhã eu vou fazer feira. Hoje eu não quero fazer é nada.Acordei pra lá de Bagdá, sabe?
-Uhm sei que isso não senhora (A mulher forte que Isabel era, fechou os olhos pretos e abaixou a cabeça, sentada de pernas abertas por cima do ralador, colocando força enquanto a carne branca do coco perfumava a cozinha ainda meio escura).
-Sabe não? Oxente. Tô sem saco.
Passou um tempinho e deu seis e meia. A morena Isabel já foi perguntando se ia querer agora a tapioca.
-Não, não, eu vou esperar pra comer com Grimarão que ele não gosta de comer sozinho. Hoje até que ele tá demorando pra acordar né?
-E então.
E a manhã foi passando. E nada de Grimarão acordar.
-Ei ,a senhora não acha melhor agente acordar ele não?
-Opa, já tava cochilando aqui Isabel, bora, bora.
Ela foi em direção ao quarto que tava com a porta fechada, Isabel foi atrás dela.Quando chegou na frente da porta ela estava meio nervosa, sabia que o homem já era velho.
Quando abriu a porta fechou rapidamente quase no mesmo segundo, que não deu tempo nem de Isabel entender o que se passava no quarto. Ela deu uma gargalhada tão aguda que Isabel jurou ouvir uma taça na cozinha estalar.
-ish que foi??( Perguntou assustada)
-Nada não menina, agora deixa eu entrar, que eu tenho que falar um negócio que esse meninão.
E não parava de rir. Isabel ficou confusa.
*
- Isabel, pode ir ralando o coco de Grimarão tá? Daqui a pouco o velho acorda.
- Tá certo.
- E hoje eu não vou querer tapioca não, cou comer carambola mesmo, Nilda me deu umas anteontem.
-E eu num vi. Até filei uma.
- Pode pegar menina. Grimarão gosta de fruta também, mas de manhã não abre mão da tapioca dele.
*
Isabel derrubou o ralador na bacia que por sua vez capotou e derrubou no chão todo o coco já ralado, o chão preto e amarelo ficou incrementado com branco. A morena olhou aquela composição achou bonito e cheiroso, mas em alguns instantes ela se obrigou a perceber que aquilo era ridículo, e que deiva estar preocupada por ter derrubado o recheio da tapioca do seu patrão no chão. Mas não estava. Virou em direção a porta da cozinha e entrou na sala, parou na frente da patroa, e disse:
-Vamo acordar o véio?
-Menina ainda é cedo (olhando pro relógio de cuco, enorme que ela tinha na sala.)
-Vamo.
*
*
Já não tinha mais coco nenhum quando Isabel voltou pra trabalhar. Tudo já estava feito. Ela ia se mudar, e a morena iria com a patroa. Não podiam ficar sozinhas naquele palacete. Não sem Grimarão.
- Como é que ele tá mãe?
- Como um vegetal meu filho. Não respira só, nem nada, nem fala muito menos. Vocês não vão mesmo poder vir aqui hoje?
-Amanhã, eu vou por aí. Mas tem certeza que a senhora quer se mudar? O quadro dele pode se reverter.
- Não, aqui eu não fico mais, tô lhe esperando amanhã. Roberta tá no Hospital com ele, mais tarde eu tô indo pra lá. Beijo.
As únicas coisas que ainda estavam de pé eram o telefone, que tava ligado e o relógio, que continuava lá.
Isabel, Carlos e ela tavam lá dentro fechand as últimas caixas.
Carlos puxou ela meio de lado e perguntou baixinho:
-Por que é que a senhora não espera mais um pouco pra se mudar, agente consegue oferta melhor mãe. A senhora tá fazendo as coisas muito na carreira, vai se arrepender...
O telefone berrou no meio do eco.
-Mãe??
-Oi minha filha, que que houve?
*
-Olha Isabel aquele dia que agente abriu a porta e eu comecei a rir, lembra?
-Lembro bem.
Ela não parou de rir.
-Se controle, e me conte o que foi que a senhora viu.
A mulher vermelha se recompôs.
-Quando abri a porta eu vi Grimarão sentado an cama totalmente nu, com as pernas juntas e aqueles dois ovinhos e a bimba morta! Eu não consegui parar de rir!!
A morena abriu um sorriso branco. Aceso.
-E agora a senhora vai fazer oque dá vida sem ele?
-Sem ele? Nunca vou ser sem ele. Vou me mudar, só isso. Mas vamos continuar em Casa Amarela.
*
A mulher viúva, com três filhos, 68 anos de idade, com uma amiga Isabel, se mudou, mas não mudou.
Algum tempo depois Isabel beba de sono ainda continuava ralando o coco de manhã cedo. Mas não se estragava, ela dava pro porteiro comer com bolacha e café.
-Isabel, entenda, as pessoas apenas deixam de atender o telefone. Mas nunca deixam de falar, nunca.
-É, já me disseram que tem gente que nunca morre né?
é.

Talvez seja pra meu tio e minha tia Nilza, que cuidou dele nesses últimos tempos. E que agora vai descansar um pouco. E meu tio já está descansando.
Pra Edivaldo que ajudou tanta gente,
Que chateou tanta gente,
Que só matou de rir,
Que xingava carinhosamente minha avó,
E que nunca vai morrer.