sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Uma aprendizagem

Meu avô é daqueles que sentam com as pernas cruzadas em restaurante. Brinca de budista, e é de verdade. Tem uma patologia psiquíca que quando passa longos periódos sem o remédio sai distribuindo dinheiro para todos, todos, todos. Isso já gerou um quase divórcio com minha avó.
Nunca fui muito próximo ao meu avô, ele e minha vó moravam meio longe, interior da Paraíba.
Fazia anos que eu não ia lá, mas todo ano ele vinha pra Recife, ele e minha vó, André e Margarida.
Com os dois já velhos, um cuidava do outro. Mas em uma manhã daquelas brancas, embaixo do cajueiro, deitada na rede escrevendo em seu caderno, minha avó, Margarida escreveu sua última linha.

Com certeza esse fato gerou muitas outras linhas.

Foi graças à ida de Margarida, que se deu a vinda de André.

Meu avô, depois de todos os eventos fúnebres, veio à minha casa, pra acertar a situação do sítio de Bananeiras (onde ele e vovó moravam). Ficou acertado que seria vendido. passados seis dias da morte de Margarida meu avô já estava instalado na minha casa. No começo, nos primeiros dias foi meio estranho ter alguem em casa que não era aquele alguém de sempre. Ainda mais um velho, que tem aqueles hábitos esquisitos, mas ele não usava dentadura. Tinha dentes fortes, que agarravam no caroço da manga na hora de chupar, dentes fortes e amarelos. Na adolescência fumava com os irmãos cachimbos de folha de cajá, adorava o cheiro. O engraçado é que eu nunca vi meu avô escovando os dentes, e nunca senti mau hálito vindo da boca dele.

-E pra beber senhor?
- Suco, de cajá.
-E o senhor?
-Refrigerante.

Meu avô disse que coca-cola tinha gosta de plástico, misturado com sabão, e uma gota de petróleo pra dar a cor e o preço desejados. Sentamos à mesa da praça de alimentação, era sábado e religiosamente o shopping estava lotadíssimo. O número do pedido da minha mãe saiu na telinha, ela se levantou pra ir pegar o prato. Eu e meu avô ficamos sós na mesa. O velho André não era simpático, nem muito falador, nem muito calado. Eu fiquei pensando naquelas velhinhas bondosas e simpáticas que sorriem de graça, muitas tem uma vida simples, regada à moralismo e religião, mas são tão doces! Eu não pensava nada disso do meu avô, talvez isso se aplicaria
à minha avó. O meu avô aparentemente adivinhou o que eu pensava naquela hora.

- "Olha menino, nunca mais vão haver senhoras como Margarida, e outras que vivem pelas paradas aí afora. Não é questão de idade, certo que contribui, mas não é determinante, quando uma criancinha fala: aah eu adoro velhinhas", não é das velhinhas que ela gosta, mas sim das moças de antigamente, educadas e respeitosas. Tenho sorte de não viver pra ver as velhas de amanhã.
O mundo sempre foi perdido, sempre. Quando não houve caos?
Quando não havia mundo.
Mas sinto que estamos nos superando."

Meu avô nunca tinha falado tanto pra mim. E é verdade.

*
Quando chegamos em casa meu avô foi diretamente pro quarto dele. Me chamou.

-Oi vô

-Vem cá menino, bora abrir essa caixa aqui. É das coisas mais pessoais da tua avó.

Meu avô tirou do guarda roupa, a última caixa que faltava abrir, com o que preenchia a antiga casa em Bananeiras. O que eu vi primeiro foi a ponta de um lápis preto. Ele puxou de dentro da caixa o caderno da minha vó, ela usava mais ou menos um a cada ano, gostava muito de escrever. era de capa dura, não tinha espiral, era brochura mesmo, costurado, a capa era cheia de colagens, fotos, textos, orações. O velho André o colocou no colo. Olhou pra frente, na escrivaninha tinha um porta retrato com uma foto da minha vó, com um vestido bonito, os cabelos curtos, e a cara de envergonhada, era morena e tinha olhos que falavam. Sinalizou para que eu pegasse o retrato. Olhou um pouco para a velha foto, soltou no colchão, levantou o caderno com as mãos e disse:
-Aqui

silêncio


-Aqui o quê vô?

-Aqui está sua avó Margarida, nesse caderno, não na foto. Nenhum retrato a captou tão bem, quanto um de seus textos. Ela está bem aqui.
Colocou o caderno de lado, e não teve coragem de abri-lo.Eu puxei o caderno, ele rapidamente parou minha mão e disse que ainda era cedo pra saber o que ela tinha escrito no último dia de vida. Hesitou um segundo. Virou a caixa na cama. Eram tantos lápis de cor que a cama explodiu em cor. Minha vó não usava caneta. Puxei o lápis preto.

