Origens:
"Estão no Brasil as obras "Guerra e paz" de Cândido Portinari. São dois paíneis de catorze metros de altura cada, um representa os horrores da guerra e o outro a paz e a sensação de calma. Os paíneis foram concluídos em 1957 e doados à Organização das Nações Unidas."
-Aff, desliga essa tv.
-Que foi?
MANAUS, 1957
O professor de botânica da Universidade de Sarajevo, na Iugoslávia(Univerzitet u Sarajevu), Andrej, viajou milhares de quilômetros para estudar as espécies tropicais que abundam nesssa parte do Brasil, em especial as pteridófitas.A aluna de Antropologia do curso de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco,Margarida,também viajou alguns milhares de quilômetros, uns dois milhares- um pouco menos do que o ilustre professor europeu-para estudar a vida nas aldeias indigénas ao redor da capital do Amazonas. As aldeias periféricas, o seu contato com a cidade.
Os dois, que chegaram em Manaus no mesmo dia, se juntaram ao resto do grupo de mestres, exploradores, seringueiros e fazendeiros para seguirem com a montagem do acampamento e todo o resto da organização na mata.
Andrej só falava inglês no acampamento.Margarida era a única mulher do grupo, e é claro que veio acompanhada do seu marido, o ornitólogo Joaquim Emanoel, que realizava um dos sonhos da sua vida, o de estudar as coloridas aves da amazônia, já que no Recife as espécies já tinham se esgotado em seu catálogo- e ele não deixaria a sua mulher andando sozinha pela floresta amazônica, cercada por índios de tanguinha.
Joaquim aranhava um inglês e conversava com Andrej, lhe interessava todas as áreas
da biologia, e também queria saber da Iugoslávia, um lugar de que pouco se sabia. Margarida que arranhava o tupi, fez amizade com os pequenos índios, estes a ensinavam a se pintar com o urucum. Tudo ia bem, principalmente para Andrej, que estava completamente fascinado pela riqueza da floresta e do povo ribeirinho. A comida, os sucos de fruta...A mandioca, tacacá, tucupi,o jacaré na brasa, o cupuaçu.
É bem verdade que Margarida e Joaquim enfrentavam crises no casamento, Margarida era muito diferente, ousada, estudava demais, não cumpria com as obrigações na casa. Joaquim por sua vez vivia rodeado por raparigas de todas as partes, da cidade alta de Olinda, até Prazeres de Jaboatão, muitos prazeres.
O banho da equipe era no rio, Joaquim tomava de noite com Margarida para que os marmanjos não botassem o olho no que é seu, Margarida tinha um corpo muito bonito, tinha os cabelos cumpridos, encaracoldos e claros, o nariz pronunciado e os seios pintados com sardas. No rio, o casal nu. a água era gelada.
Andrej, desacostumado com o calor da floresta tropical, vivia sem camisa, era muito jovem, tinha lá seus trinta anos, no máximo. Um dia na hora do almoço, quando todos se reuniam para comer o que a floresta e o rio tinham a oferecer, Os pequenos indiozinhos começaram a pintar com as sementes coloridas na barriga branca de Andrej que ria de cócegas, uma indiazinha de franja no olho, chegou correndo puxando Margarida, quando viu a situção começou a rir. As crianças começarama pintar seu rosto também. Margarida se juntou a eles e ajudou a pintar as costas de Andrej, quando o curandeiro chamou os pirraias e eles abandonaram a dupla de estrangeiros, faltava ainda pintar o rosto de Andrej.
-Você entende o que eu falo?
Andrej balançou a cabeça, afirmando que sim. Já fazia três meses que estavam na mata.
-Sim.
-Vamos pintar esse seu rosto branco, não é?
-Sim.
Andrej era muito risonho. Margarida se aproximou do seu rosto e começou a pintar, as sementes com cheiro forte.Um traço com os dedos ao longo do nariz, os dois na bochecha rosada com o calor. O vento soprou tão forte naquele momento.O cabelo de Margarida até grudou na tinta.
-Pintarei sua boca, tudo bem?
-Sim.
