segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

negócios


Não me venha com meias pealavras. Não me venha dizer que sexo é o pecado, o amor a graça, e a ganância o câncer.Eu sei que o senhor quer que eu me case na igreja, sei que o senhor quer que eu me case. Casamento, meu pai, é um negócio, o negócio do sexo e um tratado de estabilidade, como fazer sexo e não se casar, não é? Eu sei meu pai que quero me casar.Porque como me alimentar? se não de sexo e do dinheiro fluxo do meu homem. Meu marido, e eu, sua mulher e ele meu marido.
Por que homem, meu pai, não pertence a ninguém.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Elke 2


Quando eu consegui me livrar da nuvem de fumaça que Elke tinha jogado na minha cara respirei fundo e perguntei por que ela fumava.
-Porque eu realmente não tenho o que segurar todo tempo, se tivesse uma jandaia, quem sabe poderia sair com ela na mão passeando pela rua, mas tenho o cigarro.Se eu fosse cubana teria um charuto bem grosso, daquele sem filtro, claro, que a cada tragada tira cinco anos de vida.
-puta merda tu não vale muita coisa né?
Quando a nuvem se dispersou novamente e pude ver seu rosto, pintado, as bochechas brancas, não usava blush-coisa de boneca de porcelana, relíquias da guerra-os olhos pintados de preto, os cílios longos que balançavam nas lentas piscadas, a boca vermelha. O cabelo, o cabelo, a juba doirada de Elke. De certa maneira pressenti a resposta.
-Não. Eu não valho porra nenhuma. Quanto foi essa conta? Nada de dez por cento que esse garçon não fez merda nenhuma.
-Deu 34, deixa que eu pago.
-Que tu paga merda nenhuma. Toma
-Elke deixa que eu pago.
- Eu tenho cara de donzelinha é porra? Tu acha que eu penteio meu cabelo 7 vezes por dia, tu acha que eu uso sutiã quando vou na porra da padaria? Que viadagem escrota, toma essa merda dessse dinheiro.
Depois de me dar um baile Elke riu, com a boca aberta, daquele jeito bem se fodam, ninguém aqui paga minha conta. Rusada que as meninas odiavam
Discartei qualquer possibilidade de ficar com Elke. Eu realmente não a conhecia, e ainda não a conheço.

gracias

É preciso acordar cedo amanhã!
e oficializar o beijo que nunca dei

Lamber o beiço de pitanga vermelha do meu velho problema, e ver que nele ainda há suco pra mim.
-chupar o pescoço alvo de um corpo que pede calma e urgência na mesma fisgada, equilíbrio impossível na teoria.

Mas na prática Deus é o caos e a beleza que causa o caos e graças a Deus!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Sal

Tenho tido muito saudade da praia esses dias.Nesses dias de calor escaldante, no concreto armado sobre a chapa quente da cidade, a sombra dos toldos não me esfria o corpo, os alicerces que me distanciam do chão fervente me aproximam do sol despudorado.
A chuva na praia era coisa de se sorrir, a chuva não era triste, lá não havia dificuldade reconhecida, tudo era assim e assim devia ser, sem reclamar, simplesmente não havia com o que se preocupar, só com meu avô, se ele ia voltar do mar. E com meu irmão e seus traumas brancos, desconhecidos. Minha vó ficava de olho nele, até precisarem ficar de olho nela e o mar encantá-la.Minha mãe me penteava os cachos molhados no batente do portão e catava piolho do meu irmão. O banho de mar era diáro, a água fria, o sal, purificava o que era tão puro.
Talvez, isso seja só outra maneira de dizer que os problemas existiam em qualquer lugar e as coisas boas também, mas na praia eu era criança, e hoje já não sou.
E quando passo pelo mercado público da cidade e meus pés descobrem no chão rabos de peixe, a água salgada invade meus olhos.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Saudosismo de Mercedes

Era desse jeito, nunca foi diferente. Eram outros nomes, e cores novas, a repetição é a atualidade. Mas nada mudou, que m sabe todo o meio século que vivi também não foi repetição?
-E tu ainda acredita na educação?
-Eu tenho um pouco de medo de falar disso.
-Por qual razão?
-Por que eu estou exausta, todos os anos é a mesma porcaria. fevereiro, Porto Seguro e formatura.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Inverno Recife 1

Explosões, minúsculas explosões, os pingos atirados do céu, arrebentavam as poças formadas. Era tão frio, minha boca ressecava mais.A saída pro intervalo da sala gelada com o ar-condicionado, nem causou choque de temperatura, o dia gelava.
Nos reunimos no pátio pra lanchar, em meio as poças d'água, formamos um círculo de cadeiras. A viagem à Bahia foi massa pelos relatos, muita cachaça e muita sacanagem. Além do saudosismo prévio, daquela época que não volta mais que é o colégio.último ano, a peróla das preocupações. O debate dos candidatos à presidência na noite anterior tinha sido ofuscado pelo jogo de futebol que passou no outro canal, num claro movimento de boicote, claro que a maioria dos meninos do colégio nem sabiam da existência do debate.Não sei porque esse negócio de futebol, que merda é essa? O que está em jogo de verdade? A viagem aos estados unidos também tinha sido ótima, com direito à Broadway e madame Toussaud. As férias foram rápidas e agradavéis, deu um tempinho pra descansar.
Foi quando surgiu por entre as profundezas das frestas alagadas do concreto do chão a minhoca rosa. Parecia que sangrava um pouco, mas era o clitelo dela. O nojo foi unanime. Imploraram para que eu pisasse nela, não pisei. A menina pisou. A massa rosa, agora suja, e moribunda ainda se contorcia, era quase possivél ouvi-la gemer, seu clitelo tinha sido completamente esmagado, não seria mãe novamente, ou pai, tanto faz para as minhocas, elas já superaram o sexismo. Era muito nojento. Pisou denovo para que virasse suco. Depois as risadas continuaram, as inscrições, as festas, as fornicações, as gestações alheias, as viagens ao estrangeiro, o sucesso e o ridículo, perto de nós um grupo de oração se reuniu. Olhava com certa vergonha alheia pra gente. Eu não me importei. A exterminadora de anelídios logo se incomodou com os olhares e questionou o porque das reuniões, ams era cagona e falou baixinho. Fiquei com vontade de ir lá e dizer que ela perguntou, aproveitar e perguntar se estamos todos condenados. Mas não fui. O suco da minhoca rosa, fedia. Só eu sentia. E sabia que estava empregnado no sapato da menina, e ia sentir o resto do dia na sala de aula.
A conversa prosseguiu, os fatos, os atos, os gatos, as músicas, as lojas, os casacos, os artistas, a favela, ops, a favela não o cinema.Tocou o horário de subirmos:
-é um nojo essa porra aí esmagada.
Me levantando vi meu reflexo na poça suja em que a minhoca tinha dado o último suspiro:
-é mesmo, muito nojento.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

A criação.

Mais aniversários?
O aniversário.
Fluxos e pulsaçoes.

Do pó da terra formou Deus-Jeovah o homem e soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida. E o homem tornou-se um ser vivente.*
Gênesis 2.7

A alegria absurda por excelência é a criação.*
Nietzsche

Foi o dia em que a luz pariu em ópera a luz do planeta, aquela que completa anos.
Nada de endeusar ninguém. Sem exageiros, é muito fácil e perigoso se envolver.Daremos os fatos.

Nuvens de cores que ainda não foram descobertas pelos olhos, a fumaça mais pesada, úmida, as cores , era tudo tão vivo que por um instante, ante de acordar pensei que tinha finalmente nascido.Acordei.
Sempre quando acordo bebo café sem açúcar enquanto escrevo, à máquina de escrever vermelha. Antes de cruzar o corredor eis que entre um pano listrado de azul e branco a criatura com quem sonhei.Já tinha acendido o cigarro.

É importante que se mantenha a devida distância. é fácil se envolver, só os fatos interessam (?)

Como me atraiu o contraste do pano, entre o cobalto e o titânio,me atraiu o da pele branca e o cabelo negro. o da boca rosa. os cílios longos e as sobrancelhas que não mostravam seus segredos de ator não sabido.

É preciso que a distância seja respeitada, nada de endeusamentos .

Caralho. O cigarro entre os dedos,o cotovelo, apoiado na mão do outro braço, formava no espelho o que me levou ao fumo: a estética e a fome. Eu preciso da fumaça. ela é impossivel e dança.
Eu devo acorda-lo? deitado no sofá dormindo? na minha casa? a que custo o trouxe pra dentro do meu lar. Já que fui banido do jardim pra fora. Puta que pariu, foi hoje que pariram você, a alguns anos, né?

Ele nem sequer abre os olhos. Eu grito. ele não desperta. Nem faz tanta diferença assim. nunca me olharia.eu acho né, não vivo na cabeça de ninguém.

É preciso organizar os pensamentos de forma que façam sentido (?)

Eu preciso organizar os meu pensamentos. Penso mais enquanto sonho, acordo e corro pra máquina pra concatenar o que produzi por subconsciente.

Eu nem queria nada, nem compromisso direito, só se ele quisesse. Eu não vou ser a mala de ninguém, nunca me deram meu estofo. O cuspiram fora, e ele se desenvolveu com a prana da atmosfera mística. é verdade, por que quando os olhos encontram um cheiro, algo é curioso. E foi da primeira vez que eu o vi. Ele é resultado de uma separação. não ele, mas a presença dele na minha existência.
Drama.

COMO SE ATREVE A NÃO ACORDAR.PUTA MERDA, foi aí que eu me toquei. ele estava acordado, eu que dormia. precisava acordar. colocar aquilo em palavras. Mas eu já estava sentado à máquina escrendo isso. eu não sei muuito bem, mas é como a lata de fermento, uma dentro da outra, muito além das bonecas russas.AS bonecas russas se repetem. Mas eu nunca vi um bola engolir uma pedra.
Agora eu não sei mais o que fazer, quero que ele fique no mesmo estado que eu estou. Hoje estou marcado de desencontros. Tenho que lhe dar os parabéns. Foi concebido. a luz.não pesa nada.
faltam dois minutos para a virada do dia e não consigo descobrir, oque está acontecendo ao teclado que atrai meus dedos em formação aleátoria de palavras dramáticas.

Parabéns , feliz aniversário, você sobreviveu mais um ano , e eu mais um ano sem você, sem sua boca, sem comer a sua presença.
00:00
Hoje é o seu dia, hoje é dia santo, é dia lindo!

E você vai me ver. aperto o cigarro aceso contra seu rosto, o cigarro apaga, e tudo vira noite.


Falhou a tentativa de se distanciar. A fundição foi concretizada. Bum!
Hoje não, um dia quem sabe. Hoje é teu dia.


*Um Sopro de Vida-Clarice Lispector.

Mão do povo

Ai coisa brega, diria eu, e mais uma madame e um machão. é brega o que todo mundo tem e sente. Chita, aquele pano com flores coloridas estampadas-que eu acho lindo- é brega, acho que é por isso, o que é do povo, é popular, é tido como cafona.embora não frequente os lugares ditos do povo, os mercados, as paradas, a praia no domingo, a cidade, o estádio, embora não assista a novela sou do povo. é por que até isso foi rotulado, o que é do povo.Quem nasce é do povo.Querendo ou não, e eu quero. Eu nasci, isso é meu direito.