-Quando eu era pequeno perguntei a minha mãe se quando ela era pequenina existia lápis de cor colorido, ou se só tinha lápis preto e cinza. Já que o papel seria branco. Afinal, a tv era em preto e branco né?

-Hum. você AINDA é pequeno. e quando EU era pequeno não se tinha lápis de cor, nem muito menos televisão, e o mundo pra mim não era preto e branco. eu tinha um pincel que meu tio Rubens fez pra mim. era com um pedaço de pau e na ponta tinha pêlo de bode dalí do sítio mesmo. E as tintas era também ele que fazia, do urucum saía o vermelho, da polpa da beterraba ele fazia roxo. E do resto do tempero da carne ele no pilão, móia e fazia uma pasta verde. O jornal, que era nosso papel, ficava engilhado, mas eu me divertia horas. E eu tinha que esperar ele chegar pra poder pintar. porque não sabia, nem podia fabricar as tintas. e a cada visita do meu tio ele fazia também um novo pincel, pois nas minhas pinceladas o coitado do pincel se torava. era assim, meu mundo era em três cores. Eu gostava muito de tentar reproduzir no jornal o nosso cachorro Napoleão.
Nunca escrevi nada como sua avó. mas li. Li muito o que ela escrevia, e o que os outros escreveram e escrevem.

Senti um frio na espinha quando meu avô parou de falar. era como se minha alma tivesse entrado denovo no meu corpo. Meu Deus meu avô abriu parênteses no tempo.
viajei.
Dormia geralmente tarde. ficava assistindo tv. nunca ouvi ele rindo de nenhum programa.
e agora é fato, ele não escovava os dentes.

Hálito de cajá, meu avô me levou na sorveteria. minha mãe veio junto. Era uma sorveteria italiana na Conselheiro Aguiar. nos servimos, sentamos. Meu avó como de costume cruzou as pernas na cadeira, sentou como um sapo na vitória régia. até que:

-Senhor, o senhor pode por gentileza tirar os pés da cadeira? solicitou o garçom encabulado.
Sem falar nada com a colher na boca o velho André, se levantou e se sentou no chão, ao lado da cadeira.

-Quem disse que meu pé é mais sujo que meu traseiro.
Minha mãe entrou em choque. implorou para que meu avô se levantasse. Ele continuou comendo seu sorvete de banana com tranquilidade. O garçom já tinha desaparecido na vergonha, e todo mundo olhava pro velho.
Minha mãe se levantou e disse que ia embora.
E foi.

Assim que ela entrou no carro meu avô se levantou e nós fomos andando pela praia. Com as sandálias no pé, deixou se molhar pela onda fina.

-Tua avó gostava muito de água. tinha uma bica em cima de uma pedra, lá em cima, atrás de casa, atrás do cajueiro que ela escreveu a última frase. tomavámos banho de noite. era frio. mas agente se aquecia.

eu ri.

-A tua vó era empregada lá de casaquando eu era menino tu sabe né? Contava tudo da minha vida pra ela, meninas, poesia, música, comida, tudo. Agente conta as coisas pra empregada por que acha que ela não tem a menor interferência na nossa vida, acha que ela é de outro mundo. Até que ela sabe tudo de você e te acende. Foi covarde o jeito que Margarida me conquistou, eu penei por ela. Mas garanto que valeu à pena. 55 anos juntos.

- Nossa tudo isso?

-E então, e podia ter sido mais, nem tudo se completa, foi muito bom. mas não gosto de pensar em coisas fechadas nem tudo acaba sabe? Há o eco das pessoas. você tem eco em mim, eu espero ter em você, espero te contaminar, como Margarida me contaminou com a sede da vida. Meu pai, a vida toda do mundo já passou, tudo já tá escrito, agente só faz ler. Não eu não acredito em destino não. mas eu acredito em próximo capítulo, mesmo que inesperado. sei lá. não quero ter opinião formada sobre tudo.

- HEHE toca Rauul.

-Hum, detesto rock. Mas enfim meu filho, a vida é assim aberta.Talvez haja contradição. mas procure me entender sou velho e vivi bastante. Não me exija tanta coerência. Estou escrevendo em você o que não coloquei no papel.
Vamos ler a última página.

Meu avô me contaminou, não tem mais cura.

é doce.

*

Abriu o caderno logo no final. procurou entre seus escritos a última folha. se surpreendeu ao ver que só tinha uma linha na folha toda, a última folha com algo escrito do caderno que ainda tinha metade virgem. Não era poema, nem romance, nem receita. só dizia isso, e o que se seguia era um mar de folhas em branco:


Eu penso que: