Consegui uma bolsa na Universidade da cidade de Paris, iria estudar a tradição da cultura parisiense,o modo de viver tão retratado, seus esteriótipos, suas possíveis verdades, seus cafés, boinas, baguetes, macarrons, croissants, bateau mouches. Meu pai, me lembro de ter perguntado, o por que de eu não estudar o modo de vida de minha terra, o modo de vida recifense. Eu não queria saber de Recife, eu sempre quis morar em Paris, desde que eu vi Beijos Roubados, aquela música de Charles Trenet, me deu uma saudade de Paris, só que eu nunca tinha pisado em Paris, eu tinha uns doze anos quando vi esse filme. Eu queria ver Paris, pretendia morar um tempo, já que eu passei algum tempo estagiando, consegui dinheiro pra passagem, meu pai me prometeu uma mesada, em Paris as coisas não eram baratas, pelo que me dizia minha tia Eunice, a única pessoa que eu conhecia que já tinha ido pra Europa. Eu queria ter visto a revolução de 1968 de perto, queria ser amiga de Marcello Mastroianni, e queria pentear meus cabelos e fazer as unhas com Catherine Deneuve, mas achei depois que ele fosse preferir tomar um bom vinho e comer torradas com manjericão e tomate na praça perto do seu apartamento, em Trocadero. Eu com Jean Pierre Leaud jogaria pedras no canal de Saint Martin.
Desembarquei em Paris em julho de 1980, ainda peguei no cinema O Último Mêtro, filme maravilhoso, foi por causa de Truffaut que me apaixonei por Paris. Me instalei em meu apartamento, um aluguel caríssimo, que meu pai pagava, graças a Deus, eu tive essa oportunidade de viver em Paris. era um apartamento MUITO pequeno, mas eu o amava. Eu jamais reclamaria da vista. Comecei meus estudos, a universidade era longe do meu apê, eu pegava o metro,não o último, mas o primeiro, tinha que chegar lá bem cedo. Tava fazendo um artigo sobre a importância do cinema francês no modo de ver a França, queria falar com alguém, quem sabe conseguir uma entrevista com jeanne Moreau, Anna Karina, Philipe Garrel. Ia ser difícil, mas eu queria muito fazer isso, eu estava completamente fascinada por Paris, e por aqueles pessoas que eu não conhecia, eu não fizera nenhum amigo até o presente momento.

Nossa eu caminhava pela tarde de Montmartre, quando vejo de longe uma figura conhecida. Vinha na mesma calçada que eu, e entrou no café, acompanhando um homem meio careca, era Fanny Ardant, as pessoas olhavam pra ela. Eu entrei no café, queria falar com ela, mas ela estava com o homem de costas para mim, olhou pra mim e sorriu, aquueles dentes branquíssimos, o cabelo curto, Fanny usava lenço na cabeça, ela era a rainha do café Doinel naquele momento. Eu me sentei na mesa que eu encontrei, meio afastada, pedi um café antes que a garçonete me expulsasse, meu francês era bom. Ela se levantou, todos olharam para ela, mas quem foi parado por um senhor de óculos, e sua esposa de cabelos longos foi o homem que a acompanhava. foi quando eu vi: MEU DEUS, era François Truffaut! eu tinha que abraça-lo rapidamente, e entrevistá-lo em seguida

Eu consegui algumas palavras com ele, mas ele tinha prece, falou alguma coisa sobre Gerard, Gerard, tudo bem, ele pediu que eu voltasse a esse café, ele vinha frequentemente, provavelmente ainda essa semana tomaria uma café preto no Doinel. Eu voltei pra casa, já se aproximava o fim de semana, fiquei pensando em Truffaut, e em como eu o entrevistaria, que perguntas faria:
Como o senhor classificaria a atual situação do cinema francês?
Como VOCÊ vê a representação das mulheres em seus filmes?
Como você escolhe onde vai filmar?
Filmar Paris é natural para o senhor/você?
Fiquei com minha Molesquine rascunhando umas perguntas, olhando boba a vista da minha janela. Me sentia só em Paris, é bem verdade. não conhecia ninguém. Só a porteira, que não raspava o sovaco. Mas o cheiro de algodão doce enchia meu apartamento.

Eu não sei como será a entrevista, peguei minha mala, que ainda guardava algumas coisas que eu não tinha usado, e vi o disco de Maria Bethânia, Mel, tava no plástico, peguei pra ouvir. Finalmente eu coloquei pra tocar. Eu tô com saudade de cantar com minha mãe. E de descer as escadarias do nosso apartamento. Eu tenho escadarias na minha rua, mas ela me levam a lugares estranhos. Talvez seja isso que eu queira, me perder, depois eu penso nisso, tenho que pensar em Truffaut. Gerard, Gerard? Depardieu! O novo filme pro ano que vem, vou perguntar sobre isso. Minha mãe disse que terra é onde a gente vive. Minha mãe nunca entendeu, nunca gostou de filmes franceses, achava chatos, não tocavam a ela ela gostava de Anna Magnani, e de Sophia Loren, apesar de opostas, ela gostava dos filmes dublados em italiano, não se gravava som direto. Ela me perguntou por que eu não ia pra Roma, talvez eu ainda vá. Quem sabe. Será que esse cinema me diz? Ou me beija? Me bate? Vou ver se me encontro com Truffaut. Descendo pelas escadarias da minha terra.





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