sábado, 26 de junho de 2010

O aniversário

E foi justamente hoje, dia do meu aniversário, que aconteceu o dia mais erótico da minha vida. Foi realmente o dia que eu nasci.
Fazia ponto na esquina do Santa Cruz, no Arruda quando passou um carro verde, verde mermo, tipo perereca. desceu aqueles meninos, uns pirraias, aqules que tem que fazer de favor, né? Mas, Misericórdia, eu não esperava por isso!
Vieram uns quatro meninos, o mais novo veio falar comigo. acertamos. fomos.
Ele tava meio nervoso. Eu disse que era meu aniversário. Ele disse parabéns, tudo de bom, e me deu um abraço, mas não sou besta, e senti ele cheirando meu cabelo solto e ainda meio molhado. ele não levou só meu cheiro. Disse a ele que a responsabilidade dele era grande, tinha que me dar o meu presente. Ri porque sabia que ele tava nervoso, e o meu presente seria o cabaço dele, que no meu caso não foi presente pra ninguém, por que começou a sangrar e o cara se assustou e não foi nada romântico. Mas é um menino agora.
Perguntei se era a primeira vez dele, respondeu que não, claro. Era sim.Tava nervoso, muito nervoso. Me abaixei e abri a braguilha da calça amarela que ele usava. Colocou a mão na minha cabeça, e começou a fazer anéis com meus cabelos. Foi aí que parei de representar.
Tinha que continuar meu trabalho. Ele tirou a blusa, com os braços cruzados, não tinha pêlo nenhum, só no suvaco. ele veio com aquele passo de desfiladeiro, e eu esperando feito donzela em torre. Lambeu meu pescoço, coloquei minha mão no pescoço dele, branco e com sinais, o cabelo dele era liso, uma seda, preto feito café, cheirava a uns dezesseis anos.
Mas Misericórdia, aquilo não era só uma língua, era uma espada, cortou meu pescoço e chupou todo o meu sangue. Ele ainda meio nervoso não conseguia tirar meu sutiã, coloquei minha mão na dele, e o ajudei a me despir. Feito todo pirraia achei que era louco por peito, mas ele nem olhou, ficou olhando pra minha cara, que já tava entregue. Colocou a mão no meu peito esquerdo. Com a outra sugeriu tirar meu short, tirei, me abaixando, afinal tinha que continuar meu trabalho. Sou uma profissional. Quando fiquei nua, recuei pra trás e ele me olhou decima abaixo, mas mirou os olhos na minha periquita mermo. Homem é homem.Mas será que mulher é mulher?
Eu queria comer ele,como nunca tinha acontecido com outro cliente, mas era profissional, e não tinha hora marcada, a semana ia devagar. desci bem lentamente, fiquei de joelhos, coloquei as mãos no chão de alcatifa de madame, e fui de quatro engatiando até ele, abracei as pernas dele e fiquei, acho que cerca de um minuto abraçada nas pernas dele, se estranhou não demonstrou, aí que fudeu. Anéis no cabelo. abaixei a calça amarela. era uma cueca roxa, que galera colorida. Coloquei a mão no pacote. quente.Prometia. Com os dentes abaixei a cueca dele. Desabrochou uma floresta densa que a menina perdida não deveria nunca se arriscara entrar, mas quem era mesmo o dono da mata? Ah um pirraia menor que ela!
Tocar flauta! Não, um solo de clarineta.colocou a mão no meu quadril,me esquentou, deitamos,voltou ao pescoço, eu pensei estar perdida, dormindo, tinha que manter o trabalho, Misericórdia!Não acertava bem, com a minha mão ineditamente tímida, o ajudei, e com certa força, me arrombei com a dele. ele gritou baixo. eu gritei alto, e não era falso. Uma rajada de vento me resfriou o suor no quarto fechado, os cheiros eram novos, era como se eu tivesse finalmente tido a minha primeira vez, depois de 12 anos de rua. Meu deus! e eu não pensava que isso fosse acabar, porque não havia a menor noção de nenhuma dimensão, a minha única base era o prazer, base não. não há palavaras que descrevam. calor.cheiro.perto.dentro.suco.
Depos de acordar do meu sonho e notar que ele havia terminado e minha carteira de identidade voltava a valer. como uma mortal olhei pra ele. Se levantou olhando pra baixo, ainda armado, com as pernas abertas, vi toda a minha segurança indo embora num assalto que terminara. Mas as coisas ecoam né?
Era meu aniversário. Perguntou quanto me devia, eu disse. ele me deu o dinheiro- nem contei- enquanto vestia a cueca. Pegou um cigarro colocou na boca, me ofereceu, puxei o que já tava na boca dele. ele sorriu, não disse nada, nem eu, nem ele, sorriu olhando por baixo. os dentes não eram perfeitos, hava um leve espaçamento entre os da frente, era gente. Me ofereceu fogo, eu disse que ia fumar mais tarde. perguntei com quantos anos ele começou a fumar, disse que não se lembrava, como se já tivesse vivido tantos anos e tivesse perdido a conta do que viveu. Era uma entidade.
Chovia, estava frio na rua. Mas o quarto, com ele se vestindo, estava morno. e o suor me refrescava. Coloquei o cigarro que ele me deu na minha bolsa. Ele estava vestido, eu não sabia se queria que ele fosse embora, ou ficasse. Afinal eu sou uma profissional. Mas era dia de mágica, era dia de verdade. perguntou com aquele olhar tímido, por baixo, se eu tinha gostado, se meu aniversário tava bom. Eu, muda, descalça, assustada, balancei a cabeça. Parece que meu profissionalismo e jogo de cintura inham e viam, e se atrasavam bastante.
Ele agradeceu, me deu boa noite, ia fechando a porta e com os olhos baixos, voltou, me deu um abraço, a boca no meu pescoço. Quem pariu quem? E erguendo o rosto , quando se alinharam nossos olhares, o nariz dele, tocou o meu, eu não conseguia evitar fechar os olhos, queria ver o rosto dele, fotografa-lo, mas o poder da presença era muito forte. Encostou a boca quente na minha, e veio a onda e me levou. Em pleno oceano fui. A onda volta, se afasta da praia, e quando afastou paulatinamente a luz da minha boca, quando foi recuando o beijo, coloquei o dinheiro que ele me deu no bolso da calça amarela, sem que percebesse, era eu que pagava a ele. Um serviço que ninguém nunca fez por mim. Uma benção.
Te conto isso com o cigarro que nunca acendi na boca. a única coisa que incediou fui eu, inteira. e cada vez que coloco o esse cigarro na boca, tenho a impressão que fumar não suja só os pulmões, limpa a minha alma, eu, que nunca fumei. Com o cigarro nos lábios.
Eu queria comer sua presença. Eu, em estado de graça e morte fui caindo na cama, quando ele fechou a porta. Depos que ouvi os passos dele chegando ao fim do corredor, parou, e senti que voltava, o som era o reverso. Me precipitei e abri a porta assustada. ele parecia bem, descansado. ergueu a cabeça, e do meio do corredor perguntou:
-Como é o teu nome?

domingo, 23 de maio de 2010

No divã

Estou ouvindo nesse momento o programa de rádio da CBN, o divã do Gikovatti. é uma fantástica fonte de histórias para quem escreve, são histórias, algumas delas inacreditáveis, contadas ao psicólogo Gikovatti.
Esse Gikovatti, eu nunca vi o rosto dele, mas sei que ele é velho. Tem voz de experiente senhor. Não pretendo ver seu rosto, prefiro que ele continue a ser uma voz no meu ouvido dando conselhoas aos neuróticos e desorientados brasileiros, que não entendem os filhos, não entendem os pais, não se assumem, enfim é muita história.
E eu estava aqui imaginando, procurando uma razão, das pessoas ouvirem isso, eu ouço por que gosto de ouvi-lo, e gosto das histórias. Mas deve ter algum sádico de plantão, e os que realmente querem ouvir os conselhos para aplicarem na sua vida no domingo à noite, quando a segunda feira já acena.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Elke, no chão e no céu.


Enquanto planejava seu futuro, afundou o pé numa poça. Enquanto pensava no futuro e enxugava a calça, o rádio da banca de jornais noticiava o acidente aéreo, onde 154 pessoas, à bordo de um Boeing, estavam desaparecidas no meio do mar, próximo da costa do estado norte americano da Flórida.
Enquanto planejava seu futuro: as escolhas que tomaria, o seu casamento enfeitado e lotado de gente, Elke tropeçou numa raiz, entronchou o pé e caiu de costas para o chão.Viu o céu nublado, um avião cruzava a grande nuvem negra. Pra onde iriam aquelas, talvez, 154 pessoas?Uma brisa forte soprou gelada, fazendo ficarem presas na épica juba monumental de Elke algumas folhas e um vazio pacote de pipocas Veneza(compradas à vinte e cinco centavos a unidade, nas melhores paradas de ônibus da cidade, e sendo inclusive este pacote conumido a poucos instantes por Seu Rabelo Chagas filho do dono da banca de jornais que aparentemente não recebeu boa educação do pai, que devia ter-lhe ensinado o lugar certo do lixo. Mas a brisa era forte, e o que é lixo e oque não é?)
Meu Deus agente ainda se atreve a planejar as coisas. O avião segue um curso, mas pode cair. Bom é abraçar bem quem ficou na partida, e levar saudade pois podemos não voltar.Pode ser que agente fique no destino, ou no meio do caminho como os que iam à Miami. Mas sou organizada, gosto de planejar, se não der certo toco pra frente. Nossa Senhora, como simplifico tudo ao que já vi, ou ouvi falar. Só tenho dezessete verões, que em Recife são anos completos. Mal amarro meus sapatos e saio na chuva. Mas sei que já posso engravidar. E aí?
O avião já estava longe, a chuva veio e antes que se afogasse, Elke se levantou. Parece que passou muito tempo caída, mas não deu tempo nem de alguém a notar no chão. Continuou andando, ia pra casa, se chegaria ou não- Que Deus te acompanhe minha flor. E Elke foi pensando no que poderia acontecer com ela se não chegasse em casa, e acabou voltando ao pensamento voltado para o que provavelmente e ansiosamente viria.
E arreia Pedro!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Reclamação:

Eu preciso me confessar: Eu adoraria, na verdade eu ando precisando, reclamar. Mas, apesar de muitas vezes reclamar, eu sinto que não tenho esse direito. Pois sou privilegiado na vida. Nada me falta na geladeira, estudo em escola paga e meus pais tem carro, enfim, tenho uma vida cada vez mais rara de se achar.
Reclamo só pra mim, as vezes eu falo mesmo, e na maioria é merda.
Mas até quando só, estou ouvindo a minha reclamação na solidão( ou não) do pensamento me vem a censura, e me faz lembrar das muitas pessoas que podem reclamar e não reclamam. Abaixam a cabeça, mesmo sentindo a cada passo o peso da vida, que é esquecida nos momentos ditos divertidos.
Onde a vida deveria ser celebrada é esquecida.

Onde vou buscar o esquecer do que me faz reclamar? Nas tardes, nas sessões de cinema lotadas até o talo por pessoas talvez querendo esquecer alguma coisa. Isso é inconsciente e não controlo, falar disso é até um pouco frustrante. Pois é como um grito de peixe: O peixe tá la nadando seguindo os outros milhares de peixes iguais a ele, até que magicamente ele não consegue mais respirar porque foi pescado. E grita muito. Mas os peixes não emitem sons, não tem cordas vocais nem nada assim.
Mas esse peixe grita procurando o que ele sempre teve em abundância, e nunca sentiu falta. E ouve os outros do seu cardume gritarem,
e chora água salgada.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

68

"Sua voz quando ela canta me lembra um pássaro, mas não um pássaro cantando. Lembra um pássaro voando."

Ferreira Gullar


*


-O que foi?

-Você caiu, e se machuou. Desmaiou no banheiro.

-E o que é que eu tenho?

-Ninguém sabe ainda.


*



-Até logo gurizada!

-Até seu Jairo!

Oito da manhã e todos ainda estavam na sala. Tocando e cantando.
A primeira vez que se apresentou em público foi de costas. A timidez sempre a acompanhara.

*
-Pai, amanhã eu vou participar de um show...

O pai, Jairo Leão, sem nem tirar os olhos do jarnal dispara:

-Então quer dizer que você vai virar vagabunda?
*


CORREIO CARIOCA 1964

Nara Leão estreou nessa última semana o show Opinião, considerado subversivo pela Censura, ao lado de João do Vale e Zé Ketti.
"Se não tem água, eu furo um poço, se não tem carne, eu compro um osso e ponho na sopa ", Diz o samba de Zé Ketti. Mas fica bem claro que a capixaba Nara Leão, menina rica que mora de frente pro mar de Copacabana, não está inserida na realidade que essa e quase todas as outras músicas do show retratam.
É mais uma vã tentativa de se enqudrar em algum grupo, já que há alguns meses, a cantora rompeu com a bossa nova e passou a andar com os compositores do morro.




*

Mas ela nunca se enquadrou.

*

Miss linda, feia, Lindonéia desaparecida. JORNAL DA MANHÃ 1968

Nara Leão, que faz alguns anos trocou a bossa nova pela música de protesto, participou do disco de estréia da nova onda americanizada que começou a aparecer nos festivais de música. A chamada Tropicália usa e abusa de guitarras elétricas e versos em outras línguas em suas canções, além de simpatizarem com a jovem guarda de Roberto, Erasmo e Wanderléia.

Mais um golpe da oportunista cantora, que não decidiu ainda sua posição na "música brasileira".
Tomara que Nara tenha finalmente encontrado a sua trupe em meio aos baianos Caetano, Gil, Capinam e Gal, para que no futuro nós não tenhamos mais desagradáveis surpresas.

*

Mas ainda viriam muitas, muitas surpresas.

*

FATOS FOTOS 1971

"Ah, insensatez". Assim abre o novo disco de Nara Leão gravado em Paris, onde a cantora vive há um ano. A musa do movimento que renegou há alguns anos, corre atrás do tempo perdido e grava um LP duplo com os grandes clássicos da bossa nova.
O disco recebeu o nome de "Dez anos depois". Na capa do disco vemos uma Nara embalada pelo frio europeu, que contrasta com o tema do disco que é só bossa nova, só o calorzinho do mais brasileiro dos ritmos.
Para os chatos de plantão disco pode parecer um golpe de oportunismo, mas na verdade é uma doce obra de arte. Mesmo no exílio os artistas continuam brasileiros.










*

NARA LEÃO VOLTA AO BRASIL COM OS DOIS FILHOS- FATOS E FOTOS 1972

Casada com o cineasta Cacá Diegues desde 67 Nara Leão engravidou em Paris e lá teve sua primeira filha Isabel, na volta a surpresa de estar grávida novamente e em seguida o menino Francisco vem ao mundo, pra encher de alegria a vida da contora que não está disposta a enfrentar os palcons nem tão cedo.
"Adoro cantar, mas não é acoisa mais importante do mundo, antes de ser cantora eu sou mulher e sou mãe."
Aguardamos ansiosos a volta da cantora que sempre divide a crítica.


*

- Disco novo Menescal?

-É Nara!Tá na hora de gravar!

-Mas e a PUC?

-Agente grava de um jeit que não atrapalha as aulas.

-Tá bom Menescal. Mas gravar o que?

*

VEJA RECOMENDA, NATAL DE 1974

NARA LEÃO-MEU PRIMEIRO AMOR

Nara grava nesse disco as músicas que sostuma cantar pra seus filhos dormirem. Mas não é um disco só infantil, muitos pais também estão correndo às lojas de discos para garantirem o seu próprio exemplar do disco que pra surpresa da própria Nara é praticamente unanimidade na mídia.



Nara conquista, além de crianças, adultos que relembram sua infância no disco.




*


O estúdio é uma festa, Gilberto Gil, Edu Lobo, Nara Leão e João Donato.
Os colegas gravam juntos.
Lembranças que ficaram. De uma época em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes como diria Elis.

Cada faixa é dividida com um amigo de Nara: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dominguinhos, Nelson Rufino, Edu Lobo, Tom Jobim, Erasmo Carlos, Carlinhos Lyra e Roberto Menescal e João Donato.

Meus amigos são um barato.



*


...E QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO... MANCHETE 1978



Nara Leão realmente não perde a chance de aparecer. Desde que botou pra trás sua turminha da bossa nova na década passada, gravou com a Tropicália, voltou com a bossa nova... Enfim, quando as coisas apareciam Nara as gravava e nunca ficava parada. Esse ano não foi diferente, e Nara gravou o disco "E que tudo mais vá pro inferno", Só com músicas de Roberto eErasmo Carlos. É realmente íncrivel como a desafinada ainda faz algum sucesso. Enfim Nara, vlte para sua casa e seus filhos, nós não precisamos tanto de você quanto eles.


*

"Por que eu tenho que gravar sempre a mesma coisa se posso gravar coisas novas?
Um passo pra frente e você não estará mais no mesmo lugar.
Se vejo uma coisa nova e me agrada, eu acho de maior talento, não tenho preconceito, vou lá e gravo."

*

A CANTORA NARA LEÃO É INTERNADA APÓS QUEDA NO BANHEIRO.



*



Não vejo o que havia melhor pra gravar hoje em dia. Isso é a nata da música popular brasileira de 1981. é isso aí, Fausto Nilo, Fagner, Cli cle clo e Capinam. Tem toques de Nordeste, Tem toques de Brasil. Gostei muito do resultado.



Realmente é um Romance popular, no sentido mais amplo de romance.


Nunca me senti tão bonita, é só você colocar pra fora o que você tem de mais bonito e pronto.

As crianças me ajudaram muito a escolher o repertório, elas não passaram por uma série de condicionamentos pra gostar disso ou aquilo.








Seja o meu céu.






DE VOLTA A BOSSA NOVA, NARA LEÃO E ROBERTO MENESCAL RELEMBRAM PASSADO NA AVENIDA ATLÂNTICA.
Num disco nostálgico, o violão de Menescal acompanha a voz doce e afinada da cantora, que nunca esteve tão bem. Percorrendo novos clássicos

Nara Leão é a mais aventureira das cantoras brasileiras. Gravou de tudo ao longo de sua carreira, que ano passado fez 20 anos. Mas nesse registro de todsas inéditas na sua voz, ela volta ao passado pra antar o que se esperava dela naquela época. A questão é que ela faz isso com 43 anos e não com 23, e faz isso melhor do que nunca: cantar.
Nara humildemente começou a ter aulas de canto com um professor especializado, e melhorou muito deixando-a mais segura para fazer shows. E por falar em shows a cantora e o violonista responsáveis por essa obra prima estão nesse momento no Japão em turnê. É que os japoneses, ao contrãrio de grande parte da população brasileira, principalmente a jovem, admiram música de qualidade, por isso Nara Leão é uma pop star no Japão.
A novidade não para por aí Nara e Menescal foram convidados para gravar um disco com os grandes clássicos da bossa nova no japão, mas não um disco qualquer, um compact disc, a mais recente invenção no ramo musical. Nara será a primeira artista brasileira a gravar um cd.




É INTERNADA EM ESTADO GRAVE NARA LEÃO.
















*

Mas como já se disse antes: Tem gente que nuca morre. E ainda por cima dá vida aos outros.


Nara faria hoje 68 anos de idade. E fazem 20 anos da sua morte.






















segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dia

Ano passado , 2009 , teve um concurso de curtas metragens pra comemorar o aniversário da comunidade Cinema Olho, Quando eu li que aconteceria o concurso e depois que li o regulamento, que não podia ter música com direitos autorais e tal me lembrei logo do meu primo Bruno. Fomos conversando tentando montar um roteiro do roteiro, o tema era a passagem do tempo. Faltando três dias pra entregar o curta nós começamos a fazer, sentamos e falamos: E agora que sai. Fizemos uma lista com tópicos, que foi chamado de "roteiro", Chamamos Joana, e minha vó Lisete pra atuar no curta. Se bem que nem estavam atuando mesmo. Tavam eram vivendo aquele momento denovo, não sei, nem quero explicar.
Fizemos, Bruno também atuou. Bruno tocou na hora de improviso, e gravamos. A edição quase que não fica pronta, o conselho que se dá é pra nunca dependerem só do Movie Maker! Aqui está o curta:

Ah, e nós ganhamos o concurso.

http://www.youtube.com/watch?v=j6glsu_4Rbc

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os cocos de Grimarão.

Pra meu tio Edivaldo,


Era só ela e o marido Grimarão. Ele sempre trabalhou e a sustentou. Sempre, ela nunca trabalhou em nada fixo, de vez em quando fazia uma costura, um remendo. Houve um ano em que ela costurou um vestido de noiva, foram tantas as lembranças, mas já faziam mais de quarenta anos.
Ela era mais nova que ele sete anos, esses sete anos a mais eram facilmente percebidos na cara dele, ele tinha até uma casca grossa e seca na testa. Os dois usavam óculos, quase todo senhor usa. Talvez os anos a mais se fizessem notar pelos anos de serviço, enquanto a mulher ficava em casa com os meninos. Mas seria mentira, a mulher era bem mais conservada do que ele, mas não por isso. Ela ralava muito em casa, talvez até mais do que ele. Esfregar aquela cerâmica toda, amarela e preta que era, chegava a dar nauséas. Cuidar de três filhos. Ainda esquentar o café pra Grimarão quando o velho, que ainda era novo, chegava.
Hoje estão sós ele e ela. De vez em quando visitam a irmã dele, Nilda, que tem grande apreço por ela. Mas os filhos aparecem rarríssimamente.
*

Era de manhã cedo, cinco e meia, seis horas quando ela pediu pra Isabel ralar o coco.

- Grimarão daqui a pouco acorda, ele vai querer a tapioca dele. A minha você sabe, é de queijo coalho com mortadela né?

-Sei sim, e vou passar o café. Aliás tamo precisando de mais filtro viu? Que os que tem ai tá acabando.

-Ishh, vou comprar, amanhã eu vou fazer feira. Hoje eu não quero fazer é nada.Acordei pra lá de Bagdá, sabe?

-Uhm sei que isso não senhora (A mulher forte que Isabel era, fechou os olhos pretos e abaixou a cabeça, sentada de pernas abertas por cima do ralador, colocando força enquanto a carne branca do coco perfumava a cozinha ainda meio escura).

-Sabe não? Oxente. Tô sem saco.

Passou um tempinho e deu seis e meia. A morena Isabel já foi perguntando se ia querer agora a tapioca.

-Não, não, eu vou esperar pra comer com Grimarão que ele não gosta de comer sozinho. Hoje até que ele tá demorando pra acordar né?

-E então.

E a manhã foi passando. E nada de Grimarão acordar.

-Ei ,a senhora não acha melhor agente acordar ele não?

-Opa, já tava cochilando aqui Isabel, bora, bora.

Ela foi em direção ao quarto que tava com a porta fechada, Isabel foi atrás dela.Quando chegou na frente da porta ela estava meio nervosa, sabia que o homem já era velho.
Quando abriu a porta fechou rapidamente quase no mesmo segundo, que não deu tempo nem de Isabel entender o que se passava no quarto. Ela deu uma gargalhada tão aguda que Isabel jurou ouvir uma taça na cozinha estalar.

-ish que foi??( Perguntou assustada)

-Nada não menina, agora deixa eu entrar, que eu tenho que falar um negócio que esse meninão.

E não parava de rir. Isabel ficou confusa.

*


- Isabel, pode ir ralando o coco de Grimarão tá? Daqui a pouco o velho acorda.

- Tá certo.

- E hoje eu não vou querer tapioca não, cou comer carambola mesmo, Nilda me deu umas anteontem.

-E eu num vi. Até filei uma.

- Pode pegar menina. Grimarão gosta de fruta também, mas de manhã não abre mão da tapioca dele.

*

Isabel derrubou o ralador na bacia que por sua vez capotou e derrubou no chão todo o coco já ralado, o chão preto e amarelo ficou incrementado com branco. A morena olhou aquela composição achou bonito e cheiroso, mas em alguns instantes ela se obrigou a perceber que aquilo era ridículo, e que deiva estar preocupada por ter derrubado o recheio da tapioca do seu patrão no chão. Mas não estava. Virou em direção a porta da cozinha e entrou na sala, parou na frente da patroa, e disse:

-Vamo acordar o véio?

-Menina ainda é cedo (olhando pro relógio de cuco, enorme que ela tinha na sala.)

-Vamo.
*
*


Já não tinha mais coco nenhum quando Isabel voltou pra trabalhar. Tudo já estava feito. Ela ia se mudar, e a morena iria com a patroa. Não podiam ficar sozinhas naquele palacete. Não sem Grimarão.

- Como é que ele tá mãe?

- Como um vegetal meu filho. Não respira só, nem nada, nem fala muito menos. Vocês não vão mesmo poder vir aqui hoje?

-Amanhã, eu vou por aí. Mas tem certeza que a senhora quer se mudar? O quadro dele pode se reverter.

- Não, aqui eu não fico mais, tô lhe esperando amanhã. Roberta tá no Hospital com ele, mais tarde eu tô indo pra lá. Beijo.

As únicas coisas que ainda estavam de pé eram o telefone, que tava ligado e o relógio, que continuava lá.
Isabel, Carlos e ela tavam lá dentro fechand as últimas caixas.

Carlos puxou ela meio de lado e perguntou baixinho:

-Por que é que a senhora não espera mais um pouco pra se mudar, agente consegue oferta melhor mãe. A senhora tá fazendo as coisas muito na carreira, vai se arrepender...

O telefone berrou no meio do eco.

-Mãe??

-Oi minha filha, que que houve?

*


-Olha Isabel aquele dia que agente abriu a porta e eu comecei a rir, lembra?

-Lembro bem.

Ela não parou de rir.

-Se controle, e me conte o que foi que a senhora viu.

A mulher vermelha se recompôs.

-Quando abri a porta eu vi Grimarão sentado an cama totalmente nu, com as pernas juntas e aqueles dois ovinhos e a bimba morta! Eu não consegui parar de rir!!

A morena abriu um sorriso branco. Aceso.

-E agora a senhora vai fazer oque dá vida sem ele?

-Sem ele? Nunca vou ser sem ele. Vou me mudar, só isso. Mas vamos continuar em Casa Amarela.

*

A mulher viúva, com três filhos, 68 anos de idade, com uma amiga Isabel, se mudou, mas não mudou.


Algum tempo depois Isabel beba de sono ainda continuava ralando o coco de manhã cedo. Mas não se estragava, ela dava pro porteiro comer com bolacha e café.

-Isabel, entenda, as pessoas apenas deixam de atender o telefone. Mas nunca deixam de falar, nunca.

-É, já me disseram que tem gente que nunca morre né?

é.





Talvez seja pra meu tio e minha tia Nilza, que cuidou dele nesses últimos tempos. E que agora vai descansar um pouco. E meu tio já está descansando.

Pra Edivaldo que ajudou tanta gente,
Que chateou tanta gente,
Que só matou de rir,
Que xingava carinhosamente minha avó,

E que nunca vai morrer.