Margarida até se perdeu um pouco no contorno dos lábios carnudos e rosados de Andrej, por que Joaquim não tinha lábios. Ventava.Joaquim se aproximou:
-Vamos almoçar Margarida.
Margarida respondeu assustada:
-Sim.
Notadamente Joaquim ficou surpreso e indignado com a estranha situação que presenciou no barracão do almoço.Ele deixou isso ainda mais claro para Margarida no final da tarde, quando se preparavam pra ir tomar banho.
-Não adianta estar no meio da floresta tropical, não é sua engraçada?Você arruma um jeito de me encher. Sempre.
-Sempre.
-Não me responda com esse tom mulher!
-Não foi uma pergunta, homem.
-Como é, engraçada?
-Eu não respondi a você, você não me fez uma pergunta.Isso seria uma abertura para o diálogo, coisa que não há entre gente de dois sexos.Não espero tanto de você Joaquim, não lhe espero tão avant-garde.
-Hum, até palavras estrangeiras aprendeu.Num foi sua engraçada?
-Foi.Mas não foi com esse homem do leste europeu, e muito menos com você, que nunca se prestou pra me ensinar nada do mundo.O que eu sei, eu que li Joaquim.
-Você não precisa saber de nada, pra o que você faz, se engraçar com os machos...Até a mais baixa cortesã de Manaus faz.
-Então o que será que esse senhor, este nobre mestre iugoslavo viu em moi?Talvez eu tenha alguma coisa extra não é? Um acréscimo aos meu serviços.Ele não me vê como mais uma prostituta.Pra falar a verdade, eu detesto acabar com tudo isso... ele não viu nada em mim...Nada aconteceu, eu pintei a cara dele.Só.
-Eu vi Margarida, eu vi que não aconteceu nada, mas ia acontecer, não ia?
Joaquim Emanoel segura Margarida forte pelo braço e torce.
-Ei! Me larga, tá louco é? me larga seu patife,imbecil.
-Fale direito comigo sua meretriz de favela, se não...
-Se não o que? Se não oque Joaquim, você mija na minha cara?
Joaquim dá uma tapa na cara de Margarida. Seus cabelos enlouquecem sobre a cabeça. Para quem queria urina a tapa não veio a calhar.Margarida sai da tenda, com as roupas e a toalha.Vira o rosto vermelho, ainda pintado pra Joaquim. Sorri. Tira a calça,joga na lama, depois a calcinha, e vai desabotoando a blusa no caminho para o rio.
Era fim de tarde no Amazonas quando já nua Margarida entrou na água, com a cara ainda pintada, gostava de sentir entre os dedos do pé aquele chão incerto e inconstante, do fundo do rio, aquela lama terapêutica. A água é tão limpa, tão doce. Se vê os peixes, um dia apreceu um casal de botos.
Margarida nua esquecendo Joaquim no rio, o melhor banho. Deu um mergulho profundo, emergiu, a água e a tinta lhe escorriam a pele.Seus seios molhados, seu ventre emerso davam lugar a descoberta e a intuição.Foi quando ouviu o barulho. Algo caira na água, três garças voaram.Alguém havia mergulhado, era ele, o homem europeu, Andrej, estava de costas.se virou, se assustou.
-Margarida!
Margarida está de pé, água batia no umbigo, só depois de alguns segundos nota que está com os seios fora d'água,cobre os peitos com os braços em X e se abaixa na água.
Andrej vai andando pra trás.
Um momento.
Margarida, fecha os olhos, e se levanta.Tira dos seios as mãos que os escondiam. Mostra. Sente as folhas da água descerem com seu braço, o vento.
Andrej mergulha e vem até ela por debaixo da água.Um frio leve correu a espinha de Margarida, ela sentiu ele se aproximar, os caminhos do rio são muitos, e se abriram, a água estava morna. Quando Margarida voltou a ver Andrej, ele já estava com os olhos fechados,colados nos seus olhos.Margarida fechou os seus, sentia o nariz, a boca e a presença. Desmanchou-se qualquer receio e pudor.O rio corria aberto e quente. Nenhum pássaro se moveu.
RECIFE,1968
-A situação só tende a piorar Andrej.Sabes disso.
-Marcos Langadone sumiu.
-Sumiu?
-Sim, desapareceu.
-Eu sei o que quer dizer sumiu.O mesmo aconteceu Andrej, no departamento de ciências humanas.Mariana Mariarco, Jorge Silva e Otáviano Espinhal, nenhum deles aparece na universidade desde o ínicio das aulas.
-Talvez, Margarida, eu não quero me precipitar, mas com a minha decedência.
-Se precipitar Andrej? Nós já deviamos estar fazendo as malas.
-Não exagere. Os professores militantes sumiram, mas nós nunca nos envolvemos não foi Margarida?
-Andrej.
-O que foi?
-Não é mais seguro.
-Não, não é mais seguro Margarida. Mas para onde nós iremos?Pro exílio? Viver de que?
-Vamos embora.
-Não podemos.
-Podemos sim!
-Como ir?Vamos ficar cala...
-Eu estou grávida.
Andrej encosta a cabeça na parede, olha pro teto branco.Uma lágrima escorre de seus olhos, divide a parte inferior do rosto em duas.Margarida anda pra lá e pra cá, sem parar de roer as unhas.
-Andrej.
-hum.
-Nós temos que ir.
As lágrimas escorrem do rosto de Andrej.Margarida desaba:
-Andrej!Eu estou com tanto medo, dova aula pra uma turma onde noventa por cento é comunista, hoje na sala não tinha mais que vinte pessoas! Vinte Andrej. Onde eles estão? nas ruas? No campo?Vamos embora desse país de merda.
Na calada da mesma noite, bateram na porta, com ordem de prisão para a professora Margarida Campos.Andrej e margarida foram levadas pro departamento de detenção.
-A senhora está sendo intimada professora.
-Intimidada?
-Entenda como quiser.
-Aceita uma bebida professora?
-Por que o protocolo general? Não vai mandar arrancar meus seios?
-Acontece professora, que a senhora é um caso especial.
-A que devo a honra?
-A senhora é professora da minha filha.
Margarida fica calada.
-A senhora tem alguma ligação com comunistas senhora Margarida?
-Só pela televisão.
-Pela televisão?
-Sim.Nas novelas todos são ricos, e isso é o mais perto que eu já vi de uma sociedade igualitária.
O general aperta o braço de Margarida com força.
-Eu aceito sua bebida general.
-Uhm, não sou general.
-Eu sei.
-E por que insiste em me chamar assim?!-O homem derrama um pouco da bebida barata no chão, se altera levemente.
-Boa pergunta, acho que nunca lidei com um militar antes. Peço desculpas.
-Não se preocupe. Então, a senhora conhece estes elementos?- O homem mostra cerca de dez fotos de homens e mulheres, oito desses são seus alunos.
-Quem a senhora conhece daqui professora?
-Uhm...
-Beba.
-Receio que posso ter visto esse, ou esse, mas não aparecem há muito tempo. Não estou certa, é uma pena que não possa lhe ajudar.
-Não se faça de tão espertinha professora. sei que oito desses elementos estão matriculados na sua disciplina "A invenção do homem puro".Estou correto?
-Talvez.
-Beba, por que a senhora não bebe? Está doente?
-Não.
-Tá grávida?
-Não. Graças a Deus.
-Filhos são uma benção professora Margarida, vejo pelos meus, tenho quatro, você conhece Sílvana, menina pura, honesta.
-Sim, uma das alunas que mais se destacam, o senhor tem que ter orgulho dela mesmo. Tem muito vagabundo por aí.
-Sim, sim.Eu gosto da senhora professora, quem sabe possamos jantar juntos na minha casa,eu, a senhora, minha esposa, seu esposo, senhor Andrej Mlic, não é isso e meus filhos.
-Uhum, seria bom.
-Muito bem. A senhora pode ir, depois nós conversamos mais, a senhora tem muito pra contar não é?
-Receio que fique desapontado com o tão pouco que sei.
-Receio que não.Até mais professora.Ah, e não saia de Recife, tudo certo?
-Tá certo, eu não vou sair.
Continua...
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Eu ainda espero a continuação.
ResponderExcluira palavra do comentário foi batom.
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