sábado, 26 de junho de 2010

O aniversário

E foi justamente hoje, dia do meu aniversário, que aconteceu o dia mais erótico da minha vida. Foi realmente o dia que eu nasci.
Fazia ponto na esquina do Santa Cruz, no Arruda quando passou um carro verde, verde mermo, tipo perereca. desceu aqueles meninos, uns pirraias, aqules que tem que fazer de favor, né? Mas, Misericórdia, eu não esperava por isso!
Vieram uns quatro meninos, o mais novo veio falar comigo. acertamos. fomos.
Ele tava meio nervoso. Eu disse que era meu aniversário. Ele disse parabéns, tudo de bom, e me deu um abraço, mas não sou besta, e senti ele cheirando meu cabelo solto e ainda meio molhado. ele não levou só meu cheiro. Disse a ele que a responsabilidade dele era grande, tinha que me dar o meu presente. Ri porque sabia que ele tava nervoso, e o meu presente seria o cabaço dele, que no meu caso não foi presente pra ninguém, por que começou a sangrar e o cara se assustou e não foi nada romântico. Mas é um menino agora.
Perguntei se era a primeira vez dele, respondeu que não, claro. Era sim.Tava nervoso, muito nervoso. Me abaixei e abri a braguilha da calça amarela que ele usava. Colocou a mão na minha cabeça, e começou a fazer anéis com meus cabelos. Foi aí que parei de representar.
Tinha que continuar meu trabalho. Ele tirou a blusa, com os braços cruzados, não tinha pêlo nenhum, só no suvaco. ele veio com aquele passo de desfiladeiro, e eu esperando feito donzela em torre. Lambeu meu pescoço, coloquei minha mão no pescoço dele, branco e com sinais, o cabelo dele era liso, uma seda, preto feito café, cheirava a uns dezesseis anos.
Mas Misericórdia, aquilo não era só uma língua, era uma espada, cortou meu pescoço e chupou todo o meu sangue. Ele ainda meio nervoso não conseguia tirar meu sutiã, coloquei minha mão na dele, e o ajudei a me despir. Feito todo pirraia achei que era louco por peito, mas ele nem olhou, ficou olhando pra minha cara, que já tava entregue. Colocou a mão no meu peito esquerdo. Com a outra sugeriu tirar meu short, tirei, me abaixando, afinal tinha que continuar meu trabalho. Sou uma profissional. Quando fiquei nua, recuei pra trás e ele me olhou decima abaixo, mas mirou os olhos na minha periquita mermo. Homem é homem.Mas será que mulher é mulher?
Eu queria comer ele,como nunca tinha acontecido com outro cliente, mas era profissional, e não tinha hora marcada, a semana ia devagar. desci bem lentamente, fiquei de joelhos, coloquei as mãos no chão de alcatifa de madame, e fui de quatro engatiando até ele, abracei as pernas dele e fiquei, acho que cerca de um minuto abraçada nas pernas dele, se estranhou não demonstrou, aí que fudeu. Anéis no cabelo. abaixei a calça amarela. era uma cueca roxa, que galera colorida. Coloquei a mão no pacote. quente.Prometia. Com os dentes abaixei a cueca dele. Desabrochou uma floresta densa que a menina perdida não deveria nunca se arriscara entrar, mas quem era mesmo o dono da mata? Ah um pirraia menor que ela!
Tocar flauta! Não, um solo de clarineta.colocou a mão no meu quadril,me esquentou, deitamos,voltou ao pescoço, eu pensei estar perdida, dormindo, tinha que manter o trabalho, Misericórdia!Não acertava bem, com a minha mão ineditamente tímida, o ajudei, e com certa força, me arrombei com a dele. ele gritou baixo. eu gritei alto, e não era falso. Uma rajada de vento me resfriou o suor no quarto fechado, os cheiros eram novos, era como se eu tivesse finalmente tido a minha primeira vez, depois de 12 anos de rua. Meu deus! e eu não pensava que isso fosse acabar, porque não havia a menor noção de nenhuma dimensão, a minha única base era o prazer, base não. não há palavaras que descrevam. calor.cheiro.perto.dentro.suco.
Depos de acordar do meu sonho e notar que ele havia terminado e minha carteira de identidade voltava a valer. como uma mortal olhei pra ele. Se levantou olhando pra baixo, ainda armado, com as pernas abertas, vi toda a minha segurança indo embora num assalto que terminara. Mas as coisas ecoam né?
Era meu aniversário. Perguntou quanto me devia, eu disse. ele me deu o dinheiro- nem contei- enquanto vestia a cueca. Pegou um cigarro colocou na boca, me ofereceu, puxei o que já tava na boca dele. ele sorriu, não disse nada, nem eu, nem ele, sorriu olhando por baixo. os dentes não eram perfeitos, hava um leve espaçamento entre os da frente, era gente. Me ofereceu fogo, eu disse que ia fumar mais tarde. perguntei com quantos anos ele começou a fumar, disse que não se lembrava, como se já tivesse vivido tantos anos e tivesse perdido a conta do que viveu. Era uma entidade.
Chovia, estava frio na rua. Mas o quarto, com ele se vestindo, estava morno. e o suor me refrescava. Coloquei o cigarro que ele me deu na minha bolsa. Ele estava vestido, eu não sabia se queria que ele fosse embora, ou ficasse. Afinal eu sou uma profissional. Mas era dia de mágica, era dia de verdade. perguntou com aquele olhar tímido, por baixo, se eu tinha gostado, se meu aniversário tava bom. Eu, muda, descalça, assustada, balancei a cabeça. Parece que meu profissionalismo e jogo de cintura inham e viam, e se atrasavam bastante.
Ele agradeceu, me deu boa noite, ia fechando a porta e com os olhos baixos, voltou, me deu um abraço, a boca no meu pescoço. Quem pariu quem? E erguendo o rosto , quando se alinharam nossos olhares, o nariz dele, tocou o meu, eu não conseguia evitar fechar os olhos, queria ver o rosto dele, fotografa-lo, mas o poder da presença era muito forte. Encostou a boca quente na minha, e veio a onda e me levou. Em pleno oceano fui. A onda volta, se afasta da praia, e quando afastou paulatinamente a luz da minha boca, quando foi recuando o beijo, coloquei o dinheiro que ele me deu no bolso da calça amarela, sem que percebesse, era eu que pagava a ele. Um serviço que ninguém nunca fez por mim. Uma benção.
Te conto isso com o cigarro que nunca acendi na boca. a única coisa que incediou fui eu, inteira. e cada vez que coloco o esse cigarro na boca, tenho a impressão que fumar não suja só os pulmões, limpa a minha alma, eu, que nunca fumei. Com o cigarro nos lábios.
Eu queria comer sua presença. Eu, em estado de graça e morte fui caindo na cama, quando ele fechou a porta. Depos que ouvi os passos dele chegando ao fim do corredor, parou, e senti que voltava, o som era o reverso. Me precipitei e abri a porta assustada. ele parecia bem, descansado. ergueu a cabeça, e do meio do corredor perguntou:
-Como é o teu nome?

Um comentário:

  1. Realmente gostei do teu estilo de escrever. Bem descontraído e dá ênfase aos detalhes que intimamente todos valorizam, trazendo-nos epifanias.

    ResponderExcluir